quinta-feira, março 31, 2011

Amuo

Ando triste com o meu país. Pelo meu país. Só sabemos sonhar, escrever sonetos e fixar fronteiras. Lidamos mal com o dinheiro, com a vida farta, somos grandes e pequenos ao mesmo tempo, somos canastrões, achamos no queixume cura, tropeçamos na felicidade e caimos. Vivemos para parecer, esquecemo-nos de quem somos quase todos os dias. Unimo-nos pelo futebol, por Timor, lá longe, e pela falta de dinheiro, pelo esvaziamento das expectativas. Ou não votamos ou somos pouco criativos no voto. Toda a gente leu o Ensaio sobre a Cegueira mas esqueceram o melhor, o Ensaio sobre a Lucidez. Não somos criativos nas alternativas, estudamos para enriquecer, desdenhamos o saber perante o atalho da esperteza. Julgam-nos pelos políticos que temos e muito bem. Eles acham-nos tolos, discursam para avestruzes, lutam pelo poder que já os corrompeu, deixam que o mundo inteiro nos invada de especulações, arrasando, ainda que por momentos, o que de mais precioso temos: os nossos sonhos, os nossos sonetos, as nossas fronteiras.

terça-feira, março 29, 2011

Coisas simples que demorei a aprender

"Pain is inevitable. Suffering is optional."
Haruki Murakami

quarta-feira, março 23, 2011

Success

Success is a great deodorant. It takes away all your past smells.
Elizabeth Taylor

Zarpar

Pela manhã ouvia um relato-síntese dos jornais alemães de hoje acerca da situação do nosso país. Apontavam a falta de formação/escolaridade dos portugueses (a começar pela do primeiro Ministro, acrescento) como principal razão para fraca capacidade concorrencial, espantavam-se como Portugal, após 25 anos de UE, ainda não conseguira solidificar a sua economia.
A parte boa é que os alemães desconhecem a nossa história, há mais de quinhentos anos que andamos nisto, falimos sete vezes desde então e não nos chegou explorar todas as riquezas do mundo para nos alicerçarmos.
Agora zarpamos de novo. No cimo da colina os velhos do Restelo saíram da toca e, num magistral arrobo de última hora, alertam para os perigos desta crise. Dentro da nau só cabem os clarividentes, os instruidos, os esforçados, os honestos e os que já não aguentavam mais viver em casa dos pais. Todos, mais ou menos à rasca, vamos desenrascar-nos com biscoitos e esperar que o escorbuto não chegue. Todos sabemos que o mar é duro, quase intransponível, que as noites são longas e os juros são altos. Resta-nos trocar impressões sobre tudo o que lemos até agora, contar as estrelas e ter esperança que existe ainda um novo continente por descobrir.

segunda-feira, março 21, 2011

Perigeu

Estavas brilhante como sempre mas mais próximo que nunca.

Perigeu é o ponto mais próximo da órbita de um astro, ou nave, que gire em torno da Terra

Bem aventurados os que blasfemam


Um amigo brasileiro, que se dedica ao estudo destas coisas, enviou-me a seguinte lista que não posso deixar de partilhar com vocês (bold meu):


LISTA DE IGREJAS ABERTAS NO BRASIL EM 2010 (até Setembro)
- Igreja da Água Abençoada - Igreja Adventista da Sétima Reforma Divina - Igreja da Bênção Mundial Fogo de Poder - Congregação Anti-Blasfêmias - Igreja Chave do Éden - Igreja Evangélica de Abominação à Vida Torta - Igreja Batista Incêndio de Bênçãos - Igreja Batista Ô Glória! - Congregação Pass o para o Futuro - Igreja Explosão da Fé - Igreja Pedra Viva - Comunidade do Coração Reciclado - Igreja Evangélica Missão Celestial Pentecostal - Cruzada de Emoções - Igreja C.R.B. (Cortina Repleta de Bênçãos) - Congregação Plena Paz Amando a Todos - Igreja A Fé de Gideão - Igreja Aceita a Jesus - Igreja Pentecostal Jesus Nasceu em Belém - Igreja Evangélica Pentecostal Labareda de Fogo - Congregação J. A. T. (Jesus Ama a Todos) - Igreja Evangélica Pentecostal a Última Embarcação Para Cristo - Igreja Pentecostal Uma Porta para a Salvação - Comunidade Arqueiros de Cristo - Igreja Automotiva do Fogo Sagrado - Igreja Batista A Paz do Senhor e Anti-Globo - Assembléia de Deus do Pai, do Filho e do Espírito Santo - Igreja Palma da Mão de Cristo - Igreja Menina dos Olhos de Deus - Igreja Pentecostal Vale de Bênçãos - Associação Evangélica Fiel Até Debaixo DÁgua - Igreja Batista Ponte para o Céu - Igreja Pentecostal do Fogo Azul - Comunidade Evangélica Shalom Adonai, Cristo! - Igreja da Cruz Erguida para o Bem das Almas - Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino Coelho, a Sumidade - Igreja Filho do Varão - Igreja da Oração Eficiente - Igreja da Pomba Branca - Igreja Socorista Evangélica - Igreja A de Amor - Cruzada do Poder Pleno e Misterioso - Igreja do Amor Maior que Outra Força - Igreja Dekanthalabassi - Igreja dos Bons Artifícios - Igreja Cristo é Show - Igreja dos Habitantes de Dabir - Igreja Eu Sou a Porta - Cruzada Evangélica do Ministério de Jeová, Deus do Fogo - Igreja da Bênção Mundial - Igreja das Sete Trombetas do Apocalipse - Igreja Barco da Salvação - Igreja Pentecostal do Pastor Sassá - Igreja Sinais e Prodígios - Igreja de Deus da Profecia no Brasil e América do Sul - Igreja do Manto Branco - Igreja Caverna de Adulão - Igreja Este Brasil é Adventista - Igreja E..T.Q.B (Eu Também Quero a Bênção) - Igreja Evangélica Florzinha de Jesus - Igreja Cenáculo de Oração Jesus Está Voltando - Ministério Eis-me Aqui - Igreja Evangélica Pentecostal Creio Eu na Bíblia - Igreja Evangélica A Última Trombeta Soará - Igreja de Deus Assembléia dos Anciãos - Igreja Evangélica Facho de Luz - Igreja Batista Renovada Lugar Forte - Igreja Atual dos Últimos Dias - Igreja Jesus Está Voltando, Prepara-te - Ministério Apascenta as Minhas Ovelhas - Igreja Evangélica Bola de Neve - Igreja Evangélica Adão é o Homem - Igreja Evangélica Batista Barranco Sagrado - Ministério Maravilhas de Deus - Igreja Evangélica Fonte de Milagres - Comunidade Porta das Ovelhas - Igreja Pentecostal Jesus Vem, Você Fica - Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo - Igreja Evangélica Luz no Escuro - Igreja Evangélica O Senhor Vem no Fim - Igreja Pentecostal Planeta Cristo - Igreja Evangélica dos Hinos Maravilhosos - Igreja Evangélica Pentecostal da Bênção Ininterrupta - Assembleia de Deus Batista A Cobrinha de Moisés - Assembléia de Deus Fonte Santa em Biscoitão- Igreija Evangélica Muçulmana Javé é Pai - Igreja Abre-te-Sésamo - Igreja Assembléia de Deus Adventista Romaria do Povo de Deus - Igreja Bailarinas da Valsa Divina - Igreja Batista Floresta Encantada - Igreja da Bênção Mundial Pegando Fogo do Poder - Igreja do Louvre - Igreja Evangélica Batalha dos Deuses - Igreja Evangélica do Pastor Paulo Andrade, O Homem que Vive sem Pecados - Igreja Evangélica Idolatria ao Deus Maior - Igreja MTV, Manto da Ternura em Vida - Igreja Pentecostal Marilyn Monroe - Igreja Quadrangular O Mundo É Redondo - Igreja Pentecostal Trombeta de Deus (Samambaia -DF) - Igreja Pentecostal Alarido de Deus (Anápolis -GO) - Igreja pentecostal Esconderijo do Altíssimo (Anápolis -GO) - Igreja Batista Coluna de Fogo (Belo Horizonte -MG) - Igreja de Deus que se Reúne nas Casas (Itaúna -MG) - Igreja Evangélica Pentecostal a Volta do Grande Rei(Poços de Caldas-MG) - Igreja Evangélica Pentecostal Creio Eu na Bíblia (Uberlândia -MG) - Igreja Evangélica a Última Trombeta Soará (Contagem -MG) - Igreja Evangélica Pentecostal Sinal da Volta de Cristo (Três Lagoas -MS) - Igreja Evangélica Assembléia dos Primogênitos (João Pessoa -PB) - Ministério Favos de Mel (Rio de Janeiro -RJ) - Assembléia de Deus com Doutrinas e sem Costumes (Rio de Janeiro -RJ)

terça-feira, março 15, 2011

é do outro lado do Mundo...

... mas é no Mundo.


Imaginem-se em 1755, observando da colina de Campo de Ourique onde a água do tsunami após o grande terramoto de Lisboa, chegou, como afirma ainda hoje o povo, rés-vés. Por estes dias, ao ver as imagens da catástrofe japonesa, fiz a pior viagem no tempo da minha vida.

sábado, março 12, 2011

Eu Vivo A Sorrir


Há coisas que nunca mudam. A doçura da sua música é uma delas.
Vivo a sorrir é a primeira faixa do seu último trabalho e para mim lema de vida adoptado e praticado:
" vai que me espera com boas notícias o inesperado".

quarta-feira, março 09, 2011

10 anos, 10 minutos


Depois de dez anos e de dez minutos de conversa, ele diz-me, surpreendido, que estou igual. Não lhe posso dizer que não é verdade, seria explicar-lhe percursos sinuosos cá dentro e para isso gastaria, previamente, fortunas em psicoterapia. Então sorrio, mostrando, orgulhosa, recentes rugas de expressão. Tomo a afirmação como um cumprimento e agradeço não podendo, contudo – porque sabemos, há coisas que nunca mudam – retribuir.

terça-feira, março 08, 2011

Razões

43 mulheres mortas em Portugal durante 2010, fruto de violência doméstica. A cobardia é uma das múltiplas razões porque ainda é preciso comemorar anualmente o dia da Mulher.

segunda-feira, março 07, 2011

árvores de sonho

ando a sonhar mais do que o habitual. Agora também com o próximo destino de férias.

domingo, fevereiro 27, 2011

Ondas


Nestes dias de boas e intermináveis conversas à beira Mondego, de algumas insónias saudáveis e de novas (e muitas) sinapses deixo-vos a banda sonora que me acompanha.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Bizarrias


Caros leitores,
Preocupo-me com vocês. Com os que estão na fila da Segurança Social, com os que conhecem todas as cadeiras do Centro de Emprego, com os que morrem de tédio no gabinete forrado a pau preto do Brasil, com os que se afundam em pilhas de papeis, com os aquecedores profissionais debiberons ou com os que teclam incessantemente durante oito horas. Se estão deprimidos e querem mudar de vida eis uma oportunidade única. Se obtiverem um bom aproveitamento dá direito a uma digressão mundial (é a globalização) e bonés cheios de moedinhas(é o capitalismo).

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Trinta anos depois

Ontem voltei ao teatro D.Maria II para ver o Azul Longe nas Colinas. Já conhecia o autor do texto,D. Potter (penso que não aparentado com o H.Potter, embora saiba também fazer magia com as palavras), mas confesso que fiquei surpreendida pela simplicidade, pela interpretação, pela encenação. No caminho para casa, cansada mas reconfortada, fui pensando no momento em que perdi a minha ingenuidade (não o consegui localizar... assustador) e nos dias da minha vida que vão correndo, recheados de momentos não muito diferentes do recreio do colégio que frequentei na primeira classe: as Anas (Sofia e Rita) nunca me queriam emprestar as bonecas loiras e sorridentes e os mil acessórios só porque eu era a melhor aluna da turma e jogava, na perfeição, ao berlinde com o André Pina.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

(à)Rasca

Ontem, de novo, televisão. Na SiC via o especial sobre a Geração à Rasca. A minha, denominada carinhosamente Rasca, ficou atenta. Nada a criticar no todo, embora a publicidade ao Instituto Superior Técnico em Lisboa fosse um tudo nada exacerbada dada a importância do assunto analisado. Contudo, fiquei boquiaberta quando uma jovem de Vila Real, nos seus 20 e poucos anos, cortava frango ferozmente na cozinha de sua mãe e vociferava contra a falta de emprego desde o momento que acabou o seu curso de Tecnologias da Comunicação, em Outubro passado: “Andamos nós a matar a cabeça durante três anos para depois não termos oportunidades”. A angústia que causa a incerteza é tramada, todos sabemos ciclicamente disso. Mas, jovemàrasca, não digas assim, cheia de raiva, que mataste neurónios durante aqueles poucos anos (ai Bolonha, bela cidade!) a aprenderes coisas eventualmente relacionadas com tecnologia. Matar seria não teres tido a oportunidade de estudar e quereres muito fazê-lo, matar é repetir sem pensar frases de senso comum, matar é cortares o frango com toda a tua ira, matar é a decoração da cozinha da tua mãe (já agora). *
Jovensàrasca, este país não é para velhos nem para novos. É para os instalados (e contra eles nada podemos fazer, somente ansiar pela sua reforma - e pagá-la), para os esforçados (criativos trabalhadores que não se deixam cilindrar pelo absurdo diário) e para aqueles que sabem que matar a cabeça é antes ficar à espera, inamovíveis, que a vida lhes aconteça.
*Jovemàrasca, um conselho, uma ideia: que tal pegares nos teus conhecimentos de tecnologia de comunicação e nos teus outros de gastronomia regional transmontana e fazeres um site delicioso de culinária? Deixa crescer o cabelo, põe lentes de contacto, exercita a parte do cérebro que sobreviveu ao triénio académico e quiçá não puderás ser a nossa Nigella.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Vers(o)us


Uma noite de profunda insónia, daquelas que, na minha sonolenta vida, só acontecem de dez em dez anos, permitiu mil trabalhos: navegar, ler e reler, estudar e descobrir a programação nocturna da SIC Notícias (já que da diurna só sei de noticias e mais notícias e mais opinião pública e privada e mais notícias).
Num spot fantástico sobre a actividade jornalística do Canal no mundo, em voz off, o poema do grande Oswaldo carioca que me deixa sem palavras (vide post anterior).
Lá para as 4 da manhã uma inquietante reportagem intitulada Israel vs Israel (se puderem vejam, passará repetidamente a semana inteira). Fala de judeus israelitas que ousaram pensar as pessoas e secundarizar a terra e as palavras de Deus das quais, porque lidas pelos Homens, brotam rios de sangue. A coragem de pensar num território onde nada é racional. Aprendi muito, esbateu alguns dos meus preconceitos. Porque a realidade dura, infame, injusta também pode ser versos reescritos todos os dias.

Metade


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também.


Oswaldo Montenegro

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Labirinto

Há dias, como o de hoje, que saímos doridos de labirintos inconsistentes em que julgámos nunca ter entrado. Resta reaprender a caminhar em linha recta, planície afora.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Há dias em que acordamos nos anos 70

Hoje é o dia. Vai o Tokalon Placenta (?!) para sermos responsavelmente?

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Entrar

A porta fechou-se logo atrás de ti. Eu fiquei de janelas trancadas e tapete desalinhado por teres arrastado desastradamente a mala. Não era por aqui que queria começar, embora possa ser o melhor dos começos. Queria escrever sobre portas, trancadas, abertas, perras, escancaradas, arrombadas e sobre malas que se arrastam na ligeireza dos caminhos que percorremos. Entramos e saímos sempre pela porta e com coisas, por vezes tantas, atrás, aos ombros, ao colo. Depois de pensar nisto passei a escolher janelas que me deixam entrar de mãos vazias. Sentada no parapeito ensolarado consigo abraçar-nos sem preocupações, com vista desafogada para amanhã. Nunca mais vi um tapete desalinhado.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Uma anedota de ditador

"Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas.
Um rapazinho chamado Ramy levantou a mão e o Presidente egípcio interpelou-o:
- O que queres saber?
Ramy disse:
- Tenho quatro perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente? Terceira: por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e a política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?
Nesse preciso momento, a campainha tocou e Mubarak informou as crianças que voltaria depois do intervalo.
No regresso, retomou a conversa:
-Ok, em ponto estávamos? Ah, já sei... Na sessão de perguntas. Alguém quer perguntar alguma coisa?
Um outro rapazinho levantou a mão. Mubarak apontou para ele e pediu-lhe que se identificasse.
- Eu sou Tamer, respondeu o menino.
- E qual é a tua pergunta, Tamer?
- Eu tenho seis perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente?Terceira: por que é que os seus dois filho, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada? Quinta: por que é que a campainha tocou para intervalo 20 minutos antes do que é habitual? Sexta: o que é que o senhor fez ao Ramy?

Esta velha anedota, sussurrada entre portas e relembrada por Issandr El Amarani no seu blogue The Arabist, exprime bem algumas das razões que levaram os egípcios a perder o medo e a reclamar, não em segredo mas nas ruas, o fim de um regime ditatorial em vigor há quase três décadas."


No jornal Público de ontem, ilustrando a revolta no Egípto.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

Pequenas injustiças do mundo burguês

Os bancos são vermelhos, enormes, quatro, logo à entrada. Entendemos todos que deve ser assim. Por isso ninguém arranca a sinalética ou rasga os estofos. Contudo parte de nós, cansados da vida, dos outros e sobretudo dos que já viveram muito, dos que vivem mal ou dos que são, por nove meses, dois em um, aproveitam a cómoda oportunidade transformando aqueles bancos, enormes, numa passadeira vermelha para que desfilem, entre paragens urbanas, todo o seu egoísmo.

sábado, janeiro 29, 2011

poema das árvores e da aprendizagem

tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com a felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo.


valter hugo mãe
in Contabilidade

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Relativo Absoluto Sintético

(aviso que, levado em conta, pouparia inúmeras presunções, considerações e constatações classificadas ruidosamente como egoinúteis).

segunda-feira, janeiro 24, 2011

1/8C+(D-d) 3/8xTI MxNA

Talvez não seja o pior dia do ano, contudo não será certamente o melhor.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

The Girl Effect: The Clock is Ticking



Uma rapariga. A realidade. Uma vida. Uma ideia. Todo o mundo.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Sacode as Nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, janeiro 13, 2011

não há Direito

O que se comenta nos transportes públicos nacionais por estes dias? Uma pista: não é a crise nacional. Já ouvi de tudo, porque o povo é sereno mas não é sensato, ladeado por espectros pessoais e deturpações biblicas que asfixiam a razão. E diziam dois "sábios" anciãos que conversavam discretamente sobre o assunto sem pronunciarem algumas palavras, aquelas que os ferem, as que fingem não saber quais são: "Coitado do rapaz, na flor da vida... Não há direito!" E não há mesmo Direito. Eu não diria melhor.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Diametralmente


Eu e o país andamos em fases diametralmente opostas, exceptuando talvez na área financeira com uma acrescida dificuldade da minha parte por não ter a oportunidade de aceder ao fundo europeu de apoio financeiro e posteriormente ao FMI. Quero dizer com isto que 2011 começou confuso para Portugal, totalmente claro para mim. Uma semana de férias, caixotes e caixotes arrumados nos novos armários, uma casa inteira para organizar, aniversário e trabalho académico pelo meio, fizeram de mim a mulher mais metódica e produtiva de Portugal (uma espécie de relógio suíço alfacinha). E talvez também a mulher que mais horas assistiu à TV, desde a fantástica Nigella passando por mil debates, mais ou menos exaltados/idiotas, a umas séries maravilhosas. Mãos destruídas por acartar todas as bugigangas e pelo zapping constante resolvi parar um pouco e pensar nesta cacofonia de “experts e opinion makers” que nos assalta. Quase ninguém analisa nada, olham para o umbigo, insistem em não sair da redoma de preconceitos, defendem interesses, em última instância, económicos. Temos uma campanha eleitoral, um homicídio escandaloso, o melhor treinador de futebol do mundo, um governo que vive de aparências, um recibo de vencimentos angustiante, um pezinho a resvalar no precipício. Temos bom vinho embora seja um luxo bebermos as quantidades diárias de que precisamos para sobreviver. Temos também um clima óptimo. Pena que tenha chovido tanto ultimamente.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

2011

As minhas intenções de escrever aqui nestas duas semanas têm sido ultrapassadas pelos acontecimentos da vida. Trabalho de final de ano, obras, mudanças, uma festazinha aqui, um jantarinho ali, leituras obrigatórias do doutoramento, idas ao dentista (que afectam o espirito critico e capacidade criativa de qualquer um)...
2010 foi um ano de grandes transformações do direito e do avesso. Algumas sobram para 2011. Sobra ainda muita esperança para este novo ciclo e um beijo enorme para cada um que, depois destes anos, ainda tem coragem de me ler (vão-se tratar!).

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Natal


Acordei e é de novo Natal. Repetir rituais, sentir um aconchego imenso no meio de todo este frio. A quem passa por aqui : um verdadeiro Natal, ofereçam sorrisos e tempo aos outros.
Podia falar já em 2011 mas até lá ainda tenho muito para escrever!

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Coimbra

Vejo-me de novo em viagens pendulares semanais. Por essa razão redescobri Coimbra. Abandonei a ideia há muitos anos, mal catalogada, numa prateleira de sítios sem particular interesse. Depois de atravessar várias vezes o Arco da Almedina e vaguear colina abaixo colina acima vejo-me obrigada a rever a minha maneira expedita de catalogar lugares. Não é cosmopolita, nem glamourosa, nem presta uma oferta cultural muito além do imenso e intenso círculo universitário. Tem talvez demasiados shoppings, edifícios irreflectidos ou pontes ficcionadas. Talvez esteja demasiado dependente de interesses imobiliários e da elite intelectual que a coroa, dinamiza, projecta. Talvez os pés se arrastem pelo seu passado, tropeçando aqui ou ali no peso de uma história conservadora e revolucionária. Talvez o fado a entristeça e enterneça. Talvez os pastéis a engordem. Mas há qualquer coisa naquelas colinas, na serenidade do Mondego - mesmo quando reclama invasões - no choupal adormecido, no meu trisavô Boaventura, na maneira graciosa de pronunciarem as palavras… Há qualquer coisa ali, naquela cidade, que sussurra baixinho o quanto eu lhe pertenço.

Reminder (again)


segunda-feira, dezembro 06, 2010

And now for something completely real

Lia Ulrich Beck e caía aos trambolhões na realidade:

“Quanta pobreza pode suportar a democracia?”
"Eis a questão: o Estado é neoliberal com os pobres e socialista-protector com os ricos".

Meia dorida, e para descomprir, fui comprar presentes de Natal para as crianças.

segunda-feira, novembro 29, 2010

é o destino


Nesta estrada preta rolando, luzes e luzes de moldura, uns dormindo outros falando de banalidades com quem os espera, outros ainda alienados do mundo ou de si, não dá para averiguar. Outros ainda, eu, a pensar por onde andarás. Imagino-te num automóvel, despenteado, a meio de uma discussão definitiva, daquelas que nos empurram dilacerados para a frente. Imagino-te na varanda, enrolado numa manta que te vou oferecer, ignoras a temperatura nórdica de Genebra e, sem saber, fazes um cheque-mate a tudo o que não conseguias, até ali, dominar. Imagino-te a caminhar, pelos Pirenéus ou pelo bairro, sem cão, só a caminhar à procura de um pretexto. Caminhas por aí preocupado, livre, descontraído, assustado. Imagino-te a escolher um caminho, entrares naquela rua estreita de Amesterdão, cheia de pequenas lojas, onde vais descobrir inesperados presentes para os que amas. Experimentas uns sapatos que te fazem desistir da ideia de alugar uma bicicleta, as alterações de planos são o teu forte. Agora sei-te numa secretária, cumprimentas com simpatia e timidez, habilidoso a esconder o que importa. Tens uma vista e um gabinete onde não cabe nenhuma das tuas ideias, um pequeno aquário que te liberta da claustrofobia, nenhuma gaveta trancada. Imagino-te temendo o tempo porque ainda não me encontraste, não te podes enrolar na manta nem fazer cheque-mate, nem pedires que embrulhem aquele livro raríssimo descoberto na rua estreita e que tanto quero ler. Meu amor, o tempo urge, bem sei, mas descansa, o nosso é já amanhã, hoje estou por aqui nesta estrada, a meio da noite, novamente a imaginar-te e isso deve querer dizer alguma coisa.

terça-feira, novembro 23, 2010

80 anos dele

As Musas Cegas
(...)
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.


Herberto Hélder

quinta-feira, novembro 18, 2010

FMI

Há dias que só me apetece desaparecer para longe. Fazer a mala, marcar quatro golos a Espanha, romper as três zonas de segurança da Cimeira da NATO a toda a velocidade, apertar a bochecha ao Obama, dar canelada ao Sarkozy e tirar o pipo à Merkel. Apanhar um avião imenso que voasse baixinho e servisse perdiz e vinho tinto inexplicável para erradicar o medo. Aterrar no paraíso, em outra Lisboa, onde todos sorriem porque são felizes com o seu modelo de governo assente na educação e cidadania, onde não há subúrbios, nem crianças arfantes, jovens sem esperança, adultos esgotados, velhos sem vida. Quero aterrar nessa cidade branca e azul que parte do Tejo todos os dias para novas descobertas, onde a crise só seja temida se for de valores ou de ideias, onde a sigla FMI só pode querer abreviar Felicidade Mais Intensa.

quinta-feira, novembro 11, 2010

A falta

Era frequente encontrá-lo no início da Av. Fontes Pereira de Melo, acenando a quem passava. Seria loucura, perversão, obsessão, falta do que fazer? Há uns anos, depois de uma excelente peça jornalística sobre ele, entendi que era só feitio. Acenar a quem passa sem qualquer retribuição, ambição, compulsão. Morreu o Senhor do Adeus. Talvez poucos entendam a falta que ele nos faz.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Sonhos férteis


O sonho

Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


Clarice Lispector

segunda-feira, novembro 08, 2010

Um sonho de realidade

Sonhei, neste fim de semana, que estava sentada num sofá gigante a ver as seguintes notícias:
  • Papa visita Barcelona e cruza um núcleo gay que desata, nesse preciso momento, aos linguadões;
  • Autocarro do Benfica dirige-se para a cidade do Porto ladeado por centenas de luzes azuis (dos srs. polícias)que premonitoriamente o ofuscavam (vide resultado do jogo);
  • A China oferece-se para comprar a dívida portuguesa, num gesto grandioso de generosidade a que aquele país tem habituado todo o planeta.

Apartada dos tortuosos meadros da mente a realidade de segunda feira revela-se serena: o mesmo despertador, a mesma chuva sonsa de Outono, as mesmas queixas no autocarro, o mesmo bicho na castanha.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Reflexão pós debate orçamental e pré cataclismo social

"Hoje em dia, quando todos os partidos nos traíram, quando a política corrompeu tudo, não resta ao homem senão a consciência da sua solidão e a fé nos valores humanos individuais. Não podemos pedir a ninguém que seja justo no meio da demência universal.(...) Mas pelo menos não podemos forçar ninguém a ser injusto. Conscientes do que fazemos, recusaremos a injustiça enquanto pudermos, e serviremos o indivíduo contra os adeptos do ódio anónimo".
Albert Camus


Ou seja : "Estes gajos não têm nível. Temos é de fazer a nossa vidinha honesta e não lhes ligar peva. Assim aprendem logo".
Sr. António do Café

Os meus concertos em Outubro II

Rita Redshoes (a nossa Audrey Hepburn) na Aula Magna cantarolando alegremente músicas dos seus dois cds.

Os meus concertos em Outubro I

Camané no CCB apresentou o seu último CD. Lindo!

terça-feira, outubro 26, 2010

O tempo não é relativo

Continuo a não perceber porque é que algumas pessoas demoram tanto tempo, mas tanto tempo, mas tanto tempo a entender o óbvio.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Bússola

No final dos anos 80 um professor deu-me a nota num teste e, logo a seguir, escreveu "tu és a tua bússola". Tudo a vermelho. Aquilo impressionou-me, tanto que me apaixonei em segredo. Ele lia-me e sabia que eu era uma adolescente desorientada (facto inédito, aliás...), sabia quem eu era. Escusado será dizer que, num piscar de olhos, ele foi colocado em outro ponto do país e eu optei por esvaziar a paixão com um idiota qualquer em beijos roubados no pátio do liceu.
Ontem, ao ver "Comer, Orar e Amar" relembrei-me dele. Tinha começado a ler este livro há dois anos. Confesso que acabei mesmo antes de sair de Itália, no primeiro terço. A E. Gilbert é uma rapariga criativa e cheia de imaginação mas a sua condução da narrativa capotou algures numa das perigosas curvas e contracurvas do meu cérebro. Estamos perante um caso em que o filme é muito melhor que o livro. Além do grande impacto nos Media teve um outro, enorme, em mim, lembrando-me o que tanto tenho buscado depois de cruzar ruinas de cidades e cidades em decadência, de meditar todos os dias enquanto caminho para qualquer lado (menos adolescente, sempre desorientada).
"Tu és a tua bússola". Nem é preciso Itália, India, Bali ou Bardem. É só mesmo preciso saber de onde vimos e quem somos. Só assim saberemos para onde vamos.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Risco



Ela recebeu o relógio que lhe oferecera. Indiferente, mudou-lhe a correia, arejou-o, deu-lhe brilho. Era um relógio lindo, ficava-lhe bem. A ela. Frequentemente marca a cadência dos seus dias. Elogiam-lhe o pulso, o relógio, o tempo que sabe dominar.
Hoje, enquanto transportava numa caixa livros esquecidos algures, riscou-o, dramaticamente, numa esquina aguçada. Pousou a caixa, sentou-se devagarinho nos degraus e chorou como nunca. O acidente lembrou-lhe que afinal aquele relógio, tão perfeito, tinha sido, durante uns tempos, dele.

No regret

Na infindável saga de descobrir coisas interessantes para ler na imprensa, tropeço, desde a Ler à Caras, em entrevistas a pessoas que se destacam pelos livros que escrevem, por empresas que dirigem, pelo nome que ostentam, pelo baton que combinam, ou pela mamoca que operam. Tropeço, dizia, constantemente em exultos ao não arrependimento, à sua natural qualidade de acharem que NADA do que fizerem nesta vida é merecedor de tal sentimento.
Fico parva e relembro-me estupidamente mortal.
Eu que me arrependo todos os dias, pelo menos uma vez de manhã e outra pela tardinha, e faço questão de explicar aos merecedores essa minha caracteristica rara, a da condição humana.
Imagino que quem tenha vindo ao mundo sem coador no cérebro fique em pânico sempre que leia estes intelectuais, líderes de opinião, famosos, inúteis. Imagino que liberte esse medo nos psiquiatras, nos estádios, no colega de trabalho, na doméstica de serviço, na tromba do conjugue.
Assim segue o mundo, resolvido o passado, perfeito o presente, promissor o futuro.

sexta-feira, outubro 15, 2010

País


Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país.

Esta frase do Jonh F. Kennedy tornou-se num desafio radiofónico (TSF) para quem quisesse responder ou pura e simplesmente pensar nisso. Pela minha parte acho que posso melhorar o país se acordar de bom humor todos os dias, se usar os transportes públicos, se cumprir o melhor que sei as tarefas públicas que me são destinadas, se estudar, se aprender a conhecer os outros cada vez melhor, se consumir estrategicamente, se insistir na luta contra a burocracia, se der dois dedos de conversa todas as manhãs com o sábio Sr. António do café, se comprar sistematicamente peixe na D. Deolinda, se não usar sacos de plástico, se desenterrar receitas da minha avó paterna, se publicar coisas que possam ajudar outros portugueses a entenderem, se descobrir muito mais coisas sobre a sua História, se for para fora cá dentro, se passar este amor pelo país aos filhos que um dia terei. É o que posso fazer, por enquanto.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Parto

A montanha pariu homens resistentes, felizes, sobreviventes entre si. A montanha pariu a esperança que tanto fazia falta ao mundo desanimado e deprimido. A montanha pariu companheirismo, vontade de vencer, engenho e arte. Pariu amor, muito amor todos os dias preenchidos de beijos, abraços, suspiros, promessas, saudades. O melhor de todos nós a quase um kilómetro de profundidade trazido assim tão facilmente à tona num parto absolutamente natural.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Não há que chegue

"Um pouco de poesia, Ouriça, um pouco de poesia" repetia enquanto ajudava alguém nas mudanças, esse caos pessoal em movimento escada acima, escada abaixo. Dizia em surdina quando um casal alcoolizado discutia, em stereo, no Metro. "Um pouco, só um pouco mais" refastelada no sofá, refeição ligeira levemente gourmet, copo de vinho, gelado preferido no congelador, preparada para o silêncio de uma noite outonal. No primeito minuto após as 20h o senhor engenheiro e o senhor professor fizeram com que me engasgasse na classe culinária do meu jantar. Esqueci o gelado, fui buscar mais vinho e constatei que há dias que não há poesia que chegue para nos embalar as dores, as constatações, as inevitabilidades, as percentagens.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Meu nome é DuBois, Blanche DuBois

A ida ao teatro D. Maria II para apanhar “O Eléctrico chamado Desejo” é uma aventura. Muito boa, por sinal. Faz-se cada vez melhor teatro em Portugal, sem bocejos, arrependimentos ou reviravoltas na cadeira. A Alexandra Lencastre das revistas cor-de-rosa e das novelas da TVI desapareceu, (re)surgiu a excelente actriz, sem inseguranças, com humor. Ela é a Blanche da magia e não da realidade, mostrando-se infeliz, felina, corrosiva, dependendo sempre “da bondade de estranhos”.
Encenar textos apaixonantes, amados pelo público, dirigir óptimos actores (a surpresa de Lúcia Moniz) e criativos (excelente cenografia e guarda roupa) é finalmente a linha condutora daquele Teatro para qual todos (agora) alegremente contribuímos.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Outono


Fico quase sempre azul nos dias cinzentos.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Com certeza

O problema das pessoas que não têm defeitos é que, com certeza, têm virtudes terríveis.

Elisabeth Taylor

terça-feira, setembro 21, 2010

Fado tropical

Acordei assim: revolucionária e miscigenada.

segunda-feira, setembro 20, 2010

O verão


Li quase todos os livros da colecção de viagens da “tinta da china”
Fui ao Pego
Escrevi o raio do artigo
Fui aos Brejos da Carregueira
Não disse o que devia
Abracei para estancar a saudade
Descobri o fundo do mar
Fui a Compostela
Bebi granizado de melancia com vodka
Disse o que pensava
Trabalhei mais do que o normal
Reparei nas rugas da cara do meu pai
Não abri conta no Facebook
Calei-me e desliguei
Comprei um anti-rugas
Fui ao Meco
Empacotei coisas
Restaurei um armário antigo
Fui a Moledo
Comi pão de sementes de papoila
Candidatei-me
Fui admitida
(Re)descobri a vida de bairro
Disse adeus sem mágoa
Fui ao teatro mais vezes e arrependo-me
Quase não fui ao cinema e arrependo-me
Rasguei umas coisas
Virei-me para o futuro
Cortei muito o cabelo
Apaixonei-me por muitas ideias
Dormi no chão
Provei brunch em muitos sítios
Fiquei muito tempo em casa
Constatei a imensidão deste verão

segunda-feira, setembro 06, 2010

Portugal - poesia em edição revista e actualizada

Mais uma semana de férias aproxima-se: um pé fora, todo o coração, sempre, cá dentro.