Uma lição a retirar de uma demorada e surrealista discussão profissional logo pela manhã.
terça-feira, julho 17, 2012
segunda-feira, julho 16, 2012
Estas pessoas são o chão
Pão
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.
Rui Costa in A nuvem prateada das pessoas graves
sexta-feira, julho 13, 2012
Acredito e evito
Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida.
Groucho Marx
segunda-feira, julho 09, 2012
You're so fucking special
A candura que encerra o desespero ou a descoberta de mais um belíssimo tom de cinzento.
sábado, julho 07, 2012
Podiamos viver sem ele mas não era a mesma coisa
Os maus hábitos alimentares do Estado. Para rir, chorar, denunciar e mandar colocar uma banda gástrica.
quarta-feira, julho 04, 2012
Orgulhosamente só
Não resisto a comentar. É demasiadamente tentador. É um exemplo de empreendedorismo e de como estar empregado com um determinado grau de empenho não permite estudar. Para o fazer teria de ter abandonado ora importantes cargos públicos ora dinâmicos cargos privados, responsáveis por alavancarem a economia nacional a olhos vistos. O país precisou dele durante as últimas décadas e ele, claro, homem de valores alicerçados no bem colectivo, não virou as costas à sua pátria. No ano em que entra em vigor uma lei de oportunidades (2006), inscreve-se, por fim e com grande sacrifício pessoal, numa das melhores universidades do país, numa licenciatura intelectualmente exigente que, no ano seguinte, termina com uma nota modesta, não humilhando, desta forma, os seus colegas. Depois, qual sobredotado, toma o mundo nos braços e fá-lo, já certificadamente, avançar. E assim se calam, em definitivo, as vozes sobre a mediocridade intelectual da maioria da nossa classe política.
segunda-feira, julho 02, 2012
Marmiteiros do mundo, uni-vos!
A logistica da marmita já foi estudada e replicada no mundo dos negócios. Jovens empreendores, mantenham-se atentos, no nosso país já há um significativo nicho de mercado.
sexta-feira, junho 29, 2012
Agora cresce uma árvore
Maria Keil
Cai a tua palavra na solidão como um ramo de oliveira
na paz. Eu não sabia
que a tua voz chegaria com as estrelas.
És o meu grito de combate
contra a morte.
Agora uma árvore cresce onde o esquecimento
fecha os olhos.
Tu.
Eduardo Cote Lamus in Um país que sonha - 100 anos de poesia colombiana, Assirio&Alvim
quarta-feira, junho 27, 2012
Sebastianismo (à) rasca
Fico sentada aqui, em casa, sentada por aí a ler e a ouvir ecos deste novo sebastianismo com nome suburbano, essa surpresa que deifica, um homem ultraperiférico pela naturalidade, pela classe social, pela linhagem. Um homem ultraperiférico que pela vontade, pelo trabalho se transforma, em quase duas décadas, no Homem Central. O que tem tudo e pode tudo, o predestinado que afastará pragas e maus-olhados marcando, sozinho, golos atrás de golos, chutando as nossas frustrações bem para o fundo da baliza, dúvidas ao poste, baixa auto estima fora de jogo. Se falhar, falha sozinho, a admissibilidade do erro humano não cabe nos super poderes atribuídos, se falhar será lembrado pela ostentação, pelo gel pastoso, pela fragilidade das relações, pela família XXL, pelo fiasco, pela traição. Ninguém tão cedo lhe segurará o manto, lhe arreará o cavalo, ninguém, tão cedo, o deixará entrar, mesmo que ele quisesse, neste denso banco de nevoeiro que é, por estes dias, o nosso pobre e alucinado país.
sexta-feira, junho 22, 2012
Resolucionário
Passeava no Chiado quando fui atraída por um enorme cartaz, que assumia exclusividade numa montra da Mac, anunciado um mesmo gadget na sua mais recente versão. Nele uma foto artística do produto e uma só palavra, Resolucionário. E ali estava eu, reflectida num vidro a pensar que é disso mesmo que precisamos: mais do que uma revolução que tente resolver, resoluções que de facto revolucionem para que retomemos de um outro ponto qualquer um percurso evolutivo por ora abandonado.
Nota: lembrei-me também que resolucionário poderia remeter, tal como oceanário, para um mar de resoluções mas antes que me afogasse em ideias idiotas agarrei-me à frescura de um outro pensamento, mesmo ao virar da esquina, no Santini.
quarta-feira, junho 20, 2012
Concretizar
O meu karma lento só permitiu que visse o último episódio do "House" ontem. Não vou dissertar sobre as oito temporadas da série - que aliás não acompanhei com euforia - ou sobre a irresistível atracção pelo abismo que me desperta a personagem central. Só uma palavra sobre o último minuto em que House e a sua alma gémea, o incrível amigo com a morte datada, iniciam de mota a concretização de um sonho com o tempo que lhes resta. Ideia simples, batida mas, insistentemente, esquecida. Sonhar acordado, concretizar “ses”, abandonar “mas”, exercer a liberdade em grande estilo ainda que só no intervalo da manhã para o café.
terça-feira, junho 19, 2012
Definitivamente, não é só uma fase
Between the optimist and the pessimist, the difference is droll. The optimist sees the doughnut, the pessimist the hole!
Oscar Wilde
quinta-feira, junho 14, 2012
que o meu pensamento caminhe

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem são velhos
que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens
e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem são velhos
que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens
e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso
E.E.Cummings, livrodepoemas, Assírio&Alvim
terça-feira, junho 12, 2012
Na véspera...
... de mais uma efusiva comemoração de um santo popular, nada como explicar a religião às criancinhas através de música (pimba) do mundo.
segunda-feira, junho 11, 2012
Encarrilhada
Uns destes finais de dia, cansada e a precisar de por ordem cá dentro, fui andar no eléctrico 28. É um hábito antigo - it runs in the family - e serve para este fim e para reencontros felizes, mas isso é uma outra história. Poucos turistas, pessoas que se conhecem desde sempre, vizinhas que trocam raminhos de salsa, solitários da minha geração que reciclam uma Lisboa até então abandonada, um ou dois putos empoleirados na traseira desafiando até o tranquilo caos de curvas e contra-curvas acidentadas. Janelas abertas, chiar desafinado, lua cheia reflectida no Tejo. Da Graça aos Prazeres, dos Prazeres à Graça, assim, como tudo deveria ser na nossa vida.
terça-feira, junho 05, 2012
Depois...
... de um dia esgotante de trabalho nada melhor que descansar num
Poema de amor
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo.
Jorge de Sousa Braga in O poeta Nu, 2007
segunda-feira, junho 04, 2012
Descartes 0 - Relvas 1
Cruzei-me com esta frase lá para as bandas do Cais do Sodré num destes dias. Gosto de fotografar arte efémera e por isso não resisti. Não resisti também a constatar o evidente: vivemos na época da mais absoluta negação do método cartesiano porque ora se pensamos não existimos ora se existimos é conveniente que não pensemos.
quarta-feira, maio 30, 2012
Contemplativo por contemplativo
O meu velho, experiente e paciente professor, responsável pelo aprimoramento do meu inglês, aconselha-me leituras e séries específicas consoante o que tratamos. Recentemente foi Downton Abbey para eu redescobrir “um certo inglês”. Na verdade já tinha visto quase toda a primeira série legendada no ano passado nas férias. Bonita mas não particularmente interessante. As tricas da criadagem e da nobreza que serve, inseridas num contexto pós-vitoriano, nunca foram hábeis o suficiente para me prenderem a atenção e o coração. Nem mesmo os elegantes modelitos, um ou outro ímpeto romântico ou uma manifestação ligeiramente arrebatadora de convicção – sinal de que as personagens estão mesmo vivas - me entusiasmaram. Há quem considere, tudo isto, uma heresia com direito a excomunhão pois vivem há muito dentro desta história e daquele tempo do qual demonstram, aliás, um inexplicável e absurdo saudosismo. Para mim, contemplativo por contemplativo, sempre é melhor ir pescar porque lá nos encontramos com o a água, com peixinhos gulosos (nos dias bons) e por vezes com umas animadas conversas nem que sejam com os próprios botões.
domingo, maio 27, 2012
Como deve de ser
Uma letra, do princípio dos anos 80, em que Chico Buarque tão bem descreve como deve de ser. Uma voz recentemente guardada para caminhar comigo. Uma conjugação perfeita.
quinta-feira, maio 24, 2012
Dois segredos para não serem bem guardados
Uma sábia definição de felicidade acompanhada, para melhor a alcançar, do melhor blog de culinária nacional - Cinco quartos de laranja - que comprovadamente tem vindo a ser responsável não só pelo aumento do meu colesterol como pelo sucessivo abandono da biblioteca culinária lá de casa.
quarta-feira, maio 23, 2012
De sempre
Os amigos são para sempre? Interrogava-se ontem o Público num artigo razoável (não fora a opinião estereotipada da psicóloga portuguesa). É uma pergunta que andou às voltas por aqui durante muito tempo. Porque se impôs a dúvida, porque é necessário pensar sobre tudo o que nos estrutura. Após embates, quedas, surpresas, encantamentos, verdades certificadas, mentiras camufladas, acertos e erros, dias e dias felizes, acho que descobri a resposta: não serão para sempre os amigos, serão talvez de sempre. As vidas retomam-se em ciclos, a memória selecciona a nossa história e aprendemos e desaprendemos a amar ao sabor das ilusões que criamos para nós e para os outros. Afastamo-nos ora pontual, ora irremediavelmente, aproximamo-nos porque nos encontramos num mesmo caminho, comprovamos que, depois de tantos anos, ainda vemos as mesmas formas, as mesmas cores. A narrativa das amizades vai sendo desfiada ora como uma trágica opereta ora como uma série cómica digna de sucessivos Emmys. O final depende totalmente da habilidade para adivinhar os nossos limites e os dos amigos. O final assim depende da nossa capacidade para reciclar, dor para um lado, felicidade para o outro, dádivas em recipiente à prova de tempo, instinto devidamente esvaziado de delírios egocêntricos, autoestima e carência afectiva em compartimentos separados, estanques. O final nas histórias com os amigos de sempre, escrito com cuidado e com esta sabedoria que por vezes escasseia, adivinha-se feliz.
segunda-feira, maio 21, 2012
Para começar
Nem sempre odeio segundas feiras. Nem sempre, como diz recorrentemente Dr. House, a Humanidade é sobrevalorizada. E agora repito isto em surdina, vezes infinito, até acreditar e nascer cá dentro um enorme sorriso.
sexta-feira, maio 18, 2012
Não há razão para tanta preocupação
Desde Outubro tenho-me imposto novos hábitos: reduzir os telejornais ao mínimo, saber o estritamente necessário para manter, até quando for preciso, uma conversa civilizada circunstancial sobre a realidade do país e do mundo. O mesmo raciocínio vale para o extracto de conta. Aposto na leitura pontual dos jornais e aperto a seleccão dos cronistas. O meu índice de felicidade disparou, agora quase roça a total alienação enquanto me perco em séries, filmes, livros, espécies de peixes e as sardinheiras floridas da minha varanda. Oiço as conversas preocupadas e pessimistas e penso que um dia destes o segurança me vai barrar a entrada alegando que alguém assinou por mim um acordo que me cuspiu irremediavelmente da função pública, esquecendo-se de pôr qualquer compensação no bolso. Nesse mesmo dia, depois de estar a aproveitar a vida numa esplanada junto ao mar, irei ao multibanco levantar uns escudos da poupança para pagar um qualquer delicioso gelado artesanal e fá-lo-ei repetidamente até os gelados custarem milhares e milhares de escudos e o boneco quadrado irritante deixar cair os cantos da boca e me informar da falta de permissão do saldo para a gulodice. Sem dinheiro, sem emprego e sem gelado vou dedicar-me à troca directa com os velhinhos do meu bairro - os que sobreviverem à falta de escudos para a medicamentação - e trabalhar a imaginação para a produção caseira de energias alternativas algures entre o wc e as correntes de ar das janelas. Acalma-me a ideia de que nos buracos da ruas de Lisboa crescerão pequenos e adoráveis malmequeres e que, de todos os carros estacionados, por falta combustível e manutenção, surgirão estufas improvisadas com ervas aromáticas, tomates e outros produtos hortícolas essenciais à subsistência dos seus donos. Esquilos, alces, ouriços-cacheiros e a verdadeira fauna autóctone da região tomará as ruas pacificamente. Deixarei de querer ir a algum lado porque tudo implica muita troca e muito esforço e na altura já não será preciso combater com exercício a obesidade, os diabetes, a tensão alta e todas as maleitas possíveis decorrentes da ingestão desgovernada de hidratos de carbono. A praia será um Tejo translúcido e o campo um bucólico e longínquo Lumiar. Imagino-me, enquanto as dioptrias permitirem, a ler finalmente todos os livros que sempre sonhei e que, por ora, repousam entediados nas estantes deste mundo. Oiço assim as conversas e penso que não há razão para tanta preocupação.
quinta-feira, maio 17, 2012
Reivindicações
Hoje greve no metro, preguiça para caminhada matinal, autocarro à pinha. Cacofonia absoluta por uma sociedade justa (e remunerada). Ladrões, desemprego não é oportunidade, eles gastam nós pagamos, o que vai ser dos mais novos, e nós nem para medicamentos, com licença, temos é de abrir os olhos, falem mais baixo, a senhora que entrou por trás venha aqui pela frente, nunca mais compro passe, não há paciência, valha-nos Deus, dê um jeitinho, vão lá votar neles vão. Da Alameda ao Saldanha, sete paragens, filosofia popular em stereo. Porque o povo, afinal o que quer o povo? Lá dizem os outros, o povo quer é um carro novo.
quarta-feira, maio 16, 2012
A vida é como a queremos ver

(Varsóvia, 1946)
Costumo ler a mini crónica diária do Miguel Esteves Cardoso no Público. Ser fã do MEC é um vírus muito comum na minha geração ávida da Kapa e d'O Independente. Ser fã do MEC não implicava necessariamente conhecer “os clássicos” – embora ele lhes faça referências mais ou menos subtis. Bastava somente gostar de ler aguçando em, simultâneo, o amor, o humor e a irreverência. Dizia, costumo lê-lo também agora. Há quem afirme que está acabado, que escreve sobre futilidades, culinária, jardinagem, episódios domésticos, o tempo ou a relação com a mulher. Eu vejo um homem inteligente, enorme, ainda a cheirar a gin, que percebeu onde está a felicidade, que sabe que – como termina hoje a sua crónica – alcançar e amar estão irremediavelmente interligados.
domingo, maio 13, 2012
sexta-feira, maio 11, 2012
Música para os nossos ouvidos
O meu instrumento preferido dando vida a um filme português fantástico, Alice.
Coisas que verdadeiramente interessam...
... à produtividade do país: quando uma funcionária pública dedica grande parte da sua hora de almoço a procurar um fato de banho novo, é certo, provam os dados estatísticos, que o seu rendimento laboral fica substancialmente reduzido no período da tarde. Há que legislar sobre isto e rápido.
terça-feira, maio 08, 2012
Estás
As armas
Muitos armam-se para a guerra
É necessário.
Outros armam-se para o mundo
É preciso.
Alguns armam-se para a morte
É natural.
Tu armas-te para o amore estás tão indefeso
para a guerra,
para o mundo,para a morte.
Luz Helena Cardeno
Um país que sonha - 100 anos de poesia colombiana. Assirio&Alvim
segunda-feira, maio 07, 2012
quarta-feira, maio 02, 2012
a luta (não) continua
oito horas para dormir, oito horas para trabalhar, oito horas para ir às compras promocionais e agredir quem se atreva a cruzar o seu caminho. oito vezes três, vinte e quatro horas de vida na sua mais absoluta plenitude.
terça-feira, maio 01, 2012
sábado, abril 28, 2012
são os loucos de lisboa
Porque é sábado à noite, chove e troveja e um copo de bom vinho tinto lembra-me o Inverno. Há muitas ideias que povoam sempre, em alturas como estas, a minha cabeça: andava há que tempos para partilhar isto e, agora mesmo, um jornal semanário relembrou-me da urgência dessa intenção.
quinta-feira, abril 26, 2012
descobertas a 25 de Abril
Ontem, duas coisas espantosas:
O filme "Florbela" que nos mostra um curto periodo da vida de Florbela Espanca em que foi particularmente infeliz e por isso pouco escreveu. Excelente Dalila, Ivo e Albano. Comovente pela história, claro, mas também por saber que os realizadores portugueses da minha geração dão esperança e qualidade à cultura em Portugal;
Documentário "Os donos de Portugal": estava aberto o 25 de Abril há quase duas horas quando o canal 2 passou este documentário que explica, através da serena voz de Fernando Alves, por quem é (e como é), na verdade, o nosso país governado, praticamente sem interrupções, desde há 150 anos . Não é panfletário, é histórico. Talvez entendamos melhor a razão pela qual a crise actual decorre essencialmente da nossa elite, fraca a governar, óptima a cuidar de si.
terça-feira, abril 24, 2012
Até que a morte os separe
José Mascarenhas acordara com o raiar do sol ao som do batuque de uma pequena obra que decorria na sua casa. Ao seu lado, ainda sonhando,Olinda, sua mulher, vinte e cinco anos mais nova, gabada por todo o Recife pela graciosidade e beleza.
Orgulhoso das suas escolhas e dos seus negócios, cumpria a rotina matinal, criados atarefados, indumentária apropriada, impecável, pequeno-almoço completo, sereno e em família.
O dia seria um novo desafio. Cuidar dos seus negócios, administrar o fluxo de escravos para que a produção não decresça, passear o seu sucesso pelos sítios emblemáticos da cidade onde se reúne, em alguns fins de tarde, a mais fina elite.
Hoje era um dia especial. Um jantar meticulosamente organizado, família e negócios, numa mesa farta e civilizada, um evento a não esquecer.
Olinda apresentou-se mais bonita que nunca. O seu vestido azul-cobalto estava em todo o lado naquele jantar. A noite, menos quente que o habitual, conduzia as conversas recheadas de planos futuros. Servido o último prato, José pede a atenção de todos os convidados e inicia o peculiar relato da traição da sua mulher com um jovem oficial do exército. Olinda, chora, muda e seu vestido azul-cobalto dilui-se na tristeza, agora à vista de todos, que era a sua vida desde o dia que fora obrigada a casar com aquele homem. No final do frio relato, José sugere que todos passem à sala contígua onde tinha sido, por sua ordem, aberto um enorme rasgo numa das grossas paredes. Olinda sabia que a sua hora chegara, fechou os olhos, cerrou a alma e entrou para aquele buraco onde, de seguida, um escravo a emparedaria, repondo a estética impoluta daquela sala de música. No caminho para o alpendre, onde seria, em seguida, servido o melhor licor caseiro aos convidados, José começou a sonhar com Rosa, a filha mais nova, casadoira, de um dos seus melhores amigos.
Nota: “As emparedadas da Rua Nova “ é uma verdade histórica incontornável. Em algumas demolições daquela rua abastada de Recife, Brasil foram encontradas várias ossadas de mulheres adúlteras, incorporadas, assim literalmente, há dois, três séculos nas propriedades dos seus maridos.
sábado, abril 21, 2012
Sai um poema bem passado...
...para acompanhar uma ida à Tasca do Sol
Quotidiano
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
Quotidiano
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
Nuno Júdice, Meditação sobre Ruínas
sexta-feira, abril 20, 2012
Um mar de saudades
Inscrição
Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto ao mar.Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, abril 19, 2012
A notícia
"De segunda a quinta-feira, Otelo Saraiva de Carvalho vive com Dina, com quem casou em 1960; de sexta a domingo, está com Filomena, mulher que conheceu em 1984, quando esteve detido em Caxias".
Não é esta a notícia que interessa. O que todos gostávamos de saber é com quem vive a Dina de sexta a domingo e a Filomena de segunda a quinta.
terça-feira, abril 17, 2012
Saturno
A força de Marte invade-nos, a encantos de Vénus conquistam-nos, o poder de Júpiter inebria-nos. Depois há o meu planeta preferido, Saturno e seus anéis, dois pianos e todo o tempo do universo para o descobrirmos.
domingo, abril 15, 2012
(ainda) O amor

Nas minhas leituras deparei-me com uma passagem interessante acerca do amor e da paixão e da (paradoxal?) violência que eles contêm (Neil Gaiman):
"Estiveste alguma vez apaixonado? É horrivel não é? Fica-se tão vulnerável. Ficas com o peito e o coração abertos a outra pessoa que pode entrar dentro de ti e revolver-te por dentro. Constróis todas essas defesas, constróis toda uma armadura que te cobre de alto a baixo para que ninguém te possa ferir, e depois uma pessoa estúpida atravessa-se na tua estúpida vida... Dás-lhe um bocado de ti. Não to pediram. Fizeram um dia uma estupidez qualquer, como beijar-te ou sorrir-te, e a tua vida deixou daí em diante de ser tua. O amor faz reféns. Entra dentro de ti. Come-te e deixa-te a chorar no escuro, e é assim que uma simples frase do tipo "talvez devêssemos só amigos" se transforma num estilhaço de vidro que vai direito ao coração. Dói. Não é só imaginação. Não é só mental. É uma dor na alma, uma dor real que invade e te rasga e te parte. Odeio o amor."
É um discurso duro mas comum. Há muito azedume nesta verdade que me parece estranha. Aqui entram a peneira e a contabilidade. A peneira porque, devagar, aprendemos a distinguir amor de hedonismo, de medo da solidão, de desejo pontual, de projecção idilica, de cenário propício a representações sociais. A contabilidade porque, no compto do deve e do haver, sobra sempre qualquer coisa boa - ainda que só uma coisa boa - para nos fazer relembrar que há outras pessoas por aí, bondosas, encantadoras que têm a suprema pretensão de saber o que é o amor e isso inabilita-as, em definitivo, para o odiarem.
quinta-feira, abril 12, 2012
Pós Páscoa

Tenho conversado muito. Dito e ouvido muitas palavras. Descanso agora um pouco, boca e ouvidos dormentes, sorriso aberto. Isto de contar e ouvir histórias pode ser tão cansativo como limpar minuciosamente as flores de plástico que a minha avó insistia em espalhar pela sua casa. Pode ser desgastante como ouvir o Pablo e a Carminho num sonho que até aí estava a ir muito bem. Pode ser revigorante como um mergulho ao largo de Sesimbra e descobrir que naquelas águas existem maravilhas, não só suburbanos domingueiros.
Agora escrevo de novo por aqui tentando que os meus dedos malabaristas não resistam a este circo excêntrico que é, por estes dias, o meu teclado.
sábado, março 24, 2012
Sempre a propósito

A propósito de uma conversa com alguém um pouco adoentado de desilusão e do meu remédio para a cura, ler mais poesia, deixo-vos aqui uma entrevista já antiga com um poeta italiano me comove, Tonino Guerra. A sua morte recente relembrou o mundo do que escreveu, um poeta guionista responsável, por exemplo, por dois filmes que adoro: Amarcord e La Nave va. Para que possamos não esquecer que todos somos, despretenciosamente, poetas quando nos conseguimos, por momentos, libertar.
quarta-feira, março 14, 2012
terça-feira, março 13, 2012
Atravessá-lo e (quase) esquecê-lo

Deserto
"Dantes havia homens que se retiravam para o deserto. Para melhor se conhecerem, para comunicarem com Deus, mas nenhum -penso - para conhecer o deserto. Alimentavam-se de mel e gafanhotos, quando não jejuavam.
Agora foi o deserto que se instalou no meio de nós. E os seus desígnios não são menos obscuros."
Jorge de Sousa Braga
sexta-feira, março 09, 2012
segunda-feira, março 05, 2012
A arca
Regras de vida
1. Faz o menor número de confidências possível. É melhor não fazeres nenhuma mas se fizeres algumas fá-las falsas ou imprecisas;
2. Sonha o menos possível excepto quando o propósito directo do sonho for um poema ou uma obra literária. Estuda e trabalha;
3. Tenta ser o mais sóbrio possível, antecipando a sobriedade do corpo por uma atitude sóbria da mente;
4. Sê amável apenas por simples amabilidade, não abrindo a tua mente ou discutindo livremente os problemas que estão ligados à vida íntima do espirito;
5. Cultiva a concentração, tempera a vontade, faz de ti uma força pensando, o mais intimamente possível, que és realmente uma força;
6. Considera quão poucos amigos verdadeiros tens, porque poucas pessoas são capazes de ser amigos de alguém;
7. Tenta cativar por aquilo que o teu silêncio contém;
8. Aprende a agir prontamente nas pequenas coisas, nas coisas triviais da vida da rua, da vida doméstica, da vida do trabalho, a não tolerares atrasos vindos de ti próprio;
9. Organiza a tua vida como uma obra literária, pondo nela tanta unidade quanta possível;
10. Mata o assassino.
Fernando Pessoa
sexta-feira, março 02, 2012
Um passatempo

Decepção à regra
Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são ou outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Até pode parecer que não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são ou outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Até pode parecer que não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luis Barreto Guimarães in Luz última, 2006
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
sábado, fevereiro 25, 2012
Ar puro

Há quatro dias, pela primeira vez, com uma infecção respiratória. Hospital, medicamentação, atestado e respectivas formalidades. Pijama. Respirar baixinho e devagar. Comer quase nada, ler muito. Pouco lixo televisivo, cds reanimados de compartimentos bolorentos. Hoje, só hoje, soube o verdadeiro diagnóstico. Bem sei, o meu corpo avisa sempre. Basta crer na sua inteligência que compensa um espírito (para) sempre perdido em contemplações inusitadas. Este ambiente tornou-se pesado, quase irrespirável para quem nasceu com uma (in) suspeita queda para a felicidade. Está mesmo na hora de mudar de ares.
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
A mulher-electrodoméstico
Ela cabeceia contra o vidro, insiste no sono que ainda muito lhe deve. O fim-de-semana não foi suficiente, talvez toda a vida não o seja para descansar do ferro de engomar, da ansiedade de chegar, da dor de um carinho esquecido. A mulher-electrodoméstico adormeceu de novo, está despenteada, casaco descosido, não usa baton nem dentista. Sonha com as revistas de vida ficcional, sempre de final feliz. E este é um sonho que só dura até à próxima travagem brusca.segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Quando se tenta apurar o estado psiquiátrico...
... da Dama de Ferro, ela surpreende-nos com uma lucidez incontestável.
Um filme surpreendente, o melhor papel de sempre da minha actriz preferida, uma história com a qual cresci contada pela memória selectiva de uma mulher, talvez agora, tão fácil de entender.
A solução
Manter sempre as portas (entre)abertas, presas pelos pensamentos que nos moldam, pela capacidade de amar que nos vai definindo. À cautela devemos deixar cá dentro somente o inquebrável e, já agora, usar um cachecol bem quentinho para evitar constipações.
segunda-feira, fevereiro 13, 2012
era uma vez...
... uma gordinha melancólica e divertida, anti star system,que é aplaudida pelo seu talento. Adoro-a!
A mudez, a contenção e a cassete

O Artista é um filme singular: mudo, francês e falado em inglês. É como uma invenção que nos cativa somente num primeiro momento, de imediato percebemos que não vale a pena patenteá-la;
J. Edgar é um filme mais íntimo que histórico. Cinquenta anos de trabalho árduo e manipulação,obsessão, obediência e contenção. Não se pode ser feliz assim mas está visto que é possível, de permeio, amar perdidamente;
Jovem adulta é um encontro de um excelente guião e uma atriz da minha geração de que sou fã incondicional desde Monster: Charlize Theron. Com 37 anos volta à cidade natal tentando recuperar peças que não encaixam no seu puzzle, encontrando a verdade sobre a sua popularidade no liceu e o sobre o vazio que, desde então, não mais a abandonou. A cassete obsoleta e sonhadora que a transporta para a adolescência, que a (des)construiu, é afinal a chave para resolver todos os problemas do presente.
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Assim se inicia

“Há alguns anos, ao regressar a Inglaterra após uma curta viagem ao estrangeiro (era então Master do Trinity College de Cambridge), o agente da imigração em Heathrow, que examinou o meu passaporte indiano com bastante atenção, colocou-me uma questão filosófica bastante complexa. Olhando para a morada no impresso da imigração (Master’s lodge, Trinity College, Cambridge), perguntou-me se o Master de cuja hospitalidade eu obviamente desfrutava era meu amigo intimo. Isto levou-me a pensar, pois não era completamente claro para mim se eu poderia afirmar ser amigo de mim próprio. Após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que a resposta devia ser afirmativa, visto que me trato muitas vezes de forma bastante amigável e, para além disso, quando digo coisas inconvenientes consigo logo perceber que com amigos como eu não preciso de inimigos. Como tudo isto levou algum tempo a ser compreendido, o agente da imigração quis saber ao certo porque razão eu hesitava e, em particular, se havia alguma irregularidade quanto à minha estadia na Grã-Bretanha”.
Assim se inicia “Identidade e violência – a ilusão do destino” (editado pela Tinta da China) do fabuloso Nobel Amartya Sen.
Desaguar
A morte da águaUm dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.
Ruy Belo
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Novo paradigma
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Com a tua letra

Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
Fernando Assis Pacheco in A Musa Irregular
tenor do bairro

Voltei a ser um homo pedestrus. Contudo, há dias de preguiça ou de saltos altos em que o amarelo da carris me encanta de forma particular.
Sento-me quase no início, de costas para o rumo a seguir, observando todo o autocarro. Estranho o som que nasce na cabine do motorista, uma playlist de musica pimba portuguesa e francesa acompanhada pela sua voz de tenor do bairro. De pronúncia irrepreensível, interrompida pelos bons dias que insistia em dar aos novos passageiros, ele declarava desfeito ou esperançoso – não consegui descortinar – je t’aime mon amour, je t’aime(eeeeeeeeeeeeeeeeee). De seguida adiantava-se numa letra do Tony Carreira, nunca se desconcentrando pela emoção da curva apertada, pela adrenalina do semáforo amarelo, pela surpresa da paragem. O meu motorista da carris, tenor do bairro, óculos escuros, cabelo rapado, melou todo um autocarro matinal, cinzento de contrariedade e de sono, com o seu romantismo lânguido. Quase de saída ainda ouvi, convicta e afinadamente, pedir para um amor desavindo voltar e perdoá-lo. Talento puro.
Ocorreu-me escrever à Carris louvando-o pela alegria ( e surrealismo, vá) que coloca no seu trabalho mas, dado o gosto musical duvidoso, abandonei de imediato a ideia .
sexta-feira, janeiro 27, 2012
Ver, rever e praticar
Ando a actualizar, em fast forward, as minhas idas ao cinema.
Ontem, As Serviçais. Uma nova Cor Púrpura, talvez. Um filme sobre a diferença muito além do racismo aprisionado no tempo e no espaço. Um filme sobre a hipocrisia contemporânea e os insondáveis caminhos da cobardia e da coragem. Para ver, rever e praticar.
Muito trabalho, pouco riso

"Muito trabalho, pouco riso" define o carácter do novo secretário geral da CGTP, ouvia hoje numa síntese biográfica na rádio. Talvez seria mais importante quedar-me na sua convicção leninista, na sua ortodoxia assumida. Mas ideologias leva-as o vento, quem somos e como vivemos permanece. Talvez fosse de dissertar sobre o estado a que o movimento sindical chegou, ao desajuste entre o rumo seguido e as efectivas necessidades da população activa e em particular dos precários e dos desempregados . Mas retenho-me neste traço que caracteriza um líder: "muito trabalho, pouco riso". Ecoam memórias do provérbio autoritário e cinzento que adivinhava no muito riso pouco siso. Fartar-lhe-à ironia e auto-critica, vazio preenchido por uma certa rigidez colada a cuspo no proletariado. Erguem-se muralhas e muralhas electrificadas contra o capitalismo, aprofundam-se rugas na testa, agitam-se punhos no ar que, teatralmente, batem na mesa de imaginárias negociações. Vendo daqui, parece não haver esperança que este líder seja sequer o último a rir.
quarta-feira, janeiro 25, 2012
(Con) Descendentes

Em Os Descendentes, Matt King (George Clooney) vê-se, de repente, (quase) viúvo com duas filhas adolescentes que, na verdade, não conhece. Para apimentar o drama interior descobre que a sua mulher sonhava trocá-lo pelo amante, um agente imobiliário ambicioso que a tentava usar num negócio de milhões.
A trama, simples, dá lugar a alguns momentos deliciosos mas é só. Afirma-se que Cloooney será um grande candidato ao Óscar porque está, cito, fora da sua zona de conforto. Com isto devem querer dizer que interpreta um contido macho alfa, cornudo, de camisa havaiana de gosto duvidoso e com (já alguma) falta de tónus muscular.
A trama, simples, dá lugar a alguns momentos deliciosos mas é só. Afirma-se que Cloooney será um grande candidato ao Óscar porque está, cito, fora da sua zona de conforto. Com isto devem querer dizer que interpreta um contido macho alfa, cornudo, de camisa havaiana de gosto duvidoso e com (já alguma) falta de tónus muscular.
Já a minha zona de conforto, enquanto espectadora, é delimitada por um bom guião, activação cerebral, estimulo estético e uma razoável sensação de satisfação no final. No percurso pedestre para casa, perdida em outros pensamentos, quase esqueci a história e aquele desconforto que me provocou.
terça-feira, janeiro 24, 2012
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Dueto cantabile
Fui visitá-la à casa azul. Ao longe aquele azul já desbotara a paisagem circundante com uma tristeza monocromática. Sentada junto de uma das muitas janelas, sozinha, perdida na enorme poltrona de veludo. Brincava com os dedos e as memórias deformadas pelo presente que já não alcança.Prometemos ir à ópera. Prometi que a levava, prometeu que me explicava todos os detalhes. Anos passaram, eu perdida na juventude e no quotidiano de fúteis preocupações, ondas de vazio que arrastaram as minhas promessas, as suas intenções.
Sentei-me no braço da poltrona e fiz sentir a minha presença. Sorriu. O meu nome escapara-se numa armadilha do tempo. Puccini, contudo, estava ainda por lá bem como a esperança de ser resgatada naquela tarde rumo à felicidade de um certo camarote do S. Carlos.
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