Há uns anos descobri que era crescida quando num aniversário infantil, no princípio de uma história que ia contar à pequenada, me perguntaram de quem eu era mãe. Não exerci qualquer admoestação sobre o pequenote mas tenho a certeza que a história saiu menos inspirada. Recentemente convivo mais com uns primos juniores, um mini grupo dinâmico e divertido entre os 2 e os 4 anos. Depressa percebi que me tomam como igual, diluem, como eu, as grandes barreiras cronológicas e não estranham esta Gulliver que os faz rir. Temo que quando crescerem alguém lhes perguntará, nas mesmas circunstâncias, de quem são mães e pais. Adivinha-se indignação, prova de que o ADN não engana.quinta-feira, julho 14, 2011
ADN
Há uns anos descobri que era crescida quando num aniversário infantil, no princípio de uma história que ia contar à pequenada, me perguntaram de quem eu era mãe. Não exerci qualquer admoestação sobre o pequenote mas tenho a certeza que a história saiu menos inspirada. Recentemente convivo mais com uns primos juniores, um mini grupo dinâmico e divertido entre os 2 e os 4 anos. Depressa percebi que me tomam como igual, diluem, como eu, as grandes barreiras cronológicas e não estranham esta Gulliver que os faz rir. Temo que quando crescerem alguém lhes perguntará, nas mesmas circunstâncias, de quem são mães e pais. Adivinha-se indignação, prova de que o ADN não engana.sexta-feira, julho 08, 2011
Encontramo-nos lá
Encontramo-nos nos funerais. Reconhecemo-nos. Desconhecemo-nos, espantamos, morremos de amor ou de inveja. Rimos perdidos na escuridão daquele humor. Choramos por todos os motivos que já até tínhamos esquecido. Nos funerais fingimos, estar tristes, estar indiferentes, fingimos rezar, penamos por ali estar. Fingimos que a dor tem cor e que apaga todo o cortejo de más memórias. Nos funerais a alma encomendada sussurra fé e medo aos nossos, irremediavelmente egocêntricos, ouvidos. Nos funerais entristecemos, comemoramos, morremos e renascemos. Encontramo-nos também ali, nos funerais. terça-feira, junho 28, 2011
fim de ciclo
O fim de ciclo deixa nas minhas mãos recordações que ora se acentuam ora se desvanecem numa ampulheta entupida com os nossos grãos. Confusa, ansiosa, triste, deito-me na relva fresca e tento acompanhar as nuvens que passam apressadas. (Re)memorizo a minha agenda dos próximos dias, prazos, aniversários, reuniões, idas e voltas, respostas. Tudo cancelado. Oiço o 112 ao fundo, aproximando-se apressado da nossa vida, da tua morte. O telefone toca, agora não posso atender, estou naquele barco à vela a caminho da tua foz. Este fim de ciclo é ruidoso e perseverante, contraria-me. Abro o portão, corro escada acima, conduzo, autómata, guiada pelo teu olhar que insiste em não me reconhecer. Entretanto, cá dentro, adormeci, profundamente cansada, sob o sol morno de fim de tarde.terça-feira, junho 21, 2011
sábado, junho 18, 2011
quotidiano e sonhos simples (ainda) de criança
sexta-feira, junho 10, 2011
Imagine
Imagine que é eleito democraticamente deputado para o Parlamento Europeu. Voa para Bruxelas e vai comer nos melhores restaurantes, passar os fins de tarde nas melhores lojas e voar, nos tempos livres, para os melhores destinos. Claro que, no meio de tudo isto, tem tempo para cumprir o seu dever, propor umas coisas, contestar outras, indignar-se frequentemente. Agora imagine um deputado que talvez até faça tudo isto com um bocadinho menos de frequência, mas que põe, todos os meses, 1500€ de lado para atribuir bolsas a projectos de investigação. Imagine se todos os deputados fizessem algo semelhante, se todos se indignassem um bocadinho menos e praticassem um bocadinho mais... imagine.quarta-feira, junho 08, 2011
Zapping de vida
Ontem, descansando um pouco nesta época em que sinto que não tenho mesmo mãos a medir, fiz um zapping mais demorado por quase todos os canais. Parei numa entrevista com a Ingrid Betancourt que contava, em versão compacta e retocada, a sua experiência de prisioneira na selva, sob o gume das FARC. Ela chegou a um desespero tal que se perguntou afinal que pessoa queria ser. Definiu-a, sem grandes ambições, e transformou-se nessa mesma pessoa que sempre estivera ali dentro, sobreviveu-se. Esqueçamos assim os modelos, as pressões sociais, os equívocos. Devemos ser quem queremos, deixar que essa ambição se torne rotina, que essa rotina, por fim, seja cada um de nós.segunda-feira, junho 06, 2011
Ressaca eleitoral
Ontem fiquei sentada no sofá, palavras em directo atrás de palavras em directo, cores que se diluem, pessoas eufóricas e adormecidas, ecos que soam melhor que os discursos.Portugal tem dificuldade em apaixonar-se. Saltamos de relação em relação numa estratégia insana de fuga para a frente. O argumento para mudar é irrepreensível: já não aguentamos mais. Não amamos o futuro mas odiamos o passado. Fecham-se ciclos por fastio, ligeira desilusão, por irresponsabilidade viciante. Desiste-se do Norte de África porque já não está a dar, atravessamos todos os oceanos primeiros cheios de esperança, de regresso mergulhados em tédio. Os franceses vinham por aí, Portugal já não estava a dar, buscámos o Brasil e depois voltámos, enjoados de tropicalidade. Aguentámos guerras e ditaduras, deixando que o tempo decida por nós. Casamos por conveniência e escrevemos poesia sobre essa infinita tristeza que nos dá o conformismo. Há muito que não ouvimos bater o nosso coração. Talvez o tenhamos deixado pendurado na ponta das armas junto com os cravos vermelhos, talvez abandonado num porão de uma nau afundada pela ganância.
Portugal tem dificuldade em apaixonar-se, cai institivamente nos braços ténues da sua própria esperança, cheio de azedume. Talvez Portugal, cansado, faça tudo para não ter de suportar a solidão.
terça-feira, maio 31, 2011
terça-feira, maio 24, 2011
Uma declaração de amor...
...aPortugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de
ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na
piscina municipal de Braga
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de
ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na
piscina municipal de Braga
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.
Jorge de Sousa Braga
segunda-feira, maio 23, 2011
Triste
A triste história de quem opta entre dividir um prémio e dividir uma vida. Suponho que a opção final é baseada na promessa de juros mais elevados a curto prazo. Ninguém ponderou o investimento de risco elevado na mágoa.terça-feira, maio 17, 2011
O sorriso que guardamos

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém(eu provavelmente)
nunca tivesse existido.
Manuel António Pina, Um Sítio Onde Pousar A Cabeça(1991)
Prémio Camões 2011
quarta-feira, maio 04, 2011
Cool
segunda-feira, maio 02, 2011
Bin, Bam, Bum!
Escutem - não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras.Haruki Murakami
Confirmado, não consigo dizer melhor que aqui
Recomeçar

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
Miguel Torga
domingo, maio 01, 2011
quarta-feira, abril 27, 2011
Perigo: berlusconi globalizado
Finalmente percebi o sucesso "socrático" no nosso país. Tal como os italianos, que caricaturam Berlusconi mas no fundo morrem de inveja dele, deificando-o porque é rico e tem uma vida cansativa de "bunga bunga". Tal como os italianos, dizia, nós, os portugueses, olhamos para a vida de um tipo que vem de uma Câmara da Beira Alta onde avalizou construções improváveis, um tipo que se licencia numa universidade série Z a um domingo, que domina na perfeição de "Camarinha" o inglês técnico, que gasta metade do ordenado num fato Armani, que tem um apartamento num prémio Valmor ao preço da chuva, que manipula os Media na perfeição, que quando fica feliz diz "porreiro, pá", que abandona elementos da sua equipa quando já não lhe são úteis, olhamos para este tipo, recordando a escada rolante de esperteza para o sucesso, e sentimos uma vontade incontrolável de colocar uma cruz no sítio errado no boletim de voto.domingo, abril 24, 2011
sábado, abril 23, 2011
Reflexão pascal

O homem que reclama junto da CP por querer pagar um bilhete que não lhe foi cobrado é notícia. O país assente em, dizem, valores católicos convive com ligeireza com o oportunismo e a esperteza de quem chega rápido onde quer, ainda que trilhando sobre vidas alheias. Vide a biografia de muitos dos nossos actuais políticos.
O homem que reclama, que defende que não quer contribuir para o défice da CP, que se indigna pelo não cumprimento das regras justas, é notícia. É um otário, sintetizam alguns. O problema é que sem estes otários não somos um país, uma sociedade altruísta definida pela honestidade, partilha, pela cidadania activa.
As maiorias transformam-se assim, lentamente, em minorias. As elites deixam-se comprar ou fogem fingindo emigrarem, as que resistem são adormecidas ao som das vãs lutas políticas. O povo apascenta as suas pequenas dores ao sol. Os otários e o país estão em vias de extinção. Por isso somos notícia.
sábado, abril 16, 2011
Para ler à sombra
A entrevista da "Única" do Expresso desta semana com Alain de Botton, o homem que vê os aeroportos com os meus olhos, que se revitaliza sem psicanálise, partindo dos dias que todos atravessamos para dar consistência e profundidade ao pensamento. sexta-feira, abril 15, 2011
Um poema em palco
O que acontece quando se juntam uma das nossas melhores actrizes -Maria João Luis - , uma das nossas melhores cantoras - Manuela Azevedo -, um dos nossos melhores músicos - José Peixoto - e um dos nossos melhores poetas - João Monge? Ontem, na estreia, satisfiz esta minha curiosidade: um dos nossos melhores espectáculos. A Lua de Maria Sem, uma peça que é um poeta dito, visto, cantado. Para embalar, só até domingo no Teatro S. Luis em Lisboa
quarta-feira, abril 13, 2011
Novidades na mala
Na mala, para cá e para lá, "Menos por Menos" e "Tradutor de Chuvas", os mais recentes livros de poesia, respectivamente, do Pedro Mexia e do Mia Couto. Deixo-vos o meu poema preferido deste último.Medos
Medo do amor quando tudo é fome.
E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.
Medo de sermos
só eu e tu a humanidade.
E morrermos de tanta eternidade
Mia Couto
terça-feira, abril 12, 2011
Ando na fase da citação...
... o que talvez fique a milhas de qualquer uma das fases freudianas, mas é o que temos.
Retirei este texto de um blog desempoeirado que frequento, umas vezes aderindo, outras resmungando, mas sempre reconhecendo que, à sua maneira, é muito bom.
Fica aqui mais uma visão enunciativa do nosso...
Portugal
"Portugal e o Euro 2004. Portugal e as Scuts. Portugal e o Magalhães. Portugal e os ordenados dos gestores. Portugal vendida como uma puta de praias paradisíacas e campos de golf. Portugal e as “novas oportunidades”. Portugal e os ídolos, as Lyonces Viiktoryas, a idolatria dos cristianos e do novo-riquismo analfabeto e com interminável tempo de antena. Portugal e os seus pequenos líderes corruptos que se rastejam nos parlamentos, autarquias, campos de futebol, platôs de televisão sem limites, sem consequências, sem castigo. Portugal e o espólio da nossa identidade, com bandeiras patrocinadas por bancos, o hino como reclame publicitário, a História como passatempo de governantes ignorantes. Portugal e os ares de superioridade, esbanjando fortunas emprestadas, desperdiçando fundos que se nos confiaram para crescer, ser melhores, estar na linha da frente. Portugal e os tratados e as cimeiras e as passadeiras vermelhas para ditadores, déspotas regionais, vilõezecos com barris de petróleo. Portugal e o envelhecimento de um interior que vai da fronteira com Espanha até às portagens da ponte 25 de Abril. Portugal e os recibos verdes e o salário mínimo e a precariedade e um carro para cada membro da família e as férias de três semanas no Algarve e os maiores centros comerciais da Europa e cartões gold e bilhetes esgotados para qualquer concerto no Pavilhão Atlântico. Portugal e os sonhos de grandeza. Portugal e o resgate".
quinta-feira, abril 07, 2011
é preciso poesia, porra!
Pôr do Sol na Boa-Nova
mar alma na tarde morta
que cortas dedos na luz
abro-me todo: sou porta
que só contigo transpus.
Ruy Belo
quarta-feira, abril 06, 2011
Inconformismo e Criatividade
Quis partilhar a crónica do Professor Boaventura Sousa Santos que sairá amanhã na revista Visão. Temos mesmo de (reaprender a) pensar o país. "É hoje consensual que o capitalismo necessita de adversários credíveis que actuem como correctivos da sua tendência para a irracionalidade e para a auto-destruição, a qual lhe advém da pulsão para funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza, por mais anti-sociais e injustas que sejam as consequências. Durante o século XX esse correctivo foi a ameaça do comunismo e foi a partir dela que, na Europa, se construiu a social-democracia (o modelo social europeu e o direito laboral). Extinta essa ameaça, não foi até hoje possível construir outro adversário credível a nível global. Nos últimos trinta anos, o FMI, o Banco Mundial, as agências de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo. Têm surgido adversários credíveis a nível nacional (muitos países da América Latina) e, sempre que isso ocorre, o capitalismo recua, retoma alguma racionalidade e reorienta a sua pulsão irracional para outros espaços. Na Europa, a social-democracia começou a ruir no dia em que caiu o Muro de Berlim. Como não foi até agora possível reinventá-la, o FMI intervém hoje na Europa como em casa própria.
Poderá surgir em Portugal algum adversário credível capaz de impedir que o país seja levado à bancarrota pela irracionalidade das agências de rating apostadas em produzir a realidade que serve os interesses dos especuladores financeiros que as controlam com o objectivo de pilhar a nossa riqueza e devastar as bases da coesão social? É possível imaginar duas vias por onde pode surgir um tal adversário.
A primeira é a via institucional: líderes democraticamente eleitos reúnem o consenso das classes populares (contra os media conservadores e os economistas encartados) para praticar um acto de desobediência civil contra os credores e o FMI, aguentam a turbulência criada e relançam a economia do país com maior inclusão social. Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da dívida nominal, obteve um financiamento de três biliões de dólares da Venezuela e lançou o país num processo de crescimento anual de 8% até 2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu, em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem com que assumira os interesses do país e relançara a economia. Em Portugal, um país integrado na UE e com líderes treinados na ortodoxia neoliberal, não é crível que o adversário credível possa surgir por via institucional. O correctivo terá de ser europeu e Portugal perdeu a esperança de esperar por ele no momento em que o PSD, de maneira irresponsável, pôs os interesses partidários acima dos interesses do país.
A segunda via é extra-institucional e consiste na rebelião dos cidadãos inconformados com o sequestro da democracia por parte dos mercados financeiros e com a queda na miséria de quem já é pobre e na pobreza de quem era remediado. A rebelião ocorre na rua mas visa pressionar as instituições a devolver a democracia aos cidadãos. É isto que está a ocorrer na Islândia. Inconformados com a transformação da dívida de bancos privados em dívida soberana (o que aconteceu entre nós com o escandaloso resgate do BPN), os islandeses mobilizaram-se nas ruas, exigiram uma nova Constituição para defender o país contra aventureiros financeiros e convocaram um referendo em que 93% se manifestaram contra o pagamento da dívida. O parlamento procurou retomar a iniciativa política, adoçando as condições de pagamento mas os cidadãos resolveram voltar a organizar novo referendo, o qual terá lugar a 9 de Abril. Para forçar os islandeses a pagar o que não devem as agências de rating estão a usar contra eles as mesmas técnicas de terror que usam contra os portugueses.
No nosso caso é um terror preventivo dado que os portugueses ainda não se revoltaram. Alguma vez o farão?"
sábado, abril 02, 2011
Onde não chega a crise
"Pergunto-me se o amor está em crise. Se os beijos vão caindo a pique na bolsa.Se há cada vez mais mãos dadas no desemprego e se o preço dos olhares amantes também será afectado.
Parece que o número de solteiros já está a desiquilibrar a Balança Comercial e que a Dívida Pública gerada pelos divórcios é intransponível.
Contudo li em qualquer lado de referência que, segundo especialistas, a grande preocupação é a questão do romantismo.
Parece que o gap entre românticos e os não românticos vai triplicar nos próximos anos e que o romantismo médio per capita está cada vez mais detiorado. Sem falar nos empréstimos de romantismo a crédito aos filmes lamechas.
De acordo com a mesma fonte, o PIB das cartas de amor é inferior à média da U.E. e o BCE está a estudar a hipótese de empréstimo mas como não tem papel perfumado é complicado.
As pessoas acabam por buscar soluções mais económicas como conhecer pessoas e namorar pelo facebook o que, consequentemente, tem impacto bastante negativo na indústria do calçado, das floristas e dos chocolates.(...) Eu acho que o que mudou foi a taxa de câmbio do romantismo e as pessoas ainda não sabem fazer as contas. Porque romântico é comprar voos da Ryan Air para fazer surpresas à pessoa amada. É romântico dedicar videos no you tube. é romântico mandar beijinhos para a câmara web enquanto se fala pelo skype(...) É romântico ceder lugar num transporte público.
De modo que se o amor estiver em crise, eu sou apologista de um afluxo interno e externo de ternura e carinho, de divisas indivisiveis para a sua rápida recuperação. Porque, como vimos, o romantismo está em alta parecendo que não."
A. Schutz
sexta-feira, abril 01, 2011
quinta-feira, março 31, 2011
Domingo
Impedia-te a vida, uma mulher, três filhos, um oceano, uma carreira de sucesso. Impedias-te, a tua educação vagamente católica, o olhar de reprovação da tua mãe, o medo de falhar, as saudades da vista para o mar do teu apartamento luminoso. O jogo não era bom mas no bluff és mestre. Viraste todos os impedimentos, saltaste no vazio, no silêncio da queda ouvias, pela primeira vez, o bater do coração. Acordaste sereno, sorrindo, invadido pelo cheiro provocante do pequeno almoço que te preparava. Adormeceste de novo, profundamente. Despertaste ao som de uma disputa entre os teus filhos. A tua mulher, maçada, saíra para caminhar com as amigas do condomínio. Na tua cabeça ainda e sempre o sonho ancorado em impedimentos. O teu peito permanecia silencioso. Era um domingo igual a todos, era um domingo igual a ti. Amuo
Ando triste com o meu país. Pelo meu país. Só sabemos sonhar, escrever sonetos e fixar fronteiras. Lidamos mal com o dinheiro, com a vida farta, somos grandes e pequenos ao mesmo tempo, somos canastrões, achamos no queixume cura, tropeçamos na felicidade e caimos. Vivemos para parecer, esquecemo-nos de quem somos quase todos os dias. Unimo-nos pelo futebol, por Timor, lá longe, e pela falta de dinheiro, pelo esvaziamento das expectativas. Ou não votamos ou somos pouco criativos no voto. Toda a gente leu o Ensaio sobre a Cegueira mas esqueceram o melhor, o Ensaio sobre a Lucidez. Não somos criativos nas alternativas, estudamos para enriquecer, desdenhamos o saber perante o atalho da esperteza. Julgam-nos pelos políticos que temos e muito bem. Eles acham-nos tolos, discursam para avestruzes, lutam pelo poder que já os corrompeu, deixam que o mundo inteiro nos invada de especulações, arrasando, ainda que por momentos, o que de mais precioso temos: os nossos sonhos, os nossos sonetos, as nossas fronteiras.terça-feira, março 29, 2011
quarta-feira, março 23, 2011
Zarpar
Pela manhã ouvia um relato-síntese dos jornais alemães de hoje acerca da situação do nosso país. Apontavam a falta de formação/escolaridade dos portugueses (a começar pela do primeiro Ministro, acrescento) como principal razão para fraca capacidade concorrencial, espantavam-se como Portugal, após 25 anos de UE, ainda não conseguira solidificar a sua economia.A parte boa é que os alemães desconhecem a nossa história, há mais de quinhentos anos que andamos nisto, falimos sete vezes desde então e não nos chegou explorar todas as riquezas do mundo para nos alicerçarmos.
Agora zarpamos de novo. No cimo da colina os velhos do Restelo saíram da toca e, num magistral arrobo de última hora, alertam para os perigos desta crise. Dentro da nau só cabem os clarividentes, os instruidos, os esforçados, os honestos e os que já não aguentavam mais viver em casa dos pais. Todos, mais ou menos à rasca, vamos desenrascar-nos com biscoitos e esperar que o escorbuto não chegue. Todos sabemos que o mar é duro, quase intransponível, que as noites são longas e os juros são altos. Resta-nos trocar impressões sobre tudo o que lemos até agora, contar as estrelas e ter esperança que existe ainda um novo continente por descobrir.
segunda-feira, março 21, 2011
Perigeu
Bem aventurados os que blasfemam

Um amigo brasileiro, que se dedica ao estudo destas coisas, enviou-me a seguinte lista que não posso deixar de partilhar com vocês (bold meu):
LISTA DE IGREJAS ABERTAS NO BRASIL EM 2010 (até Setembro)
- Igreja da Água Abençoada - Igreja Adventista da Sétima Reforma Divina - Igreja da Bênção Mundial Fogo de Poder - Congregação Anti-Blasfêmias - Igreja Chave do Éden - Igreja Evangélica de Abominação à Vida Torta - Igreja Batista Incêndio de Bênçãos - Igreja Batista Ô Glória! - Congregação Pass o para o Futuro - Igreja Explosão da Fé - Igreja Pedra Viva - Comunidade do Coração Reciclado - Igreja Evangélica Missão Celestial Pentecostal - Cruzada de Emoções - Igreja C.R.B. (Cortina Repleta de Bênçãos) - Congregação Plena Paz Amando a Todos - Igreja A Fé de Gideão - Igreja Aceita a Jesus - Igreja Pentecostal Jesus Nasceu em Belém - Igreja Evangélica Pentecostal Labareda de Fogo - Congregação J. A. T. (Jesus Ama a Todos) - Igreja Evangélica Pentecostal a Última Embarcação Para Cristo - Igreja Pentecostal Uma Porta para a Salvação - Comunidade Arqueiros de Cristo - Igreja Automotiva do Fogo Sagrado - Igreja Batista A Paz do Senhor e Anti-Globo - Assembléia de Deus do Pai, do Filho e do Espírito Santo - Igreja Palma da Mão de Cristo - Igreja Menina dos Olhos de Deus - Igreja Pentecostal Vale de Bênçãos - Associação Evangélica Fiel Até Debaixo DÁgua - Igreja Batista Ponte para o Céu - Igreja Pentecostal do Fogo Azul - Comunidade Evangélica Shalom Adonai, Cristo! - Igreja da Cruz Erguida para o Bem das Almas - Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino Coelho, a Sumidade - Igreja Filho do Varão - Igreja da Oração Eficiente - Igreja da Pomba Branca - Igreja Socorista Evangélica - Igreja A de Amor - Cruzada do Poder Pleno e Misterioso - Igreja do Amor Maior que Outra Força - Igreja Dekanthalabassi - Igreja dos Bons Artifícios - Igreja Cristo é Show - Igreja dos Habitantes de Dabir - Igreja Eu Sou a Porta - Cruzada Evangélica do Ministério de Jeová, Deus do Fogo - Igreja da Bênção Mundial - Igreja das Sete Trombetas do Apocalipse - Igreja Barco da Salvação - Igreja Pentecostal do Pastor Sassá - Igreja Sinais e Prodígios - Igreja de Deus da Profecia no Brasil e América do Sul - Igreja do Manto Branco - Igreja Caverna de Adulão - Igreja Este Brasil é Adventista - Igreja E..T.Q.B (Eu Também Quero a Bênção) - Igreja Evangélica Florzinha de Jesus - Igreja Cenáculo de Oração Jesus Está Voltando - Ministério Eis-me Aqui - Igreja Evangélica Pentecostal Creio Eu na Bíblia - Igreja Evangélica A Última Trombeta Soará - Igreja de Deus Assembléia dos Anciãos - Igreja Evangélica Facho de Luz - Igreja Batista Renovada Lugar Forte - Igreja Atual dos Últimos Dias - Igreja Jesus Está Voltando, Prepara-te - Ministério Apascenta as Minhas Ovelhas - Igreja Evangélica Bola de Neve - Igreja Evangélica Adão é o Homem - Igreja Evangélica Batista Barranco Sagrado - Ministério Maravilhas de Deus - Igreja Evangélica Fonte de Milagres - Comunidade Porta das Ovelhas - Igreja Pentecostal Jesus Vem, Você Fica - Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo - Igreja Evangélica Luz no Escuro - Igreja Evangélica O Senhor Vem no Fim - Igreja Pentecostal Planeta Cristo - Igreja Evangélica dos Hinos Maravilhosos - Igreja Evangélica Pentecostal da Bênção Ininterrupta - Assembleia de Deus Batista A Cobrinha de Moisés - Assembléia de Deus Fonte Santa em Biscoitão- Igreija Evangélica Muçulmana Javé é Pai - Igreja Abre-te-Sésamo - Igreja Assembléia de Deus Adventista Romaria do Povo de Deus - Igreja Bailarinas da Valsa Divina - Igreja Batista Floresta Encantada - Igreja da Bênção Mundial Pegando Fogo do Poder - Igreja do Louvre - Igreja Evangélica Batalha dos Deuses - Igreja Evangélica do Pastor Paulo Andrade, O Homem que Vive sem Pecados - Igreja Evangélica Idolatria ao Deus Maior - Igreja MTV, Manto da Ternura em Vida - Igreja Pentecostal Marilyn Monroe - Igreja Quadrangular O Mundo É Redondo - Igreja Pentecostal Trombeta de Deus (Samambaia -DF) - Igreja Pentecostal Alarido de Deus (Anápolis -GO) - Igreja pentecostal Esconderijo do Altíssimo (Anápolis -GO) - Igreja Batista Coluna de Fogo (Belo Horizonte -MG) - Igreja de Deus que se Reúne nas Casas (Itaúna -MG) - Igreja Evangélica Pentecostal a Volta do Grande Rei(Poços de Caldas-MG) - Igreja Evangélica Pentecostal Creio Eu na Bíblia (Uberlândia -MG) - Igreja Evangélica a Última Trombeta Soará (Contagem -MG) - Igreja Evangélica Pentecostal Sinal da Volta de Cristo (Três Lagoas -MS) - Igreja Evangélica Assembléia dos Primogênitos (João Pessoa -PB) - Ministério Favos de Mel (Rio de Janeiro -RJ) - Assembléia de Deus com Doutrinas e sem Costumes (Rio de Janeiro -RJ)
terça-feira, março 15, 2011
é do outro lado do Mundo...
sábado, março 12, 2011
Eu Vivo A Sorrir
Há coisas que nunca mudam. A doçura da sua música é uma delas.
Vivo a sorrir é a primeira faixa do seu último trabalho e para mim lema de vida adoptado e praticado:
" vai que me espera com boas notícias o inesperado".
quarta-feira, março 09, 2011
10 anos, 10 minutos

Depois de dez anos e de dez minutos de conversa, ele diz-me, surpreendido, que estou igual. Não lhe posso dizer que não é verdade, seria explicar-lhe percursos sinuosos cá dentro e para isso gastaria, previamente, fortunas em psicoterapia. Então sorrio, mostrando, orgulhosa, recentes rugas de expressão. Tomo a afirmação como um cumprimento e agradeço não podendo, contudo – porque sabemos, há coisas que nunca mudam – retribuir.
terça-feira, março 08, 2011
segunda-feira, março 07, 2011
árvores de sonho
ando a sonhar mais do que o habitual. Agora também com o próximo destino de férias.
domingo, fevereiro 27, 2011
Ondas
Nestes dias de boas e intermináveis conversas à beira Mondego, de algumas insónias saudáveis e de novas (e muitas) sinapses deixo-vos a banda sonora que me acompanha.
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
Bizarrias

Caros leitores,
Preocupo-me com vocês. Com os que estão na fila da Segurança Social, com os que conhecem todas as cadeiras do Centro de Emprego, com os que morrem de tédio no gabinete forrado a pau preto do Brasil, com os que se afundam em pilhas de papeis, com os aquecedores profissionais debiberons ou com os que teclam incessantemente durante oito horas. Se estão deprimidos e querem mudar de vida eis uma oportunidade única. Se obtiverem um bom aproveitamento dá direito a uma digressão mundial (é a globalização) e bonés cheios de moedinhas(é o capitalismo).
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Trinta anos depois
Ontem voltei ao teatro D.Maria II para ver o Azul Longe nas Colinas. Já conhecia o autor do texto,D. Potter (penso que não aparentado com o H.Potter, embora saiba também fazer magia com as palavras), mas confesso que fiquei surpreendida pela simplicidade, pela interpretação, pela encenação. No caminho para casa, cansada mas reconfortada, fui pensando no momento em que perdi a minha ingenuidade (não o consegui localizar... assustador) e nos dias da minha vida que vão correndo, recheados de momentos não muito diferentes do recreio do colégio que frequentei na primeira classe: as Anas (Sofia e Rita) nunca me queriam emprestar as bonecas loiras e sorridentes e os mil acessórios só porque eu era a melhor aluna da turma e jogava, na perfeição, ao berlinde com o André Pina. quinta-feira, fevereiro 17, 2011
(à)Rasca
Ontem, de novo, televisão. Na SiC via o especial sobre a Geração à Rasca. A minha, denominada carinhosamente Rasca, ficou atenta. Nada a criticar no todo, embora a publicidade ao Instituto Superior Técnico em Lisboa fosse um tudo nada exacerbada dada a importância do assunto analisado. Contudo, fiquei boquiaberta quando uma jovem de Vila Real, nos seus 20 e poucos anos, cortava frango ferozmente na cozinha de sua mãe e vociferava contra a falta de emprego desde o momento que acabou o seu curso de Tecnologias da Comunicação, em Outubro passado: “Andamos nós a matar a cabeça durante três anos para depois não termos oportunidades”. A angústia que causa a incerteza é tramada, todos sabemos ciclicamente disso. Mas, jovemàrasca, não digas assim, cheia de raiva, que mataste neurónios durante aqueles poucos anos (ai Bolonha, bela cidade!) a aprenderes coisas eventualmente relacionadas com tecnologia. Matar seria não teres tido a oportunidade de estudar e quereres muito fazê-lo, matar é repetir sem pensar frases de senso comum, matar é cortares o frango com toda a tua ira, matar é a decoração da cozinha da tua mãe (já agora). *Jovensàrasca, este país não é para velhos nem para novos. É para os instalados (e contra eles nada podemos fazer, somente ansiar pela sua reforma - e pagá-la), para os esforçados (criativos trabalhadores que não se deixam cilindrar pelo absurdo diário) e para aqueles que sabem que matar a cabeça é antes ficar à espera, inamovíveis, que a vida lhes aconteça.
*Jovemàrasca, um conselho, uma ideia: que tal pegares nos teus conhecimentos de tecnologia de comunicação e nos teus outros de gastronomia regional transmontana e fazeres um site delicioso de culinária? Deixa crescer o cabelo, põe lentes de contacto, exercita a parte do cérebro que sobreviveu ao triénio académico e quiçá não puderás ser a nossa Nigella.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Vers(o)us

Uma noite de profunda insónia, daquelas que, na minha sonolenta vida, só acontecem de dez em dez anos, permitiu mil trabalhos: navegar, ler e reler, estudar e descobrir a programação nocturna da SIC Notícias (já que da diurna só sei de noticias e mais notícias e mais opinião pública e privada e mais notícias).
Num spot fantástico sobre a actividade jornalística do Canal no mundo, em voz off, o poema do grande Oswaldo carioca que me deixa sem palavras (vide post anterior).
Lá para as 4 da manhã uma inquietante reportagem intitulada Israel vs Israel (se puderem vejam, passará repetidamente a semana inteira). Fala de judeus israelitas que ousaram pensar as pessoas e secundarizar a terra e as palavras de Deus das quais, porque lidas pelos Homens, brotam rios de sangue. A coragem de pensar num território onde nada é racional. Aprendi muito, esbateu alguns dos meus preconceitos. Porque a realidade dura, infame, injusta também pode ser versos reescritos todos os dias.
Metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Oswaldo Montenegro
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
Labirinto
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Entrar
A porta fechou-se logo atrás de ti. Eu fiquei de janelas trancadas e tapete desalinhado por teres arrastado desastradamente a mala. Não era por aqui que queria começar, embora possa ser o melhor dos começos. Queria escrever sobre portas, trancadas, abertas, perras, escancaradas, arrombadas e sobre malas que se arrastam na ligeireza dos caminhos que percorremos. Entramos e saímos sempre pela porta e com coisas, por vezes tantas, atrás, aos ombros, ao colo. Depois de pensar nisto passei a escolher janelas que me deixam entrar de mãos vazias. Sentada no parapeito ensolarado consigo abraçar-nos sem preocupações, com vista desafogada para amanhã. Nunca mais vi um tapete desalinhado.terça-feira, fevereiro 01, 2011
Uma anedota de ditador
"Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas. Um rapazinho chamado Ramy levantou a mão e o Presidente egípcio interpelou-o:
- O que queres saber?
Ramy disse:
- Tenho quatro perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente? Terceira: por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e a política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?
Nesse preciso momento, a campainha tocou e Mubarak informou as crianças que voltaria depois do intervalo.
No regresso, retomou a conversa:
-Ok, em ponto estávamos? Ah, já sei... Na sessão de perguntas. Alguém quer perguntar alguma coisa?
Um outro rapazinho levantou a mão. Mubarak apontou para ele e pediu-lhe que se identificasse.
- Eu sou Tamer, respondeu o menino.
- E qual é a tua pergunta, Tamer?
- Eu tenho seis perguntas. Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos? Segunda: por que é que nunca nomeou um vice-presidente?Terceira: por que é que os seus dois filho, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país? Quarta: por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada? Quinta: por que é que a campainha tocou para intervalo 20 minutos antes do que é habitual? Sexta: o que é que o senhor fez ao Ramy?
Esta velha anedota, sussurrada entre portas e relembrada por Issandr El Amarani no seu blogue The Arabist, exprime bem algumas das razões que levaram os egípcios a perder o medo e a reclamar, não em segredo mas nas ruas, o fim de um regime ditatorial em vigor há quase três décadas."
No jornal Público de ontem, ilustrando a revolta no Egípto.
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