sábado, abril 14, 2007

Ainda demora muito?


Pacientemente esperando que esta impaciência passe...

Pérola pela manhã.


Distraio-me a observar as pessoas frequentemente. Mais por feitio que por vício ou pelos ossos do ofício. A diversidade humana é imensa. Hoje, para compensar um sábado de trabalho, fui ali à leitaria beber um café para acordar, comer um queque queimado e fingir que lia devagarinho o Expresso. Estar naquela mesa do cantinho é uma experiência a não perder. Costumo ter, quase a meu lado, o Pedro Mexia, sempre com três a quatro livros e com a cara enterrada, literalmente, num qualquer Diário. Suspeito que tenta disfarçar da mesma maneira que eu. Além das criancinhas traquinas e de alguns velhotes bem dispostos há sempre algumas novidades: ou as meninas de uma disco das imediações reforçando energias, aprontando-se para dormirem até à hora de jantar, um ou dois colegas entediados com os programas da manhã que passam no ecrã fora de moda, um cão à porta que espera impaciente o dono que demora a engolir o rissol e o café, um amor a começar entre duas chávenas, um copo de água e pequenas confidências. Depois começo a ouvir as conversas. Banais, interessantes. Revejo-me ou entedio-me. Sorrio. Na mesa em frente estava o chamado “pintas” a contar ao amigo como trata a nova e submissa namorada. O conteúdo desprezei. Tropecei na forma. Ele dizia muitas vezes que “quando lhe dava na vinheta” fazia isto ou aquilo. Tenho uma colecção mental destas expressões trocadas que revelam a descontracção dos portugueses com a sua língua, que revelam o seu absoluto alheamento do sentido de algumas expressões. Esta quase que bateu a do “bode respiratório”. Quase.

quarta-feira, março 21, 2007

Porque começou a Primavera no dia em que se comemora a Poesia



A Erva da Fortuna

A erva da fortuna cresce como por encanto nas orelhas dos políticos,
o primeiro ministro proclama a amnistia para os cucos dos relógios,
o degelo nas relações internacionais restabelece o nível das águas nas albufeiras, o ministro da energia esfrega as mãos de contente.

Embora o boletim meteorológico seja controlado pelo governoo, nuvens cor de chumbo toldam frequentemente o horizonte,
os pescadores de águas turvas procuram o alto mar,
uma chuva de impostos cai de imprevisto
ah a chuva na Primavera, escrevem os poetas.

As andorinhas podem passar livremente a fronteira.
Os polícias oferecem grinaldas aos condutores de veículos mal estacionados.
O cio invade a assembleia. Os deputados bombardeiam-se com pólen.
Um nostálgico do Outono argumenta: a Primavera de Praga também foi de lagartas nas estradas.


Jorge Sousa Braga

O Poeta Nu

Fenda

Ainda...


... a aterrar. A adaptação à vida de sempre é mais difícil que o imaginado. Estou em reconstrução. Com um sorriso imenso mas... vazia, vazia.
Até (muito) breve.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

o que mudou e o que não mudou


Regresso definitivamente a Lisboa na sexta dia 2. Nem estou ainda a acreditar. Embora vá lá uma vez por mês sinto, agora no regresso, que chego a uma cidade um pouco mudada. Há mais uma ou outra radial, mais um ou outro centro comercial, pode-se falar ao telemóvel no metro, a programação dos centros de cultura está cada vez pior, o Saldanha está um caos, há túneis a postos para serem inaugurados (talvez antes das eleições antecipadas), há tapumes a retirar e a colocar em outro lado, aleatoriamente, há outros percursos, há, por fim, uma casa restaurada para chegar ao fim do dia.
Sei que eu chego também diferente, com as mesmas manias e teimosias, com mais cabelos brancos, mais remendos e muitos sorrisos, de alguns que por aqui encontrei, guardados nas duas imensas malas. Dois anos foram um ápice de felicidade e de problemas, de dificuldades e de golpes de sorte, de radicais afastamentos e de surpreendentes aproximações, de esforço intenso e de preguiça acumulada ao sol num destes prados verdes. Levo numa mão este mar intenso, imenso, indomável e na outra o optimismo e a esperança de sempre.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A dificil arte de escrever alguma coisa que preste

Ando stressada com, mais uma vez, as mudanças da minha vida. Ainda não sei qual o dia desta semana que me deixam voltar definitivamente a Lisboa. Entretanto devido às despedidas, às insónias, aos projectos do futuro imediato e aos pensamentos perdidos não consigo escrever nada que preste. As sinapses não estão a ser feitas devidamente suspeito...

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Eusoutuetueu












Lia ontem, na livraria do costume, esta pequena história cheia de sabedoria oriental. Fala sobre a dificuldade que todos temos de sair de nós e encontrar o outro e sermos, nessa árdua tarefa, correspondidos. Talvez por isso vivemos na era da solidão.

Numa aldeia da China profunda um jovem enamorado resolve ir visitar a sua amada que sabe que o corresponda naquele amor. Assim, chega a casa dela e bate à porta.
Quem é ? – pergunta a jovem.
Sou eu. – responde o jovem enamorado.
Ela entristece-se com a resposta e pede-lhe que vá meditar sobre ela para a floresta.
O amor tem destas coisas e o jovem lá foi meio baralhado e triste por ter de alguma forma magoado a sua amada.
Uns meses depois sentiu-se preparado, voltou a bater-lhe à porta.
Quem é? – pergunta a jovem.
Sou tu – responde o jovem enamorado sabiamente.

E por isso vos digo, à boa maneira ocidental, que viveram felizes para sempre.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Depois de dizer sim

O Sim ganhou por minha culpa e por culpa de quem se mobilizou para prencher o mesmo quadradinho. Nada contra os argumentos (os sérios) do Não. Mas tudo a favor dos do Sim. Depois desta discussão, a qual passou ao largo da maioria dos portugueses, preocupados em pagar dividas, arranjar emprego e hora de consulta no médico de família, importa fazer alguma coisa de jeito, para variar, sobre o planeamento familiar e a educação sexual neste país, as questões cruciais que nos levam a discutir horas a fio outras que se limitam a ser a sua consequência. Afinal somos oficialmente um país civilizado, laico, do primeiro mundo, membro da UE. Oficialmente.

sábado, fevereiro 17, 2007

Sonhar (quase) acordada


Desde há duas semanas que ando a sonhar que estou grávida. Não estou. Nunca estive. Gostaria, daqui a uns tempos. Hoje, finalmente tive a criança sem dor (viva!), só com ansiedade. Dada a insistência deste sonho tentei desvendar o seu significado além do básico que a Psicologia adianta e que não se encaixa aqui: sonhamos com o que muito tememos ou com o que muito desejamos. E saiu isto:

Gravidez: Feliz aumento de bens, eis o presságio para uma mulher que sonhou com gravidez; homem sonhar com gravidez é aviso para que não se exponha, não cometa excessos.
Parto: Se, em sonho, você assistiu a um parto, saiba que brevemente terá a ajuda de pessoa amiga. Você ou outra pessoa em trabalho de parto é prenúncio de que participará de uma óptima companhia e projetos serão levados a cabo.


E não é que é?! Em 2007 vou ser uma rapariga mais esotérica. Acompanham-me? Não me parece...

As palavras dos outros no meu regresso

A Máquina Fotográfica

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boa nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contrastada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei.
É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a vista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shining
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sendo à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
dum novo continente itinerante.



José Carlos Ary dos Santos
Obra Poética
Lisboa, Edições Avante, 1994

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

a moral da vingança

"A vingança é salutar ao carácter; dela brota o perdão". Graham Greene

terça-feira, fevereiro 13, 2007

A mim não me enganam...


Nos voos não se passam só coisas assustadoras...
Num destes meus voos frequentes tive o “privilégio” de me sentarem no último lugar. Como sou devia ficar contente porque é mais próximo da saída mas, por outro lado, tem contras como por exemplo fazer muito mais impressão a descolagem ou ser barulhento. Mas não vos vou maçar mais com isto... Neste voo foi óptimo vir naquele lugar pois permitiu que ouvisse as conversas das hospedeiras que, diga-se de passagem, eram bem mais animadas que o habitual para aquela hora da manhã. Tagarelavam divertidas sobre coisas mais ou menos fúteis até uma delas resolver contar esta história que se passou recentemente no aeroporto de Lisboa: a uma senhora da aldeia, que vivera isolada, devido aos rigores da vida e do marido, foi oferecida, aquando da sua viuvez, por um filho emigrante em Boston, uma passagem aérea para que ela o visitasse. Sem hesitações e com o espirito aventureiro que lhe restava, a senhora, para matar saudades, lançou-se sozinha nesse mundo desconhecido que é a aviação. No dia e hora marcada dirigiu-se ao aeroporto de Lisboa para as devidas formalidades de embarque. Correu tudo muito bem até passar a porta de embarque e se deparar com o autocarro que a levaria ao avião. Pousou a bagagem de mão e recusou-se a entrar. Uma assistente no local quis saber os seus motivos e ela, indignada, avisou que sabia que a estavam a enganar, que não era nenhuma tola porque o filho lhe tinha enviado um bilhete de avião para Boston, não era para ir de “carreira”. Explicaram-lhe a custo e o comandante, depois de saber do sucedido, pediu à tripulação para que a sentasse em primeira classe proporcionando-lhe ainda outro luxo que nunca tivera.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Voar (medo de)

"182 passageiros retidos após aterragem forçada
Os 182 passageiros de um Airbus da SATA Internacional que teve de fazer uma aterragem forçada em Santa Maria, nos Açores, no domingo, devido a uma avaria técnica, deverão chegar a Lisboa no final da tarde desta segunda-feira."

Notícia TSF on-line de 29/01/2006

O que me faz lembrar um texto que escrevi há uns anos, baseado na minha viagem Lisboa-Rio de Janeiro, sobre este meu medo com o qual tenho de viver.

Lá vou eu. Malas,check in, corredores, portas, autocarros ou mangas intermináveis, companheiros de viagem animados e, por isso, inconscientes. Finalmente um lugar, quase sempre por companhia a asa inquieta e um cinto grosso, engenhoso que nos dá a ilusão de segurança, podemos acabar, sim, mas um banco made in Taiwan nos acompanhará na eternidade.
Ao fundo sempre uma hospedeira cada vez menos interessante que, ridícula, se articula numa explicação multilingue de como podemos escapar à eternidade e ao nosso banco. Os passageiros dos panfletos, felizes, escorregam pelas portas de emergência e inspiram pelas máscaras um oxigénio que os converte àquelas seitas que acham morrer um sinónimo de libertação e encontro com um deus qualquer.
Depois do espectáculo que activa o pânico começa tudo a funcionar: motores, tripulação, pista, acção! Conversa-se sobre o que há do outro lado do oceano e fazem-se planos para as muitas horas de voo. Muitas horas de voo… muitas horas de voo…enquanto esta frase ecoa em mim desafiamos a velocidade da luz e tentamos descolar o trem de aterragem de uma terra que ainda faz todo o sentido.
Levantamos, diagonal, as casas, as pessoas, a cidade encolhe de súbito, diagonal, S.O.S., S.O.S.. Relembro todas as orações em que já não acredito.
Piscam as luzes de fim de perigo, tiro o poderoso cinto que me agarrou à vida, insisto em manter-me no lugar imóvel, fria, lívida. Duas ou três lágrimas rolam pela face.
O céu é azul, a paisagem é indiscritível, posso dizer somente que há algumas nuvens mas não precisavam de estar lá em baixo! E fica provado mais uma vez que a Humanidade também pode voar.
Um whisky por favor! Sem gelo! Engulo um só trago como a substituir um soco que imploro. Não chega. Outro! E outro! Um gin! Não, um gin faz mal ao estômago que também voa comigo. Talvez outro whisky. Um sono, um sonho que não lembro. Acordo e voo directamente para o pesadelo do cinto e da voz credível do comandante que informa que perdemos muitos metros de altitude e mais algumas considerações indecifráveis sobre a atmosfera! Até o Adamastor se mudou agora para aqui caramba! Isto não é nenhuma caravela nem eu tenho pretensões epopeicas! A meio deste resmungar caem automática e coordenadamente as máscaras dos panfletos! Não! S.O.S.! S.O.S.! Agora um Xanax! Dois! À frente as crianças divertem-se com óbvia limitação de espaço e as pipocas que não comem aterram em mim ininterruptamente. Ao lado um professor de História que, após trocarmos impressões várias sobre aquela e outras matérias, adormeceu profundamente… sinto-me um pouco culpada por isso. E eu ali meia de ressaca, meia alucinada, artificialmente calma… A medo inclino-me para a ficção de janela , é já terra lá em baixo. Endireito-me, é melhor não espreitar mais porque ainda posso acreditar que aqueles fios azuis são mesmo rios enormes e os pontos avermelhados aglomerados populacionais.
A hospedeira passa mais uma vez e intimida-me com o seu olhar e eu … deixo-me intimidar e não lhe peço mais álcool.
Quase já habituada a tudo isto, depois de duas viagens radicais até àquele espaço, ali mesmo no fundo do corredor, a que chamam casa de banho, de novo a parafernália de sons e luzes a piscar!
O comandante diz que está tudo bem, que nenhuma parte do avião se desintegrou e que o trem de aterragem obedeceu. Vamos iniciar a descida entre as montanhas que circundam a cidade. Já lhes disse que o comandante tem uma voz credível?Outra vez o cinto, o meu corpo não responde, lágrimas nos olhos, S.O.S., diagonal, uma volta, outra, arrisca, a pista atrai como um íman inconsequente. Preparar, apontar…aterramos. O comandante credível acertou com a pista e nós batemos palmas, dentro da nossa cabeça, à pontaria e ao medo que acabou e sair de cena. Quero sair! Quero sair também! Quero beijar esta terra ou qualquer outra porque estou certa que, quando o fazem, é sempre um sinal de alívio. Tenho mesmo de voltar?

PS: vou voar na sexta feira....

sexta-feira, janeiro 26, 2007

As aves loucas e o texto apartir do poema de um amigo:o post non sense


na palma da tua mão

e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos,dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te

Vasco Gato


Lembras-te? Adormeci logo nas tuas mãos, mal te conhecia. Era um bom sinal, logo eu que dormia tão mal. O tacto de ti conquistou-me ali mesmo. Despudoradamente. Depois deste-me as mãos à beira do mar, naquele dia de inverno, e disseste que sim a uma pergunta que eu ainda não sabia. Eram as tuas mãos a dizerem ternura, olá, fica, paz, sonha. E eu adormeci na tua linha do amor, profunda, curva e que acaba em bifurcação… dizem os quirólogos que é um bom auspício. Acordei no sobressalto de nos quererem comprar alianças. “Só os anéis de Saturno!” –gracejavas da liberdade que as nossas mãos reivindicavam. Deste-me as mãos e fugimos anos, meses,dias. Juntámos as linhas da vida e tacteámos um filho que ainda não veio.
Lembras-te? E assim fomos felizes até àquela minha lágrima que caiu na tua mão no dia em que disseste que te enganaras. “Foi um mal entendido, ela levava as minhas aulas muito a sério eu eu não resisti.” Agora és tu que não me consegues tocar. Olha-me. Ouves-me? Ainda não te chorei o suficiente… mas sei que posso deixar escapar as tuas mãos por entre os meus dedos.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O manual deste amor

Título original: Manuale d`Amore
Realização: Giovanni Veronesi

Chegou esta semana aqui, à periferia do mundo. Fui de imediato vê-lo com o intuito de que, com ele, poderia aprender alguma coisa. Após cinco minutos esqueci-me deste tolo objectivo e deixei-me completamente enfeitiçar. Fala do amor despretensiosamente, com humor, com ironia, com dor, mas sobretudo, fala do amor na língua do quotidiano misturado com um absoluto lirismo, que todos deveríamos compreender muito bem.
As estrelas (exceptuando no episódio da traição, no qual a maravilhosa Ornella sofre e se vinga com toda a dignidade de uma mulher do séc. XXI) são os homens, sonhadores, felizes, doridos, frágeis, alienados do e com o amor
O guião gira em torno das quatro fases do amor — paixão, crise, traição e abandono — que são apresentadas em encadeados episódios protagonizados por, também, quatro casais diferentes. No final a história é rematada com uma imensa esperança que insiste em fazer os seus pequenos milagres.

terça-feira, janeiro 23, 2007

As memórias dos anos 80 recuperadas


É um episódio que me relembraram muito recentemente. A propósito dos referendos, do castigo de Deus e das coisas "do mal" achei que fazia sentido reavivar esta memória. Existem coisas que estão (quase) na mesma. Faz falta a Natália no Parlamento. Muita falta.


«O acto sexual é para ter filhos» - disse na Assembleia da República, no dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS João Morgado num debate sobre a legalização do aborto.
A resposta de Natália Correia - publicada depois pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano - fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:


Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,

preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

( Natália Correia - 3 de Abril de 1982 )

domingo, janeiro 21, 2007

Eles falam, falam...

Requer-se a reabertura de processos arquivados (vj. Apito Dourado) e descodificam-se palavras como “fruta” e “café com leite”, os melhores advogados do país são comprados para contestarem formalidades processuais que põem em causa interesses superiores (vj, Operação Furacão), sentenças em tribunais do país real sobre caso da vida agitam os portugueses (vj. Tribunal de Torres Novas sobre o caso Esmeralda). Deve-se, por certo, à conjugação astral de 2007 toda esta discussão sobre a Justiça, que pode ser cega, mas já não surda ou muda. E com segredo(s) . Finalmente em Portugal o povo fala sobre Ela. Em formato de desconhecimento absoluto, senso comum ou alarmismo social, mas fala-se. Fala o coração, a razão, a política a técnica, mas fala-se. Enchem-se parangonas de jornais, entrevistam-se interessados em prime time, toma-se um café na esquina e o Sr. Álvaro pergunta o que achamos sobre “essa corja de malvados que deviam ser todos presos, mas era”. As minhas memórias dos anos 80 nesta matéria são remotas. Mas imaginem agora um caso Camarate, a diferença que seria. Apareceriam na net as perícias confidenciais ao avião, talvez no Jornal da TVI aparecesse também um homem, com imagem e voz distorcida, confessando a co-autoria do crime. Falar-se-ia do estado da vida conjugal dos falecidos à altura do acidente. Chegar-se-ia a julgamento, tinha de haver um julgamento, arrastado por longos meses, com manifestações populares diversas seguidas de um profundo sentimento de frustração da opinião pública. Um movimento cívico, liderado por ilustres figuras da nossa sociedade, assinaria uma petição sobre temas variados desde as normas de segurança em aeroportos até a questões relacionadas com as regras do Direito das Sucessões nas uniões de facto. E os mais ou menos viperinos-verborreicos líderes de opinião lá estariam ganhando mais uns cobres. Conseguem imaginar? Mas assim é a democracia a amadurecer. Lentamente.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Lutando contra moinhos de vento

Acho que ainda não contei aqui esta.

Cenário: eu e uma testemunha, ainda viva, na Livraria Bertrand na grande superfície (sim, porque há!) de Ponta Delgada.

Eu: Boa noite, gostaria de saber se já chegou a nova edição do D. Quixote.
A empregada (ar perplexo e tom rígido): Sim, mas qual é o livro?
Eu: D. Quixote, aquela edição encadernada.
A empregada (ar mais perplexo, tom superior e já impaciente): Sim, está bem. Isso é a editora, eu quero saber é o nome do livro!

Claro que explicar que obra é e quem foi o Cervantes a uma senhora que trabalha naquela livraria pareceu-me pouco adequado. Disse-lhe que não sabia o título e saí de imediato com dúvidas entre o rir, o chorar e o... insultar. Até hoje ainda não me consegui decidir.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Dos meus amores VIII


Os amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor.
José Tolentino Mendonça

terça-feira, janeiro 16, 2007

Ode à meteorologia açoreana

A explicação científica:
"As chuvas regularmente distribuídas ao longo do ano mas são particularmente abundantes no Outono e no Inverno (quando o Anticiclone dos Açores desce mais em latitude deixando o arquipélago sob a influência das perturbações da frente polar). "
A minha constatação:
Sintomas:Acordo pela manhã, sol radioso. Saio para almoçar, chuva "molha tolos". Ao fim da tarde, nublado. Saio para correr, céu estrelado. A meio do percurso apanho uma molha. Chego a casa, céu estrelado. Acordo de noite, vento forte e chuva torrencial.
Diagnóstico: esta terra sofre de esquizófrenia metereológica.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Dos meus amores VII


Acender o forno. Colheres, facas, garfos, triturador, tábuas, medidores em desalinho. Abro, fecho, abro, fecho, abro, esqueço aberto o frigorífico. As ervas, as especiarias, o sal q.b. A batedeira ensurdecedora. Já em banho-maria. As claras fazendo castelos. Amasso a massa que resiste ao amasso. Ferver. Salpicar. Entornar.100 gramas. ¼ de litro. As cores diluem-se, surgem outras, surpreendentes. Os cheiros intensos que apetece comer. A calma de toda esta confusão. O medo de nada correr bem. A certeza de que não se deve seguir esta parte da receita. As mãos frenéticas, lambuzadas. O avental cheio de animais felizes por ali estarem. O barulho das travessas que se acotovelam para serem a prima donna do dia. Não, não esqueci. Ah! Esqueci. Não faz mal, invento. Provo. Huummm! Argh! Mais sal, mais água, mais farinha, diluir, engrossar, mais limão, mais manjericão, mais tempo, mais quente. Forno já. Frigorífico agora. O descanso debruçada sobre a mesa da cozinha. A escolha de um bom vinho. A felicidade, à primeira garfada, nos olhos das cobaias-amigas do costume...
Eu cozinho. Cada vez mais.

sábado, janeiro 13, 2007

A luta


Há um imenso rol de coisas que me preocupam. Uma elas são as causas perdidas, outra são as causas absurdas, outra ainda são as causas desconhecidas e por fim são as causas que só causam ódio e dor e não servem para absolutamente mais nada. E você luta pelo quê? Pagar dividas, livrar-se dele, trabalhar no que se gosta, trabalhar simplesmente, encontrar o medicamento para as cólicas do puto, passar à frente do camião na longa fila de trânsito, impor uma lógica de arrumação de arquivo, para apanhar o autocarro das 18.00h, por quilos a mais ou a menos, por carros, empregos, mulheres, filhos, casas melhores, por ser melhor. Há quem lute pela sobrevivência de espécies na floresta amazónica, há quem lute pelos “ismos” estruturais de organização de uma sociedade que tanto sangue já fizeram correr nos últimos dois séculos, há quem queira a independência de regiões que deveriam ser países, há quem queira proclamar como absolutamente certa a sua religião, há quem combata doenças que podiam dizimar a nossa espécie, há quem lute pela própria vida. Por isto, por tudo isto se luta.
Há quem coloque bombas e exploda outros e a si próprio, há quem denuncie, há quem mate quem diz amar, há quem pense, pense muito, há quem corra até a ansiedade não lhe caber mais no peito, há quem se venda e quem compre, há quem pegue em armas, há quem plante, há quem ore, há quem se promova, há quem derrube, há quem prenda e castigue, há quem ajude a resolver, a crescer, a alimentar, a atravessar. Há quem faça zapping no Mundo e escreva ou pinte ou filme.
Muitos errarão na sua causa, na sua luta, dando a outros novas causas para, contra eles, lutarem. Outros acertarão e conquistarão, depois de muita frustração, passo a passo, o seu lugar no meio de tudo isto. Porque há quem entenda que os meios não são só mais importantes que os fins como os determinam, transformam, solidificam. Por isso vamos todos sobrevivendo. E você luta pelo quê?

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Descoberta


Acabei de descobrir que tenho ainda prendas (adoro!) por receber no "Nuerte". Não sei o que é, mas se é deles vou adorar de certeza!
A foto obedece a 60% das regras da Criminalística. Não "tá" mal.

De regresso...


... a um (espero) melhor ano! E ao trabalho. E a um encontro no passado dia 3 com mais um ano. Adoro fazer anos, sinto-me no estrelato por um dia (vou escrever sobre isso um dia destes). O meu dia. Hoje, contudo, já não é o meu dia, é o dia do voo de regresso logo pela madrugada...

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Gula


A gula é o segundo ( às vezes o primeiro...) dos sete pecados mortais que nos dá mais prazer. Tanto, que tenho quase a certeza que será, um dia destes, abolido sem qualquer penitência.
Pequem para aí à vontade (suponho que esta festa religiosa serve para isso mesmo)!
"Bem comido, a minha alma de nada quer saber. E nem os maiores desgostos a conseguem comover ."
Molière, Jean

Dos meus amores VI


Como prenda de Natal para os que têm tido a paciência de me ler (uns desde sempre, outros nos últimos 6 meses) fica aqui o meu poeta português preferido e um poema, simples, que diz tudo o que é preciso.


O SORRISO


"Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."


Eugénio de Andrade

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Homens


Trabalho, na sua maioria, com homens. Há seis anos atrás tinha uma ideia pré-concebida que seria melhor assim. Hoje concluo que tanto faz, só varia o embrulho. Trabalho também com algumas mulheres num mundo de homens e aí sim, em alguns casos, é difícil... sobretudo para eles, se elas os estiverem a chefiar. Continuo a não entender a confusão entre o racional e o animal, entre o dever e o sexo, entre a lógica e a pura impulsividade. A luta entre o machismo e o feminismo descontextualizado histórica e/ou geograficamente.
Queimar soutiens (que ainda por cima estão caríssimos!), no caso delas, ou encenar grosseiros rituais de acasalamento, no caso deles, é sempre um espectáculo deprimente.
Hoje assisti de camarote a mais um episódio desta eterna guerra e tropecei , por acaso, nesta irónica frase.

Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador.

(Luís Fernando Veríssimo)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Dos meus amores V



Dos artistas que mais admiro. Porque prova que a beleza é de facto objectiva, intemporal e fanática de nada. Espero que tenham visto as suas esculturas no Terreiro do Paço há uns anos. Nunca aquela praça esteve tão linda, tão viva.

Vai um docinho (de Natal)?

A falível arte de contornar




Começamos numa rotunda não ajardinada. Contornamos devagar, com atenção para não errarmos na saída, para termos tempo de ler a placa que nos indica este caminho que ainda desconhecemos. Após uma breve recta uma e outra rotunda. Repetimos a operação. Interrogamo-nos do que é feito dos semáforos, dos polícias sinaleiros, da inteligência. Tontos saímos do carro. Avistamos ao longo alguém que nos pode estragar o dia. Voltamos e trancamo-nos no porta bagagens por dentro. Adivinhamos um dia, uma vida de manobras discretas. O telefone toca insistentemente. Não estamos habilitados para atender aquele número. Não queríamos conhecer aquele número. Avisamos que se aquele número ligar não estamos, acabámos de explodir mesmo agora, inadvertidamente. Deixamos de falar, de escrever, de amar. Deixamos de nos magoar. Ao almoço, ao jantar, ao lanche evitamos os hidratos de carbono e as gorduras. Afogamo-nos na água que bebemos, plantamos hortas na periferia do estômago. Corremos pelo menos 10 km algumas vezes por semana. Acabamos sempre por embater de frente naquela caixa de bombons. Recomeçamos numa rotunda.

terça-feira, dezembro 19, 2006

As mais ouvidas no Natal




  • Eu quero um i-pod, um telemóvel de última geração e uma máquina digital.
  • Jingle bells, jingle bells já não há papel...
  • Outra vez a “Música no Coração”?!
  • Eu quero! Eu quero! E lá na escola todos têm.
  • Portuguesas e portugueses: este ano que passou não foi fácil... blá, blá, blá, desejando-vos um santo Natal.
  • O nosso país não é laico?
  • Olha o colesterol! Depois eu é que te aturo o resto do ano.
  • Querido Pai Natal: este ano portei-me tão bem!
  • (Perante um presente bizarro) Para que serve isto?
  • Mais meias?!
  • Outra vez o “Sozinho em casa”?!
  • O (presente) dos nossos cunhados foi muito ranhoso, baratinho. O nosso foi muito melhor!
  • Troquei de carro. É fantástico, agora o teu cabe no porta bagagens do meu.
  • Ana, pára de meter o dedo na mousse de chocolate!
  • Já puseste o sapatinho na chaminé?
  • (desembrulhando o desejado presente) Tão lindooooo! Era mesmo o que eu queria!
  • Outra vez a treta do bacalhau?
  • Manel, onde puseste o Menino Jesus e os “mémés”?
  • Oh avô! Está a ressonar!
  • Outra vez o circo?! Odeio! Arghhhhh!!!
  • Os meus amigos vão morrer de inveja!
  • Podemos ir ver as luzes da rua?
  • Iupiiiiiiiiiiii!
  • Snoopy, pára de fazer xixi na árvore de natal!
  • Vá aguenta lá, está quase a acabar... e não bebas mais sim?

Acreditem que, apesar de tudo, adoro-o!

FELIZ NATAL!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Eu é que sou a Carol... lembram-se?


“Esta mulher chama-se Carolina Salgado. Viveu com os poderosos, conhece-os, aprendeu-lhes as manhas, joga o jogo deles. Há quem não queira ouvir a história. Percebe-se. É Natal(...).”


Depois de quase duas semanas de escândalo, depois de criação de comissões com pessoas, ainda credíveis, a liderar, depois até do inevitável sketch dos “Gato Fedorento” resta somente por dar a minha opinião... a quem interesse.
A Carolina que é “essa senhora”, “dona”, “dra”, “a futura esposa”, “a alternadeira”, “a putéfia” é, acreditem ou não, uma pessoa que se vende como muitas outras. Talvez tenha começado com o corpo mas rapidamente, e por mais uns trocaditos, lá se foi a alma para renovar o guarda roupa ou trocar de carro quando bem lhe apetecer. Agora pensem quantas pessoas conhecem que fazem exactamente o mesmo, na sua essência, mas disfarçam com outros nomes como amor, dever, sacrifício. Varia o preço. A subtileza. A classe social. E a inteligência.
Ontem passei na habitual livraria e dei por mim a folhear esta obra prima da mais recente moda da escrita em Portugal, iniciada por Carrilho: o queixinhasdadordecotovelovingativo. Procurei arrependimento e... nada. Ainda que o tivesse encontrado viria já um pouco tarde. Encontrei um livro mal escrito pela amiga letrada. Encontrei muito despeito. Encontrei a tão característica “chico-espertice”. Encontrei uma mulher que não se lembra a primeira vez que se vendeu, que hierarquiza muito bem os seus valores (porque os tem, mais de acordo com a economia de mercado, é certo, mas é nela que vivemos), que é marioneta e manipula ao mesmo tempo. Não encontrei dor. Essa já não existe. Talvez, a verdadeira, tenha sido também vendida. Agora todos se acotovelam para rotular, julgar e condenar. Esquecem-se que o mais importante não é, definitivamente, quem denuncia mas quem faz. Não é quem vende mas quem compra. São estes que mandam. Que têm o poder. Que têm más companhias. Que dão puns malcheirosos e têm pêlos nas orelhas também, pronto. Por isso quase acreditamos que, por momentos, até poderiam ser humanos.

domingo, dezembro 17, 2006

Desabafo



Há quatro dias que esta tempestade, do tipo atlântico norte (leia-se: chuva imparável e vento forte), estacionou por aqui .
Há um sinal de alerta na minha secretária para um jantar de Natal que envolve cadeias hierárquicas, sorrisos amarelos e conversas de circunstância sem nexo.
Há um (este) fim de semana (loooongo) em que trabalho.
Há papéis de bombons abandonados nos bolsos da gabardine.
Há ainda que contar cinco dias, inteirinhos, para voar.

Acho que está na hora de procurar a saída de emergência desta ilha!

sábado, dezembro 16, 2006

Um poema comprimido


Indicações: dores agudas nas articulações da alma.
Posologia: 1 a cada hora. Deve ser acompanhado com uma ideia positiva e uma recordação carinhosa.
Sem contra indicações quando tomado correctamente.

adopt your own virtual pet!

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Dos meus amores IV



A personagem desta ilustração meio infantil (e linda) sou eu (embora o meu cabelo seja só um bocadinho mais claro) tal e qual. Há pessoas talentosas (as quais recomendo vivamente) que do nada criam tudo. Acabou de chegar. Obrigada! Vai directa para o meu quartinho novo!

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Citação natalícia



"Nunca desistas de um sonho. Se não houver numa pastelaria vai a outra."

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Dos meus amores III


Em 2001 escrevi isto numa revista virtual com a qual colaborava. Mantém-se tudo. Mesmo quem não gosta de poesia não lhe consegue resistir. A mim faz-me feliz, pronto!

"As suas páginas são muito mais que um somatório de poemas, são uma verdadeira antologia de um dos nossos maiores poetas contemporâneos. Jorge de Sousa Braga escreve sem ninguém dar por ele, brinca assim com as palavras, molda o quotidiano ao coração e o coração à poesia. Usa verbos simples para descrever como se comportam os sentimentos irrequietos, para nos explicar o nascimento ininterrupto das ideias a cada verso."

Fica um dos meus preferidos.

ADORMECER DO LADO DA PRIMAVERA

Adormecer num colchão de molas do lado da primavera e acordar do lado do verão
Atirar-se da janela de um quinquagésimo andare aterrar intacto na folha de um nenúfar
Passar a cem à hora todos os sinais vermelhose estacar repentinamente no primeiro sinal verde
Engolir um Mirage e vomitar de seguida dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea,uma galinha-da índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar "mãos no ar"antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há quinhentos anos no fundo dos teus olhos e conseguir trazer para a superfície duas estátuas de Buda além de uma tonelada de pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade de dez milhões de habitantes e exprimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um limoeiro na secção das vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz

JORGE DE SOUSA BRAGA

quarta-feira, novembro 29, 2006

Outra vez o desafio...



Breve introdução: a sorte de quem me(http://raispartamisto.blogspot.com/) anda a lançar estes desafios é que ando com uma imensa pachorra para aturá-los (os desafios). Depois hoje, que estou de véspera de "escapadinha" versão voadora, estou com bom humor e com muito tempo. Cá vai então, é tudo verdade.

1 - ALTURA:
A perfeita... em bico de pés.
2 - QUE SAPATOS ESTÁS A USAR?
Botas pretas de cano alto, sóbrias... bonitas. Adoro sapatos.
3 - MEDO?
De não conseguir amar como deve de ser. De morrer antes de fazer tudo. De estar a mais de 1m do solo.
4 - OBJECTIVOS A ALCANÇAR:
Perceber que tropeço e posso fazer tropeçar os outros em pequenos momentos quotidianos que nos fazem felizes. Se cairmos... não faz mal.
5 - FRASE QUE MAIS USAS NO MESSENGER?
Olá! Tenho saudades.
6 - MELHOR PARTE DO CORPO?
Hummm... difícil escolher. Cá dentro, canto superior direito e esquerdo. Sem dúvida.
7 - PALAVRÕES?
Descobri que dizer porra, aqui nas ilhas, é um imenso palavrão. Porra!!!!
8 - LADO DA CAMA?
Ao centro agarrada à almofada fofa (independentemente da quantidade de pessoas que lá estiverem).
9 - TOMAS BANHO TODOS OS DIAS?
Tem de ser... a bem da minha aceitação social. Por vezes também em perfume DKNY... distraio-me.
10 - GOSTAS DE TOALHAS QUENTES?
Who cares? Gosto de toalhas fofas, limpas e bonitas.
11 - URSINHOS DE PELÚCIA?
Não. Nada de pelucia. Nunca.
12 - ACREDITAS EM TI MESMO?
Por vezes passo-me o conto do vigário. Mas, no geral, a fé vai salvando.
13 - DÁS-TE BEM COM OS TEUS PAIS?
São uns “velhos dos Marretas” muito queridos.
14 - GOSTAS DE TEMPESTADES?
Em casa, com uma manta, um livro e uma lareira imaginária. Cortinas abertas, muita chuva, relâmpagos a iluminarem.
15 - DESPORTO?
Nadar, mesmo fora de água e corrida... não sei se fujo ou se persigo mas isso é para a pergunta das doenças psiquiátricas... se a houver.
16 - PASSATEMPOS E HOBBIES?
Ler, contar os dias, escrever, decorar o vermelho das papoilas, reconstruir, restaurar, decorar o azul do céu.
17 - FOBIAS E MANIAS?
Depois de umas aulas com uns psiquiatras descobri que não tenho fobias, só medos (remissão para 3). Manias são as cinco e umas quantas outras (in)suportáveis.
18 - QUANTAS VEZES O TEU NOME JÁ APARECEU NOS JORNAIS?
Nenhuma vez na necrologia, muitas vezes num virtual onde escrevia sobre livros, umas vezes no Diário da República II série, uma vez numa revista feminina, uma vez numa lista de premiados, talvez... sei lá. Já apareci no Jonal das 20 quando tinha uns oito anos e vibrava com o dia do pai.
19 - CICATRIZES NO CORPO?
Um “sorrisinho” no lugar da apêndice.
20 - DE QUE TE ARREPENDES DE TER FEITO?
Arrependo-me todas as vezes que sou idiota.
21 - COR FAVORITA?
Ex equo (e não combinam) : preto e azul.
22 - UM LUGAR ONDE NUNCA ESTIVESTES E GOSTAVAS DE IR?
Itália... é estúpido mas não calhou. Buenos Aires, Moçambique, S. Petesburgo, Suécia, S. Francisco, Tirol, Pequim, Nova Zelândia, Polinésia Francesa, Japão.
23 - MANHÃS OU NOITES?
Tardes (lá mais para o fim).
24 - O QUE TENS NOS BOLSOS?
Vazios, (quase) sempre. Por vezes papéis com ideias por acabar. Não é o caso hoje.
25 - QUE FARIAS SE FOSSES PRIMEIRO-MINISTRO?
Acabava com o partido que me tinha lá colocado, demitia personagens decisivas para este caos e a seguir demitia-me. Gostava mais de ser Presidente da Republica.
26 - SE GANHASSES O EUROMILHÕES QUE FARIAS AO DINHEIRO?
Gastava.
27 - SE TE CAÍSSE NAS MÃOS A LÂMPADA DE ALADINO O QUE FARIAS? QUE DESEJOS PEDIRIAS?
Hã????!!!! Acho um bocado estúpido estar seriamente a esfregar uma lanterna rudimentar à espera que saia de lá um génio em estado gasoso que pudesse fazer alguma coisa de jeito por mim ou pela humanidade.
28 - SE O MUNDO ACABASSE HOJE ÀS 23h59m QUE FARIAS ATÉ LÁ?
Ficava a decidir, baralhada, até lá quais as minhas prioridades.
29 - SE TIVESSES UM FILHO SEM SABER COMO, SEM RAZÃO NENHUMA, QUE FARIAS?Tendo em conta que a gaja sou eu é dificil... até porque que me lembre ainda não engravidei ninguém, pratico sexo altamente seguro.

terça-feira, novembro 28, 2006

A moral da estória


Olho em redor e começo a dar total credibilidade a quem se debruçou sobre a problemática, nada inofensiva, da determinante influência dos contos infantis na estrutura da nossa personalidade.
Vejo muita gente adormecida à espera do beijo de amor de um príncipe que anda algures num engarrafamento interminável e que, por isso, tarda em chegar. Vejo príncipes desencantados a experimentar o sapato vezes sem conta em pés claramente deformados. Vejo pequenas sereias a sufocar com o coração fora de água, lobos maus que fazem um-dó-li-tá entre as suas possíveis vitimas.
Basta!
Acho que devo indagar da disponibilidade dos anões para ajudarem. Certifico-me da maldade das irmãs-madrastas-amigas e denuncio-as às autoridades. Chamo 112 a tempo de salvar a mãe do Bambi. Escrevo um e-mail a um reality show de decoração para fazer uma surpresa aos três porquinhos. Compro um gps ao Hansel e à Gretel. Convenço a Bruxa Má a fazer psicanálise para deixar de falar com espelhos de uma vez por todas. Dou ao Capuchinho Vermelho o chamado “banho de loja”. Obrigo os Lobos Maus, em alcateia, a assistirem vezes sem fim ao “Natal dos Hospitais”. Por fim descubro, por minha conta, que não vale mesmo a pena beijar o sapo. Respiro fundo e reescrevo finalmente toda a moral da estória.

sábado, novembro 25, 2006

Dos meus amores II



Ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias, ler, reler, leitura, livros, livrarias.

Muito, pouco, nada


Dou por mim sempre à procura de palavras, sempre a tentar descobrir novas palavras, sempre a tentar desenhá-las pela primeira vez no início do poema, palavras que digam o que sinto, o que gostava de sentir, o que não gostava de sentir... Procuro-me nessas palavras . Descobri também, nessa busca, que há muitos livros infantis que dizem tudo o que preciso saber sobre tudo, nos quais encontro as palavras certas, novas a cada frase simples. Mesmo à minha frente estava “O Principezinho” do Saint-Exupéry desde sempre. Li e gostei. Reli e gostei mais ou menos. Insisti recentemente e finalmente descobri as palavras. São pequeninas, discretas aquelas palavras, estão lá neste livro (muito, pouco, nada) infantil. Senão vejam:

"[...] se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais."

quinta-feira, novembro 23, 2006

Anti-stress

No top 10 das minhas manias.
Para relaxar (com som).
Comigo resulta!
http://bluestrattos.planetaclix.pt/bubblewrap.swf

Dos meus amores I



Helena Almeida. A minha artista preferida. Tropecei nela há muitos anos numa Bienal de Cerveira . Estava ainda em plena adolescência, não o suficiente para deixar de reparar nela. Vou ver todas as suas exposições. Se fosse artista plástica talvez fizesse algo parecido. Levei-a para a casa nova, lá mora na entrada. Adoro-a. Pronto.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pai


Tenho quase a certeza que o meu pai me mente quando diz que é meu pai. Descobri essa quase verdade quando, depois de dizer as primeiras duas sílabas de quase todas as palavras, caminhei pela primera vez, não sobre as águas, mas sobre a alcatifa verde, que forrava o imenso corredor, que me conduzia sempre ao quarto deles. A porta estava fechada mas a ânsia de lhe mostrar que era assim uma pequena deusa que andava venceu todas as portas e paredes que poderiam estar à minha frente. A dura realidade revelou-se e eu guardei a experiência traumatizante de sentir crescer na minha testa um galo enorme enquanto o meu pai se ria perdidamente! No meu imbérbe, mas sério, conceito de familia sabia que um pai não se deve rir de um filho numa situação daquelas. Depois surgiram os biberons de leite com chocolate dos quais não conseguia abdicar e que ele insistia em não os acertar na minha boca. Um pai deve saber dar comida a um filho. Depois seguiu-se ainda o silêncio, os seus desenhos irritantemente precisos espalhados por toda a casa, as matinés de sábado a darmos sentido a peças de lego ou a construirmos puzzle, a música que não entendia e o riso, sempre o riso.
Agora também gosto de fazer puzzle e legos e rio muito dos seu óculos em meia-lua tantas vezes esquecidos dentro do lavatório. Rio porque o meu conceito maduro, e sério, de familia contém os defeitos com o riso infindável de nós. Às vezes desconfio que ele é meu pai porque os seus olhos são atraiçoados por aquele sorriso carinhoso, porque me lembro das histórias que me lia, sempre as mesmas, pela noite, e das sombras que desenhava com as mãos naquela parede enorme e, nessas alturas, as gravuras passeavam descaradamente pela sala e os animais na parede relinchavam, cacarejavam, miavam ou ladravam numa algazarra infernal. Só nós os dois viamos e ouviamos…No outro dia surpreendi-o, no meu antigo quarto, a falar com seriedade para um pinóquio de madeira ignorado há anos. Talvez ele seja mesmo meu pai...

terça-feira, novembro 21, 2006

Sou fã


Como diria o Scolari (que é de momento o guru da sociedade portuguesa e daí esta compulsiva necessidade de o citar) eu sou fã da época natalícia. Não porque tenha filhos, não porque tenha uma família numerosa, não porque tenha uma lareira em casa (com o aquecimento global teria sido um mau investimento), não porque o meu subsídio de natal seja especialmente milionário. Não, nada disso. Gosto e pronto. Desde que me lembro. Comia os chocolates da Regina pendurados na árvore de Natal (“O coelhinho foi com o Pai Natal e com o palhaço no comboio ao circo”), brincava com as personagens do presépio de barro, quase que via o Pai Natal a fugir da chaminé lá de casa depois de ter depositado as minhas tão merecidas prendas (acreditei na existência do senhor até aos seis anos, era muito tansinha) sentia o cheiro (o meu sentido preferido e, para o bem e para o mal, o mais usado) a Natal desde o final de Novembro. O Natal comove-me. Nem tanto pelos bons sentimentos invocados (que tantas vezes não chegam a aparecer), nem pela beleza das ruas de Lisboa, nem pelas prendas desejadas ou pelo reencontro com alguns que não vejo durante todo o ano. Comove-me irracionalmente. Gosto e pronto. Mas apesar disto, agora sou oficialmente uma pessoa crescida (dizem) e devo dizer-vos a verdade: o Natal é uma época absolutamente caótica na qual as regras de convivência social mais elementares são infringidas. A começar desde logo pelo Pai Natal: além de introdução constante em propriedade alheia (prática reiterada) infringe as regras simultaneamente da boa educação (em muitas casas nem sequer é convidado e aparece a horas pouco próprias) e as de uma sociedade justa dando mais aos mais ricos e menos aos mais pobres, safando-o, deste último ponto de vista, a cor do fardamento que, embora tenha origem no capitalismo americano, é factor parcialmente atenuante. Na minha opinião, sendo absolutamente fã (lá está o Scolari) da discrição, prefiro o azulinho da Nivea. Mas gostos...
Depois as pessoas no geral enlouquecem: compram o que não podem, provam aos outros o que não devem, conduzem depressa de mais, alucinam literalmente sem recorrerem a qualquer substancia psicotrópica ( o que, convenhamos, dá para poupar uns trocos).
Depois a família: perguntas constantes do tipo “já compraste a prenda para o teu primo Miguel?” exasperam. Não vejo o primo Miguel vai, por coincidência, fazer um ano, nem sei bem o que ele faz, não sei o que gosta e ainda bem. Se um desconhecido lhe oferecer prendas, isso não é a marca do desodorizante, acho que deve ser Natal.
Depois a televisão: desde o bébé que faz xixi e cócó quase real, até ao arsenal militar de plástico os anúncios de brinquedos vão do absolutamente kitch ao deprimente. Depois, há, claro, o “Natal dos Hospitais”, para o qual não tenho palavras, que já tem anexos como “As mais belas canções de natal” e etc. Os filmes vão algures parar à “Música no Coração”, ao inglês “Espirito de Natal” ou ao “Sozinho em casa parte XII" em que o puto já não é puto e fica todo contente quando se esquecem dele, assim pode ir “mandar uns riscos” na sala à vontade.
Depois a comunicação virtual: durante ano ficas desempregado, divorcias-te e queres cortar os pulsos, és internado, para a necessária lobotomia, ou simplesmente declaras publicamente a tua insanidade. Ninguém quer saber. A quinze dias do Natal entopem o e-mail e o telemóvel de mensagens mais ou menos pirosas de origem duvidosa, desejam-te paz, saúde, felicidade e principalmente muitas prendinhas. Ainda há aquelas mensagens altruístas que falam nos pobrezinhos e nos desamparados deste mundo. É a declaração universal de incoerência.
No meio desta insanidade sazonal ainda me julgo a salvo. Dou prendas modestas e escrevo postais da Unicef a quem amo, evito a televisão, enfeito a casa alegremente, apago as mensagens virtuais sem ler, proíbo-me de entrar em lojas após 20 de Dezembro, tento, enfim, não provar nada a ninguém, esforço-me para que ninguém me prove nada a mim. Deve ser por isso que ainda sou fã (como o Scolari, certamente) e sobrevivo à época natalícia.

...com os pés de fora


"Sorria assim que acordar. Livre-se logo dessa obrigação."
W.C. Fields

quarta-feira, novembro 15, 2006

As cinco manias


Após o desafio lançado pelo http://raispartamisto.blogspot.com/ (leiam que o rapaz até é engraçado e tudo!) ,cá vão as minhas cinco manias para quem demonstrar interesse (relatáveis,claro! As não relatáveis, pensando bem, se calhar não são manias...) :


1- Quando passeio na rua de noite gosto de espreitar pelas janelas sem cortinas e ver como é a casa daqueles anónimos todos . O meu lado voyerista esgota-se aqui por completo.
½ - Adoro a ordem, as cores que conjugam, a harmonia. Camisolas arrumadas por cores e formato (gola alta para um lado, meia manga para outro). É o meu lado nórdico. Não vale como mania porque acho que é feitío. Não vale como mania porque às vezes, como não tenho pachorra, arrumo como calha.
2- Comer gelado de gianduja numa gelataria da Av. de Roma (quase) sempre que lá passo. É sublime. Faz-me muito feliz. Mesmo. Arrependo-me sempre no primeiro quarto de hora no jogging, quando me dão aquelas “dorzinhas” musculares...
3- Dar prendas. Bem embrulhadas. Adoro dar. Se tivesse mesmo MUITO dinheiro perdia-me. Como não tenho, dou presentes mais criativos. Depois, claro que adoro receber os sorrisos.
4- Quando vou à casa de banho fazer xixi abrir sempre a torneira da água. É pouco ecológico, bem sei, mas descontrai.
5- Beber água pela garrafa ou pela torneira sempre que as boas maneiras permitem. Tenho, desde pequenina, a certeza que a água sabe assim melhor.


Acabo de reler o texto e descobrir que me esqueci de uma mania, que considero um dom porque faço muito bem: dispensar aquele aparelhómetro estúpido do “saca agrafes” e tirá-los sempre com os dedos. Mas como dom acho que não dá para pôr no currículo.
Quanto a lançar o desafio: não lanço. Se quiserem fazê-lo avisem-me para dar uma espreitadela! (Com esta descobri que se calhar menti em 1!...)

segunda-feira, novembro 06, 2006

Pois é.


Bem, nem sei o que escrever, e tudo o mais. No outro dia a miúda ( vejo-a sempre como uma miúda mas já está bem crescidinha, pronto) disse-me: “Oh Tia! A Tia tem opiniões que tanto admiro sobre tanta coisa porque é que não escreve qualquer coisa sobre um assunto sério para eu pôr no meu blog?”. Não sabia de todo que era minha fã, julguei que nem sequer me ouvia muitas vezes! Claro que disse que sim e tudo mais. Mas assunto sério? Bem lembrava-me de uma carrada deles, desde o pedido de aumento de salário das três criadas lá da quinta passando pela festa de beneficência da Tia Talita Vaz e Castro nos jardins da sua casa de família. “Oh Tia não é nada disso!”- disse. “Queria que escrevesse sobre um assunto actual, por exemplo o aborto, pode ser?” Eu disse logo que podia ser e tudo o mais mas não achava nada que o aborto fosse um assunto sério (já o referendaram e tudo!) e assim e muito menos actual. Além de que pensei logo que as pessoas que lêem o blog dela iam ficar logo maçadas quando percebessem qual era o assunto. Mas, vá, sacudi as madeixas da Marina Cruz e disse-lhe que estava bem e tudo o mais. Sou mesmo tola! Onde vou arranjar tempo para escrever sobre isto, agora com o feriado dos finados, a missa extra, a visita ao jazigo de família, as compras para o início de estação, o regresso do Tio a casa por dois dias (coitado ele trabalha imenso para dar conta da fortuna e passa pouquíssimo tempo lá em casa!)? As criadas, que são preguiçosas, já se sabe, ajudam e assim para eu me sentar a pensar neste assunto. Depois tenho de me adaptar de novo ao portátil que tem imensos botões completamente idiotas e tudo. Pela família devemos fazer todos os sacrifícios, lá diz o Senhor Cónego que, recebemos cá em casa para uns almoços muito simpáticos em que ele bebe bastante mais que come mas também já deve estar habituado, são ossos do ofício pobrezinho, e Deus perdoa-lhe de certeza. Ah! Pois o aborto. Claro que sou contra, no referendo fui daquele movimento (Movimento de Defesa da Vida )que tinham uns cartazes amorosos que diziam qualquer coisa do tipo “Não matem o Zézinho” e mais não sei o quê. Achei um bocadinho pepineira aquele nome se ainda fosse “Não Matem o Francisco, o Bernardo, o Dinis, o José Maria” pronto tudo bem! Zézinho achei de povanga mas percebi depois que a campanha era sobretudo para eles que, tinha-me esquecido, também agora votam e tudo mais. Bom, mas dizia, sou contra. Precisamente porque sou mãe, esposa devota e católica praticante, também devota. Acho que o casamento é, como a religião, uma questão de fé. E isso dos que não sabem escolherem acho mal. Pessoas como nós que sabemos, com classe, com berço têm de agarrar na moral e conduzi-la no caminho certo tipo bola do Pilates e assim, estão a ver?. Conheço alguns pobrezinhos que fizeram e algumas amicíssimas minhas, educadíssimas e cheias de fé também que tiveram os seus problemas, não económicos claro, acho que todos de saúde, coitadas, e lá tiveram de fazer sem (quase) ninguém saber. Havia algumas que até aproveitavam para ir à chiquíssima Calle Velasquéz fazer umas comprinhas e ver pelas redondezas uns museus para acabar com o trauma logo ali. Olhe mas, como dizia a mãezinha, são factos da vida, como mulheres temos de os aceitar. Claro que, como na sociedade não se sabe oficialmente, posso continuar a amizade de anos e irmos às compras, a festas, jogar bridge às quintas à tarde e tudo o mais. Ninguém nota nada! Quanto ao aborto dos pobrezinhos não acho bem porque aqueles sítios devem ser malcheirosos, baratinhos e toda a gente lá nos seus bairros sociais deve ficar a saber que o fizeram. Além de que mais um filho não faria mal de certeza porque está dificílimo encontrar criadas, jardineiros e motoristas e assim. Queria também ainda dizer de novo que sou contra e que por acaso até nem tenho filhas nem nada: o Manuel Maria nunca teve namorada, é catolicíssimo e como percebe imenso de moda, decoração e é um excelente chef diz que não precisa de mulheres para nada, o António já é mais parecido com o pai, vai menos à missa, tem imensas namoradas, de certeza, mas ensinei-lhe a ser discreto e nunca me contar qualquer problema socialmente menos aceitável que possa acontecer. Já disse que sou contra não é? Pois é.

sábado, novembro 04, 2006

Reencontro


Fechei os olhos por uns momentos. Estava cansada. Não podia mais. Quando os abri já lá não estavas. Entrei em pânico. Nunca tinha entrado em pânico. Procurei-te por todo o lado. Dentro da caixa de madeira, no canto inferior direito e esquerdo da foto natalícia, no nó do cinto do casaco que me tinhas dado. Nada. Nada de ti. Fechei os olhos de novo. Não podia mais, repara. Doíam de tanto fixarem a tua imagem para o caso a voltassem a encontrar não houvesse erro. Desta vez resolvi continuar com eles fechados. Seguir com rapidez um caminho qualquer, ao calhas, como não devia ser meu hábito. Encontrar e perder outros. Encontros e perdas sem significado. De olhos totalmente fechados. Felizmente. Dava por mim feliz, deitada na relva, com a certeza de que o sol ainda assim me aquecia. Passaram-se dias, horas, anos numa confusão entrecortada com sons novos, muitos sons novos. Não parece nada mas lembro-me muito bem de todos aqueles sons novos. Não deves acreditar porque achas que sou mais distraída que o humanamente permissível. Mas acredita. Via-me dentro do romance do Saramago, que odeio, em que todos são cegos mas vêem mais. Imagem bizarra. Desisti, sem querer, de te procurar. Estava ali no meio daquele romance tolo a caminhar aos saltinhos como as crianças da primária. Que querias que fizesse mais? Um dia acordei com o teu cheiro em cima da mesa. Reconheci de imediato. Sucederam-se assim outros dias, horas, anos que passaram sem qualquer intenção de contabilização. Retomei a busca. Devagar. Sem expectativas. Completamente por minha conta. Entretanto perdi uns bilhetes já usados, enrolei uns novelos coloridos, e, nesta coisa de seguir um caminho qualquer, completamente ao calhas, tive mais cuidado. Acho que tive mais cuidado mas outra vez sem querer. Não estava sol naquele dia em que abri os olhos. Não era um dia bonito nem nada que se parecesse. E eu estava ali no sofá a sonhar que via alguma coisa na televisão. Refugio confortável no ócio. Distrai-me e abri os olhos, pronto. Não tenho explicação para muita coisa, bem sabes. Deixei de a buscar. A explicação. O que é mais estranho é que a tua foto estava desde sempre no écran do meu telemóvel e, ao que parece, tinhas acabado de sair para ir buscar um petisco para o jantar. Sorris, pois é. Não tenho nenhuma vergonha de te contar isto. Mesmo agora aqui enroscada no teu colo. Quanto ao resto, não ligues, já disse que não tenho explicação para muita coisa. Deixei de a buscar. A explicação.

quinta-feira, novembro 02, 2006

A minha música preferida...

... de sempre: Chico Buarque a cantar "João e Maria". Não resisti partilhar.

Agradável surpresa


Algures neste mês calmo de Outubro fui arrastada para o cinema para assistir a um filme com um título mais ou menos estúpido "Família à beira de um ataque de nervos". Sem ter lido nada de concreto na imprensa pareceu-me que podia ir de um filme cómico série Z até a um drama familiar de cortar os pulsos se vissem a coisa à letra. Nada disso. Ou melhor tudo disso. Ou melhor ainda tudo disso e de mais alguma coisa. Poético. Leve. Muito carinhoso. Critico. Muito também. Cómico. Triste. Hilariante. Belo casting com especial particularidade para a Olive que me é muito familiar. Gravaram-me a banda sonora (Viva!!) que é adorável e que oiço compulsivamente. Procurem-na no site oficial do filme que afinal se chama "Little Miss Sunshine" ou em http://www.devotchka.net/cms/?q. E não o percam...mesmo.