quando for grandequando for grande
quero uma mão
que tenha a forma
do coração.
quando for grande
quero uma ponte
que chegue à linha
do horizonte.
quando for grande
quero um olhar
que chegue ao fundo
de céu e mar.
josé fanha
Imagine que é eleito democraticamente deputado para o Parlamento Europeu. Voa para Bruxelas e vai comer nos melhores restaurantes, passar os fins de tarde nas melhores lojas e voar, nos tempos livres, para os melhores destinos. Claro que, no meio de tudo isto, tem tempo para cumprir o seu dever, propor umas coisas, contestar outras, indignar-se frequentemente. Agora imagine um deputado que talvez até faça tudo isto com um bocadinho menos de frequência, mas que põe, todos os meses, 1500€ de lado para atribuir bolsas a projectos de investigação. Imagine se todos os deputados fizessem algo semelhante, se todos se indignassem um bocadinho menos e praticassem um bocadinho mais... imagine.
Ontem, descansando um pouco nesta época em que sinto que não tenho mesmo mãos a medir, fiz um zapping mais demorado por quase todos os canais. Parei numa entrevista com a Ingrid Betancourt que contava, em versão compacta e retocada, a sua experiência de prisioneira na selva, sob o gume das FARC. Ela chegou a um desespero tal que se perguntou afinal que pessoa queria ser. Definiu-a, sem grandes ambições, e transformou-se nessa mesma pessoa que sempre estivera ali dentro, sobreviveu-se. Esqueçamos assim os modelos, as pressões sociais, os equívocos. Devemos ser quem queremos, deixar que essa ambição se torne rotina, que essa rotina, por fim, seja cada um de nós.
Ontem fiquei sentada no sofá, palavras em directo atrás de palavras em directo, cores que se diluem, pessoas eufóricas e adormecidas, ecos que soam melhor que os discursos.
...a
A triste história de quem opta entre dividir um prémio e dividir uma vida. Suponho que a opção final é baseada na promessa de juros mais elevados a curto prazo. Ninguém ponderou o investimento de risco elevado na mágoa.
Escutem - não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras.
Finalmente percebi o sucesso "socrático" no nosso país. Tal como os italianos, que caricaturam Berlusconi mas no fundo morrem de inveja dele, deificando-o porque é rico e tem uma vida cansativa de "bunga bunga". Tal como os italianos, dizia, nós, os portugueses, olhamos para a vida de um tipo que vem de uma Câmara da Beira Alta onde avalizou construções improváveis, um tipo que se licencia numa universidade série Z a um domingo, que domina na perfeição de "Camarinha" o inglês técnico, que gasta metade do ordenado num fato Armani, que tem um apartamento num prémio Valmor ao preço da chuva, que manipula os Media na perfeição, que quando fica feliz diz "porreiro, pá", que abandona elementos da sua equipa quando já não lhe são úteis, olhamos para este tipo, recordando a escada rolante de esperteza para o sucesso, e sentimos uma vontade incontrolável de colocar uma cruz no sítio errado no boletim de voto.
A entrevista da "Única" do Expresso desta semana com Alain de Botton, o homem que vê os aeroportos com os meus olhos, que se revitaliza sem psicanálise, partindo dos dias que todos atravessamos para dar consistência e profundidade ao pensamento.
O que acontece quando se juntam uma das nossas melhores actrizes -Maria João Luis - , uma das nossas melhores cantoras - Manuela Azevedo -, um dos nossos melhores músicos - José Peixoto - e um dos nossos melhores poetas - João Monge? Ontem, na estreia, satisfiz esta minha curiosidade: um dos nossos melhores espectáculos.
Na mala, para cá e para lá, "Menos por Menos" e "Tradutor de Chuvas", os mais recentes livros de poesia, respectivamente, do Pedro Mexia e do Mia Couto. Deixo-vos o meu poema preferido deste último.
Ruy Belo
Quis partilhar a crónica do Professor Boaventura Sousa Santos que sairá amanhã na revista Visão. Temos mesmo de (reaprender a) pensar o país.
Impedia-te a vida, uma mulher, três filhos, um oceano, uma carreira de sucesso. Impedias-te, a tua educação vagamente católica, o olhar de reprovação da tua mãe, o medo de falhar, as saudades da vista para o mar do teu apartamento luminoso. O jogo não era bom mas no bluff és mestre. Viraste todos os impedimentos, saltaste no vazio, no silêncio da queda ouvias, pela primeira vez, o bater do coração. Acordaste sereno, sorrindo, invadido pelo cheiro provocante do pequeno almoço que te preparava. Adormeceste de novo, profundamente. Despertaste ao som de uma disputa entre os teus filhos. A tua mulher, maçada, saíra para caminhar com as amigas do condomínio. Na tua cabeça ainda e sempre o sonho ancorado em impedimentos. O teu peito permanecia silencioso. Era um domingo igual a todos, era um domingo igual a ti.
Ando triste com o meu país. Pelo meu país. Só sabemos sonhar, escrever sonetos e fixar fronteiras. Lidamos mal com o dinheiro, com a vida farta, somos grandes e pequenos ao mesmo tempo, somos canastrões, achamos no queixume cura, tropeçamos na felicidade e caimos. Vivemos para parecer, esquecemo-nos de quem somos quase todos os dias. Unimo-nos pelo futebol, por Timor, lá longe, e pela falta de dinheiro, pelo esvaziamento das expectativas. Ou não votamos ou somos pouco criativos no voto. Toda a gente leu o Ensaio sobre a Cegueira mas esqueceram o melhor, o Ensaio sobre a Lucidez. Não somos criativos nas alternativas, estudamos para enriquecer, desdenhamos o saber perante o atalho da esperteza. Julgam-nos pelos políticos que temos e muito bem. Eles acham-nos tolos, discursam para avestruzes, lutam pelo poder que já os corrompeu, deixam que o mundo inteiro nos invada de especulações, arrasando, ainda que por momentos, o que de mais precioso temos: os nossos sonhos, os nossos sonetos, as nossas fronteiras.
Pela manhã ouvia um relato-síntese dos jornais alemães de hoje acerca da situação do nosso país. Apontavam a falta de formação/escolaridade dos portugueses (a começar pela do primeiro Ministro, acrescento) como principal razão para fraca capacidade concorrencial, espantavam-se como Portugal, após 25 anos de UE, ainda não conseguira solidificar a sua economia.

ando a sonhar mais do que o habitual. Agora também com o próximo destino de férias.

Ontem voltei ao teatro D.Maria II para ver o Azul Longe nas Colinas. Já conhecia o autor do texto,D. Potter (penso que não aparentado com o H.Potter, embora saiba também fazer magia com as palavras), mas confesso que fiquei surpreendida pela simplicidade, pela interpretação, pela encenação. No caminho para casa, cansada mas reconfortada, fui pensando no momento em que perdi a minha ingenuidade (não o consegui localizar... assustador) e nos dias da minha vida que vão correndo, recheados de momentos não muito diferentes do recreio do colégio que frequentei na primeira classe: as Anas (Sofia e Rita) nunca me queriam emprestar as bonecas loiras e sorridentes e os mil acessórios só porque eu era a melhor aluna da turma e jogava, na perfeição, ao berlinde com o André Pina.
Ontem, de novo, televisão. Na SiC via o especial sobre a Geração à Rasca. A minha, denominada carinhosamente Rasca, ficou atenta. Nada a criticar no todo, embora a publicidade ao Instituto Superior Técnico em Lisboa fosse um tudo nada exacerbada dada a importância do assunto analisado. Contudo, fiquei boquiaberta quando uma jovem de Vila Real, nos seus 20 e poucos anos, cortava frango ferozmente na cozinha de sua mãe e vociferava contra a falta de emprego desde o momento que acabou o seu curso de Tecnologias da Comunicação, em Outubro passado: “Andamos nós a matar a cabeça durante três anos para depois não termos oportunidades”. A angústia que causa a incerteza é tramada, todos sabemos ciclicamente disso. Mas, jovemàrasca, não digas assim, cheia de raiva, que mataste neurónios durante aqueles poucos anos (ai Bolonha, bela cidade!) a aprenderes coisas eventualmente relacionadas com tecnologia. Matar seria não teres tido a oportunidade de estudar e quereres muito fazê-lo, matar é repetir sem pensar frases de senso comum, matar é cortares o frango com toda a tua ira, matar é a decoração da cozinha da tua mãe (já agora). *

A porta fechou-se logo atrás de ti. Eu fiquei de janelas trancadas e tapete desalinhado por teres arrastado desastradamente a mala. Não era por aqui que queria começar, embora possa ser o melhor dos começos. Queria escrever sobre portas, trancadas, abertas, perras, escancaradas, arrombadas e sobre malas que se arrastam na ligeireza dos caminhos que percorremos. Entramos e saímos sempre pela porta e com coisas, por vezes tantas, atrás, aos ombros, ao colo. Depois de pensar nisto passei a escolher janelas que me deixam entrar de mãos vazias. Sentada no parapeito ensolarado consigo abraçar-nos sem preocupações, com vista desafogada para amanhã. Nunca mais vi um tapete desalinhado.
"Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas.
Os bancos são vermelhos, enormes, quatro, logo à entrada. Entendemos todos que deve ser assim. Por isso ninguém arranca a sinalética ou rasga os estofos. Contudo parte de nós, cansados da vida, dos outros e sobretudo dos que já viveram muito, dos que vivem mal ou dos que são, por nove meses, dois em um, aproveitam a cómoda oportunidade transformando aqueles bancos, enormes, numa passadeira vermelha para que desfilem, entre paragens urbanas, todo o seu egoísmo.
tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com a felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo.