segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Quando se tenta apurar o estado psiquiátrico...


... da Dama de Ferro, ela surpreende-nos com uma lucidez incontestável.


Um filme surpreendente, o melhor papel de sempre da minha actriz preferida, uma história com a qual cresci contada pela memória selectiva de uma mulher, talvez agora, tão fácil de entender.

A solução



Manter sempre as portas (entre)abertas, presas pelos pensamentos que nos moldam, pela capacidade de amar que nos vai definindo. À cautela devemos deixar cá dentro somente o inquebrável e, já agora, usar um cachecol bem quentinho para evitar constipações.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

era uma vez...


... uma gordinha melancólica e divertida, anti star system,que é aplaudida pelo seu talento. Adoro-a!

A mudez, a contenção e a cassete



O Artista é um filme singular: mudo, francês e falado em inglês. É como uma invenção que nos cativa somente num primeiro momento, de imediato percebemos que não vale a pena patenteá-la;

J. Edgar é um filme mais íntimo que histórico. Cinquenta anos de trabalho árduo e manipulação,obsessão, obediência e contenção. Não se pode ser feliz assim mas está visto que é possível, de permeio, amar perdidamente;

Jovem adulta é um encontro de um excelente guião e uma atriz da minha geração de que sou fã incondicional desde Monster: Charlize Theron. Com 37 anos volta à cidade natal tentando recuperar peças que não encaixam no seu puzzle, encontrando a verdade sobre a sua popularidade no liceu e o sobre o vazio que, desde então, não mais a abandonou. A cassete obsoleta e sonhadora que a transporta para a adolescência, que a (des)construiu, é afinal a chave para resolver todos os problemas do presente.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Assim se inicia



“Há alguns anos, ao regressar a Inglaterra após uma curta viagem ao estrangeiro (era então Master do Trinity College de Cambridge), o agente da imigração em Heathrow, que examinou o meu passaporte indiano com bastante atenção, colocou-me uma questão filosófica bastante complexa. Olhando para a morada no impresso da imigração (Master’s lodge, Trinity College, Cambridge), perguntou-me se o Master de cuja hospitalidade eu obviamente desfrutava era meu amigo intimo. Isto levou-me a pensar, pois não era completamente claro para mim se eu poderia afirmar ser amigo de mim próprio. Após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que a resposta devia ser afirmativa, visto que me trato muitas vezes de forma bastante amigável e, para além disso, quando digo coisas inconvenientes consigo logo perceber que com amigos como eu não preciso de inimigos. Como tudo isto levou algum tempo a ser compreendido, o agente da imigração quis saber ao certo porque razão eu hesitava e, em particular, se havia alguma irregularidade quanto à minha estadia na Grã-Bretanha”.


Assim se inicia “Identidade e violência – a ilusão do destino” (editado pela Tinta da China) do fabuloso Nobel Amartya Sen.

Desaguar

A morte da água


Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.


Ruy Belo

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Novo paradigma



"Passos Coelho venceu as eleições defendendo um novo paradigma político". Muito se ouve falar sobre o que isto quererá, de facto, dizer. Como cidadã consciente e proactiva (adoro este adjectivo de iogurte) deixo aqui o meu humilde contributo visando esclarecimento generalizado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Com a tua letra



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.


Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco in A Musa Irregular

tenor do bairro




Voltei a ser um homo pedestrus. Contudo, há dias de preguiça ou de saltos altos em que o amarelo da carris me encanta de forma particular.


Sento-me quase no início, de costas para o rumo a seguir, observando todo o autocarro. Estranho o som que nasce na cabine do motorista, uma playlist de musica pimba portuguesa e francesa acompanhada pela sua voz de tenor do bairro. De pronúncia irrepreensível, interrompida pelos bons dias que insistia em dar aos novos passageiros, ele declarava desfeito ou esperançoso – não consegui descortinar – je t’aime mon amour, je t’aime(eeeeeeeeeeeeeeeeee). De seguida adiantava-se numa letra do Tony Carreira, nunca se desconcentrando pela emoção da curva apertada, pela adrenalina do semáforo amarelo, pela surpresa da paragem. O meu motorista da carris, tenor do bairro, óculos escuros, cabelo rapado, melou todo um autocarro matinal, cinzento de contrariedade e de sono, com o seu romantismo lânguido. Quase de saída ainda ouvi, convicta e afinadamente, pedir para um amor desavindo voltar e perdoá-lo. Talento puro.


Ocorreu-me escrever à Carris louvando-o pela alegria ( e surrealismo, vá) que coloca no seu trabalho mas, dado o gosto musical duvidoso, abandonei de imediato a ideia .

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Ver, rever e praticar


Ando a actualizar, em fast forward, as minhas idas ao cinema.

Ontem, As Serviçais. Uma nova Cor Púrpura, talvez. Um filme sobre a diferença muito além do racismo aprisionado no tempo e no espaço. Um filme sobre a hipocrisia contemporânea e os insondáveis caminhos da cobardia e da coragem. Para ver, rever e praticar.

Muito trabalho, pouco riso





"Muito trabalho, pouco riso" define o carácter do novo secretário geral da CGTP, ouvia hoje numa síntese biográfica na rádio. Talvez seria mais importante quedar-me na sua convicção leninista, na sua ortodoxia assumida. Mas ideologias leva-as o vento, quem somos e como vivemos permanece. Talvez fosse de dissertar sobre o estado a que o movimento sindical chegou, ao desajuste entre o rumo seguido e as efectivas necessidades da população activa e em particular dos precários e dos desempregados . Mas retenho-me neste traço que caracteriza um líder: "muito trabalho, pouco riso". Ecoam memórias do provérbio autoritário e cinzento que adivinhava no muito riso pouco siso. Fartar-lhe-à ironia e auto-critica, vazio preenchido por uma certa rigidez colada a cuspo no proletariado. Erguem-se muralhas e muralhas electrificadas contra o capitalismo, aprofundam-se rugas na testa, agitam-se punhos no ar que, teatralmente, batem na mesa de imaginárias negociações. Vendo daqui, parece não haver esperança que este líder seja sequer o último a rir.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

(Con) Descendentes




Em Os Descendentes, Matt King (George Clooney) vê-se, de repente, (quase) viúvo com duas filhas adolescentes que, na verdade, não conhece. Para apimentar o drama interior descobre que a sua mulher sonhava trocá-lo pelo amante, um agente imobiliário ambicioso que a tentava usar num negócio de milhões.
A trama, simples, dá lugar a alguns momentos deliciosos mas é só. Afirma-se que Cloooney será um grande candidato ao Óscar porque está, cito, fora da sua zona de conforto. Com isto devem querer dizer que interpreta um contido macho alfa, cornudo, de camisa havaiana de gosto duvidoso e com (já alguma) falta de tónus muscular.

Já a minha zona de conforto, enquanto espectadora, é delimitada por um bom guião, activação cerebral, estimulo estético e uma razoável sensação de satisfação no final. No percurso pedestre para casa, perdida em outros pensamentos, quase esqueci a história e aquele desconforto que me provocou.

terça-feira, janeiro 24, 2012

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Dueto cantabile

Fui visitá-la à casa azul. Ao longe aquele azul já desbotara a paisagem circundante com uma tristeza monocromática. Sentada junto de uma das muitas janelas, sozinha, perdida na enorme poltrona de veludo. Brincava com os dedos e as memórias deformadas pelo presente que já não alcança.
Prometemos ir à ópera. Prometi que a levava, prometeu que me explicava todos os detalhes. Anos passaram, eu perdida na juventude e no quotidiano de fúteis preocupações, ondas de vazio que arrastaram as minhas promessas, as suas intenções.
Sentei-me no braço da poltrona e fiz sentir a minha presença. Sorriu. O meu nome escapara-se numa armadilha do tempo. Puccini, contudo, estava ainda por lá bem como a esperança de ser resgatada naquela tarde rumo à felicidade de um certo camarote do S. Carlos.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Fim e recomeço



Uma canção que adoro sobre um fim e um recomeço, livre de mágoa. Hoje assinala-se a morte e o nascimento, respectivamente, de Ellis Regina e Eugénio de Andrade. O fim e um recomeço que o tempo proporciona para que abracemos o futuro ao som do passado.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Race to the bottom

Depois de 2011, depois (e antes) de todos os impostos de emergência, depois do acordo assinado esta madrugada, depois da certeza de que o olhar do poder sobre a resolução de problemas de competitividade no nosso país está profundamente enviesado, resta-nos a desresponsabilização assumida, a proliferação de veiculos de alta cilindrada e charutos cubanos, a tentativa de "achinesamento" de uma economia que nunca foi grande coisa mas, pelo menos, se tem esforçado para aprender a falar correctamente a sua própria língua .

terça-feira, janeiro 10, 2012

"A" resolução de ano novo

(roubei daqui)

Descomplicar. Não devemos abandonar coisas em que conseguimos ser exímios, bem sei, mas a vida passa, o cérebro refina-se, o coração adoça e o esqueleto reclama. Tento com convicção desde 2011. Apareceram folhas, depois flores. Suponho que a frutificação esteja para breve.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Por aqui

Pareço uma turista na praia distraida, absorta, esticada ao sol, contemplando o meu ano anterior e secretamente aguardando que os próxmos 366 dias renovem a esperança que insisto em não perder. Está calor e descubro novos cocktails, espécies de peixes e paisagens cuja previsibilidade me certificam. Está quase deserto este paraíso. Anunciaram uma catástrofe qualquer. Nada, do meu institnto às mais apuradas previsões meteorológicas, alerta para uma fuga iminente. Em breve retomo o trabalho, os estudos e os encontros. Nenhum me vai impedir de continuar, secretamente, por aqui.

Carga de trabalhos



No primeiro post de 2012 apetece-me partilhar uma das minhas séries preferidas. 10 minutos de testemunhos sobre trabalho e as satisfações e insatisfações que provoca. Para que retomemos (se esquecida) a nossa capacidade de relativizar pequenos obstáculos quotidianos.