Conheci por acaso alguém, neurocientista, que trabalha na Fundação Champalimaud. Investiga há pelo menos três anos a ligação entre a acuidade visual e os movimentos. Para isso ficará a olhar, mais três anos, para minusculos peixes transparentes e suas reacções a estimulos externos. A sua equipa de neurocientistas admite que pouco sabe sobre o cérebro e isso, por vezes, confessava, é muito frustrante. É aqui que entra a malta de Letras para animar: os mistérios do cérebro são connosco, alimentá-los é um nos nossos passatempos prediletos. Além de que admitir que pouco se sabe é já um prometedor primeiro passo para que se chegue a algum lado.
terça-feira, abril 09, 2013
domingo, abril 07, 2013
Sexo oral
E agora coisas que verdadeiramente interessam...
Sexo oral
Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras--me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.
Inês Pedrosa , revista Egoísta, n.º 32, p. 8
Sexo oral
Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras--me.
O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.
Inês Pedrosa , revista Egoísta, n.º 32, p. 8
Dediquemo-nos à Flora
Estava tudo a ir muito bem até ao momento em que se obriga ao cumprimento da Lei Fundamental do país. Que cumprir leis pode ser financeiramente caótico, já todos os portugueses - população activa, desempregados, pensionistas - o sabem há, pelo menos, dois anos. Somos o país dos bodes expiatórios e do rebanho mal apascentado em que as suas ovelhas negras pastam nos offshores. Dediquemo-nos à Flora então. Está na hora de semear os nossos sonhos, de podar delirios, de relembrar a fotossintese.Virão folhas, flores, frutos. Mas, por causa de todas estas alterações climáticas, só não sabemos quando.
terça-feira, março 26, 2013
Onde vim, por fim, parar
Tarde com sol
As coisas simples dizem-se depressa ; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.
São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.
Nuno Júdice
domingo, março 24, 2013
Não saber nada
E surgiu de novo aquela irritação com a sabedoria popular, verdades comprovadas cientificamente ditas de forma indiscriminada, automática, sem um pingo de pensamento critico. Tudo tem um início e um fim. O óbvio contrafeito, o evidente perante a dimensão humana de tempo. Se contrariasse a sabedoria popular iriam de imediato pedir-lhe exemplos, a seguir a tal explicação seria internada num hospício, única alternativa oficial à extinção da Inquisição. Mas sim, se quisessem mesmo saber, ela explicaria as suas coisas que não têm inicio, que sempre existiram e permanecem para lá da Geografia e do Futuro, da Meteorologia e da Religião. Os filmes tolos de domingo à tarde têm essa mensagem - do para sempre, do de sempre - e por isso, talvez, são tão bem sucedidos apesar dos maus guiões e dos actores habitualmente mediocres. Encerraria tal explicação com as evidências de que nem tudo tem um fim, as suas últimas palavras de palestrante seriam"para sempre". Há coisas cá dentro que são redondas, circulares, sem ângulos, bifurcações ou cortes. Palestras e hospícios à parte, ela encantava-se secretamente com a clareza linear destes límpidos circulos infinitos que neles encerram o mais precioso. Afinal o povo não sabe tudo, melhor, não sabe quase nada.
sexta-feira, março 08, 2013
O grande evento
Ontem, na abertura da Monstra 2013, qualquer coisa muito parecida com isto : uma de muitas reportagens do grande colunista social Atail Menezes.
quarta-feira, março 06, 2013
O rosto
Por aqueles dias estava José em casa sozinho ao final do dia. A mulher tinha ido a uma consulta lá para Lisboa, tão doente coitada, e ele preparava-se para ver o seu programa favorito antes do telejornal. Na cozinha, onde improvisara uma sala com a poltrona poida que tanto amava, alinhavava o jantar, cozinhar era coisa de homem e ele fazia-o desde os tempos em que dera por si responsável por alimentar um rancho de irmãos órfãos. Iscas de cebolada. Quase a terminar o tempero, ouviu um estrondo no andar de cima. Era Inverno, alguém, com pressa deixara uma janela mal fechada. Se entra chuva, lá se vão as madeiras. E elas custaram caro. Enérgico, com fama e proveito, sobe a escadaria alcatifada num ápice e entra no quarto onde supunha tivesse vindo o barulho. Corre para a janela, estava fechada. De soslaio repara agora na porta do guarda-fatos escancarada e em parte do seu conteúdo espalhado pelo chão. A sua infundada certeza surpreendera-o tal como Ruben, em pânico, que o esperava atrás da porta. José não deixaria passar. Trabalhara duramente toda a vida, sujeitou-se a muitas humilhações e sacrifícios, combatera na selva africana, construiu aquela casa com as suas próprias mãos, casara as duas filhas com homens humildes mas trabalhadores, tinha o seu programa favorito à espera. Não, não e não! Ao virar-se cruzou o olhar com o assaltante, odiou-o tanto quanto o seu coração permitia. Ruben cruzou o olhar com José, um homem enorme, cheio de ódio e de vontade. Tentou escapar-lhe com a destreza de que se gabava mas, ao perceber que seria impossível, sacou da naifa e, de imediato, desferiu todas as facadas que o medo permitiu. José atordoado pela dor, afogou-se no seu sangue e guardou, já emudecido, a ultima imagem de Ruben escapulindo pela janela.
Seguiram-se os espectáveis episódios, espanto, horror, dor, médicos, polícias e toda a parafernália de homens e instrumentos para trazer de volta o que ficou na retina de José. A verdade transforma-se em suposição, a indignação em mistério, as palavras em autos, o sangue em relatório, a casa em fotografias, a janela aberta e os telhados contíguos em solução.
Ruben foi um nome pronunciado mais tarde, depois de muitas horas de olhos abertos imaginando José e a sua surpresa, José e a sua luta inglória, José e a dor de saber sem ter tempo para denunciar. Depressa o nome de Ruben se transformou também num relatório. Num dia ensolarado, foram buscá-lo à liberdade à qual tão cedo não voltaria.
O alívio invadiu aquela filha, trabalhadora e humilde, que logo soube do fim do mistério, da confissão, da detenção. Herdeira dos azulejos, da alcatifa e da bondade do seu pai, veio transformar mais palavras em peças processuais. Esta obrigação nada era comparada com a vontade de agradecer as horas de olhos abertos que encarceraram aquele nome. Estava agora perante o rosto da Justiça divina que reencaminhara o destino para a dos Homens. Estava perante aquele rosto tímido e desconcertado com a emoção do agradecimento. Aquele rosto vulgar, imune à dor na esperança que daí brotasse clarividência. Estava perante aquele rosto e aquele rosto era o meu.
segunda-feira, março 04, 2013
Recantos
Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.
O dia vai morrer aberto em mim.
Manoel de Barros, Livro sobre nada
terça-feira, fevereiro 26, 2013
Simples
Tim Burton
Seguem sorrisos amarelos sobre a passadeira vermelha. Elas param para dizer que estão felizes, alegres, contentes, radiantes e para publicitarem o nome do modelito e da jóia que usam. Eles param para dizer como estão felizes, alegres, contentes, radiantes e para publicitarem o nome da mulher, em geral 20 a 30 anos mais nova, que trazem pelo braço. Todos focados no lucro desses anúncios. Alguns trazem atrelados familiares não tão bem vestidos ou declaram que foi um instantinho para se aperaltarem. Não dão importância a futilidades e querem muito fazer um próximo Almodovar ou um dos Cohen. Ninguém se lembra de perguntar onde foi adquirido o silicone já da colecção primavera-verão 2013, que é feito do amor-da-vida do outono-inverno 2012 ou porque aquela rapariga tem umas olheiras que condizem com o ar perdido. Depois há a cerimónia nunca tão engraçada como se esperava. Uma plateia onde o talento está concentrado em poucos e o investimento na beleza em muitos. Umas escadas que são um verdadeiro desafio para as senhoras premiadas enroladas em km de tecido e para as pessoas bêbedas em geral. Um homenageado morto ou em decadência. Uma música emblemática. Uns estrangeiros que dão um toque exótico tão apreciado em Hollywood. Uma ou duas gaffes, três ou quatro piadas de mau gosto. Por fim, pessoas sorridentes com pequenos senhores dourados, com o nome do tio de alguém, nas mãos que serão utilizados para os mais diversos fins. Carreiras que disparam, morrem, amarguram. E mais uma noite em branco a tentar entender a importância da simplicidade que tudo isto tem.
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Aquém das nossas possibilidades...
...intelectuais, de cidadania é como temos vivido, conclui Rui Tavares na sua crónica de hoje na última página do jornal Público. Porque este é o único discurso politico que verdadeiramente me interessa.
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
não dá
Apetecia-me escrever sobre a canção de intervenção em Portugal e o seu efeito (in?)útil. Apetecia-me escrever sobre o tempo que não tenho, a motivação que não tenho ou, dependendo, sobre o tempo que me sobra e o entusiasmo que me sufoca. Apetecia-me escrever sobre a ciência de dizer palavrões articuladamente ou sobre o facto de, hoje em dia, haver uma campanha subliminar do politicamente correcto para a higienização da língua portuguesa. Escrever sobre as viagens que fiz mas, sobretudo, sobre as que não fiz e que já não cabem dentro de mim. Apetecia-me dissertar sobre a esperança, relatar as presenças mais entusiasmantes num festival literário, dizer mal e bem dos últimos filmes ou livros vistos e lidos. Apetecia-me moldar o amor em palavras, elogiar a democratização que resulta do low cost ou deleitar-me com o luxo dos pormenores que diferenciam. Enunciar as qualidades de um dia de sol ou lamentar os defeitos da humanidade urbana e mediocre que povoa os dias. Apetecia-me ironizar com os quotidianos pontapés na gramática ou sugerir aquele restaurante italiano onde fui, um destes dias, pela primeira vez. Mas, infelizmente, deparei-me com o meu recibo de vencimento deste mês e, pronto, lá emigraram para longe palavras e inspiração.
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
A foto e o puto
Constatar
Sempre que leio um jornal nacional, um post, actualizo as leituras no facebook ou oiço clandestinamente conversas de café, reparo que os portugueses fazem uma coisa de forma exímia. Somos muito bons a constatar. Admito que sejamos ainda melhores a dar indicações alternativas para que o trauseunte, já de si perdido, possa chegar, um dia quiçá, ao local pretendido. Mas os dotes para constatar também não ficam em nacionalidades alheias. Daí a recente obsessão pelo Excel e pelas estatísticas. Gostamos de fazer contas de merceeiro e saber que o resultado é certo. Ponto. Isto está mau. Constatamos. Hoje está frio. Ele cheira mal. A conta do supermercado subiu. A vizinha faz muito barulho. O mar está calmo. O carro tem um risco novo. E de constatação em constatação vamos saltitando até à grande constatação final. Entre constatações criamos breves sinapses opinadoras, frequentemente sem qualquer outro fundamento que os nossos pequenos interesses ou afectos. Constatar seguido de pensar é um avanço civilizacional sem precedentes, talvez a chave para mudar tudo, para "refundar" com sentido. Por ora, e cumprindo o meu quase-dever de cidadã portuguesa, deixo-vos a minha modesta constatação de hoje: é sexta-feira, sexta-feira, sexta-feiraaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
Poema que aguenta, aguenta
João não tem um tostão
tem o ar que respira
mas ao contrário:
Expira
Inspira.
João é agora empreendedor
inspirado
pelo ar ao contrário
e pela dor num armário
já penhorado.
João caminha
pelas veredas da esperança
e isso cansa.
Cansado e inspirado
empreende
em formas gratuitas
e legais
de suicidio,
de vida.
João corre
no limiar do sonhos
dos outros.
Acelera nos minutos
enfadonhos e
crê que, se tudo falhar
(até o suicidio),
tem sempre um último projecto
já sem paciência
e com muita concorrência
viável mas banal
tão inevitável quanto global.
João venderá,
quase como nova
portátil, retractil, útil,
o que lhe dá alento para
aguentar
aguentar
com pericia e calma.
João, dizia,venderá
a preço de saldo
a sua alma.
tem o ar que respira
mas ao contrário:
Expira
Inspira.
João é agora empreendedor
inspirado
pelo ar ao contrário
e pela dor num armário
já penhorado.
João caminha
pelas veredas da esperança
e isso cansa.
Cansado e inspirado
empreende
em formas gratuitas
e legais
de suicidio,
de vida.
João corre
no limiar do sonhos
dos outros.
Acelera nos minutos
enfadonhos e
crê que, se tudo falhar
(até o suicidio),
tem sempre um último projecto
já sem paciência
e com muita concorrência
viável mas banal
tão inevitável quanto global.
João venderá,
quase como nova
portátil, retractil, útil,
o que lhe dá alento para
aguentar
aguentar
com pericia e calma.
João, dizia,venderá
a preço de saldo
a sua alma.
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
Ter um seguro contra o futuro
Ontem na Lx Factory - Espaço Brasil, JP Simões versão semi-sul americana. Um concerto animado, lúcido, divertido ao som do samba deles mas com o nosso fado nas palavras.
domingo, janeiro 20, 2013
Um milagre
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
... Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre.
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
... Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre.
Alice Ruiz
(uma homenagem quase no seu aniversário)
quinta-feira, janeiro 17, 2013
Em ponto pequeno
"(...)O "pequeno" para o português, é, na realidade, o que para os outros povos representa o "médio". É no meio dos pequenos objectos que ele se sente à vontade, é nele que investe enchendo a casa de mil bibelôs, fotografias, cobrindo as paredes com coisas pequenas, quadros, cromos etc.
O pequeno representa o tamanho perfeito, adequado ao seu investimento afectivo. Alvo electivo da sua ternura, tamanho-fétiche que apela ao seu caminho irreprimível, o "pequeno" contém em si as potencialidades de expressão que dele naturalmente decorrem e que depois se transferem para todos os adjectivos e nomes próprios: pequenino, pequenito, pequerrucho, etc. Como se "pequeno" fosse a raiz dos diminutivos afectivos, e a ausência que decorre do conjunto inteiro de nuances dos "inhos" e "itos" declinando as inúmeras espécies de pequenez.
O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se e reconforta-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias (...). Mais, a pulsão do pequeno, dá ensejo à formação de pequenos mundos afectivos em que as relações simbióticas se desenvolvem com uma força extraordinária. O português habita numa espécie de bola de afecto que faz com que a separação mínima de um ente querido pareça enorme, longa e longínqua. Separar-se um dia, dois, uma semana ou mesmo umas horas pode suscitar uma dor imensa, uma imensa saudade.(...) Pequenos mundos: daí a visão curta, a repulsa institiva pelos projectos a médio e longo prazo, a territorialização gregária (...).
A pequenez é a negação do excesso, e a nossa maneira de "estar certo" ou "ser certinho" - o nosso "justo meio". Finalmente, o ser pequeno é a estratégia portuguesa de permanecer inocente, continuando criança (...)."
"Portugal, hoje. O medo de existir", José Gil
quarta-feira, janeiro 16, 2013
O dia em que me apaixonei pelo Ben Affleck
Ontem, na onda do keep calm and go to cinema, fui ver o "Argo" realizado e interpretado por Ben Affleck. A trama é totalmente baseada em factos veríficos, desenrolando-se entre os Estados Unidos, Turquia e Teerão no final de 1979, início de 1980. A solução absurda de usar o know-how de Hollywood para resgatar seis reféns americanos, secretamente acolhidos na Embaixada do Canadá em Teerão na sequência da tomada da dos Estados Unidos pelo povo iraniano, é a prova de que tudo é possível quando arriscamos e usamos inteligência e criatividade em doses supreendentes.
terça-feira, janeiro 15, 2013
Verde
O fundo é cinzento. Oscila entre o escuro e o claro, cinza do nosso papel na sociedade, queimado num ápice, cinza espalhada por aí. Para emoldurar, há um rio, há um mar. Azul, verde, muitas vezes também cinza, quando insiste em reflectir o país, quando se camufla e limita-se a fluir. As árvores são castanhas, sem folhas, sem flores, sem frutos. Ramos ao vento, raízes ao chão, tudo no suposto lugar. Os risos são genericamente amarelos, há alguns rosa e um ou outro vermelho. Neste caso, o item quantidade assume maior relevância analítica. São poucos. A raiva é roxa. Condiz com quase nada mas, nas montras, seduz-nos. Em modo liquidação total. O silêncio é dourado, um banho reles para enganar os incautos e atrair, para a causa muda, os deslumbrados. O silêncio é contrafeito. A inveja é verde, verde seco. Camuflado nas quatro estações. A inveja é semeada, adubada, é colhida sempre precocemente. Há, porém, a inusitada coincidência da esperança ser verde. Verde esmeralda. Verde 2013.
segunda-feira, janeiro 14, 2013
Mil imagens, mil palavras e a moral da história
E se um dia a escolha divina não fosse aceite pelo Homem? E se sua Santidade afinal assumisse, no curto pontificado, a sua natural condição humana e fosse, por isso, o melhor dos Papas? "Habemus Papam" (2011) do Nanni Moretti é o mais real dos filmes.
"Guia para um final feliz" está por aí catalogado como comédia romântica. A obsessão pela catalogação tem destas coisas. Por isso é ir ao cinema às cegas, depararmo-nos com um excelente guião, com excelentes intérpretes e termos a certeza que, se encontrarmos um caminho, por mais marginal e absurdo que seja, a vida fluirá tranquilamente. Keep calm and go to cinema.
Ser
Dizem que sou intelectual.
Bom, leio catálogos de roupa e Michaux
na casa de banho.
Afirmam que sou intelectual.
Não sei dizer asneiras em latim.
Pronuncio-as correctamente em outras
quatro línguas.
Constatam que sou intelectual.
Vejo os canais de televisão
que condizem com essa condição
enquanto ponho rímel Chanel
e despenteio-me
a rigor.
Apontam, é uma intelectual
Saio a correr,
equipada a condizer
sobre os melhores ténis Asics,
porque, afinal,
era uma ofensa.
quinta-feira, janeiro 10, 2013
Até aqui tudo normal
O país acordou a saber que foi constituida a 10ª Comissão Parlamentar que investigará o Caso Camarate. Até aqui tudo normal. Estranha-se somente o facto de nunca ter sido criada uma Comissão para averiguar o Caso Alcácer-Quibir - afinal só passaram pouco mais de 500 anos - para a qual seriam resgatados à sociedade peritos em estratégia militar, querelas monárquicas e meteorologistas doutorados em nuvens stratus, responsáveis pela formação de nevoeiro.
quarta-feira, janeiro 02, 2013
A felicidade está também no inesperado
A Orquestra de Câmara Portuguesa resolveu, inesperadamente, passear no eléctrico 15.
novo ano
ninguém vê o concerto de ano novo transmitido em directo de viena no primeiro dia do ano. eu vejo e, já agora, oiço. tudo meticulosamente organizado. sala impoluta. público bem vestido, atento, efusivo qb, sorridente. na orquestra empenhada desfilam, rodopiam notas clássicas renovadas a cada interpretação. o maestro, bem humorado, dá o acabamento final. é o deleite pela perfeição, ficção do que vamos chamando de vida real.
segunda-feira, dezembro 31, 2012
Um 2013 cheio de possibilidades...
... é o meu maior desejo para mim, para todos.
Possibilidades
Prefiro
o cinema.
Prefiro
os gatos.Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em fila para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Wislawa
Szymborska
quarta-feira, dezembro 26, 2012
O Natal às vezes atrasa-se um pouco
João Vaz de Carvalho
Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjar complicações.
Adília Lopes
segunda-feira, dezembro 17, 2012
Um nexo enchendo o vazio
Alguém que julgou que era para si em particular. Para encontrar nexo, para aceitar, para moldar estas horas sem deixar arestas, é preciso uma canção, são necessárias muitas, muitas canções que habitem vazios dentro do nosso quotidiano. Uma canção sem início e sem fim, ecoando entre a chuva, arrombando janelas fechadas, fluindo livre nas ramificações dos nossos pequenos dramas.
sexta-feira, dezembro 14, 2012
Um nome
"Conheces o nome que te deram
Não conheces o nome que tens".
Livro da Evidências
Citação inicial de "Todos os Nomes" de José Saramago
quinta-feira, dezembro 13, 2012
Essência
Marry, and you will regret it; don’t marry, you will also regret it; marry or don’t marry, you will regret it either way. Laugh at the world’s foolishness, you will regret it; weep over it, you will regret that too; laugh at the world’s foolishness or weep over it , you will regret it either way; laugh at the world’s foolishness or weep over it, you will regret both. Believe a woman, you will regret it; believe her not, you will also regret it; believe a woman or believe her not, you will regret it either way; believing a woman or not believing her, you will regret it both ways. Hang yourself, you will regret it; do not hang yourself, and you will regret that too; hang yourself or don’t hang yourself, you’ll regret it either way; whether you hang yourself or do not hang yourself, you will regret both. This, gentlemen, is the essence of all philosophy.
Kierkegaard
quarta-feira, dezembro 12, 2012
Efeito globalização
Papai Noel às Avessas
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Um sopro
"Eu olho para trás, não sou como os outros que dizem que fariam tudo igual, eu faria muita coisa diferente. A vida é difícil, a vida nos leva a coisas que às vezes a gente não quer. A vida é um sopro, a gente vem, conta uma história e todo o mundo esquece depois. (...) Cem anos não dá prazer. Eu ia passar os cem anos sem muita alegria. A vida passou, eu procurei ser correto, trabalhar, mas não estou contente, na verdade não traz nenhum prazer. Só se o sujeito pensar que é importante, e eu acho isso tão ridículo, se ele pensar que é importante ele está fora do mundo."
Oscar Niemeyer, pela altura do seu centenário, Diário de Notícias, hoje.
quinta-feira, novembro 29, 2012
Peço Justiça
E assim começa....
"Este livro defende uma grande e antiga tese filosófica: a unidade do valor.(...) O seu título remete para uma frase de um antigo poeta grego, Arquiloco (...). A raposa sabe muitas coisas mas o ouriço sabe uma coisa muito importante. O valor é uma coisa muito importante. A verdade sobre viver bem, sobre ser bom e acerca daquilo que é excelente é não só coerente, como também assume um carácter de apoio mútuo : aquilo que pensamos sobre cada uma destas questões deve, subsequentemente, ser confrontado com qualquer argumento que consideremos convincente sobre as outras (...)."
quarta-feira, novembro 28, 2012
A vida secreta dos objectos
Sempre divaguei sobre a vida secreta dos objectos. Comecei, desde cedo, a imaginar que o meu quarto de brincadeiras seria na minha ausência uma espécie de, traduzido para linguagem contemporânea, Toy Story. Depois, recentemente, descobri alguém, no Brasil, com a mesma mania mas com muito, muito mais graça.
Sexo!
João Vaz de Carvalho
Este post é somente uma estratégia de marketing para aumentar as visitas ao meu blog que andam meio por baixo este mês! Infelizmente, há um longo caminho até ao porno-blog....
quarta-feira, novembro 21, 2012
Nota-se
Todos falam deste cd que acabou de sair: “Desfado” da Ana Moura . Antes que passe tantas vezes na rádio que já não consigam ouvir mais, fica aqui “Até ao Verão”, que se nota muito bem ser uma música e letra da Márcia.
quarta-feira, novembro 14, 2012
greve ao medo
Dois homens batem à porta: "Bom dia, minha senhora, viemos para instalar o medo. E, vai ver, é uma categoria".
(acabadinho de sair) Rui Zink, A Instalação do Medo, Ed. Teodolito
domingo, novembro 11, 2012
Contributo para a felicidade quotidiana
Uma coisa que tem passado quase imperceptível no meio do turbilhão desta crise é o ano do Brasil em Portugal ,traduzido numa diversidade de eventos culturais (muitos gratuitos) que se propõem aumentar a felicidade dos portugueses. No Teatro Nacional D. Maria II está a decorrer, até ao final do ano, o melhor teatro que se faz por lá. E isso eles sabem fazer muito, muito, muito bem. Hoje a peça "Hell" com a fabulosa Bárbara Paz. Um dia destes outra coisa qualquer do programa cuja ida, estou certa, não me vai fazer arrepender nem por um minuto.sexta-feira, novembro 09, 2012
Africanização
Conheci Kaouding Cissoko há pouco tempo. Estranho não ter resistido à música contemporânea africana. É ela, aliás, que me passou a embalar nestes dias em que tenho acordado muito pouco europeia.
quarta-feira, novembro 07, 2012
Vai um cafuné?
Frequentemente a história, a moda ou o lobby não fazem justiça. Acho que é o caso do Mário Zambujal, um escritor genial e mordaz, que usa com uma boa dose de malandragem a lingua portuguesa para contar as suas histórias. Descobri-o ainda no liceu com a Crónica dos Bons Malandros e desde aí nunca mais o perdi de vista. Desta vez lembrou-se de nos contar - em Cafuné - aventuras e desventuras de Frei Urbino e do impetuoso Rodrigo numa das épocas mais surreais da história mundial: a fuga da corte portuguesa para o Rio de Janeiro na sequência dos delirios expansionistas de Napoleão. Boa literatura que nos faz rir de nós proprios. Uma urgência por estes dias.
terça-feira, novembro 06, 2012
A ciência
A ciência do amor
O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certezas noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda, tão subtilmente que não se notam.
Tolentino de Mendonça, Estação Central, 2012
sexta-feira, outubro 26, 2012
cá se vai andando
Entre o Strindberg, uma exposição a sério, os Ornatos Violeta e um petisco prometido, cá se vai andando rindo e cantando no meio de um fim de semana culturalmente prolongado.
quinta-feira, outubro 25, 2012
Uma senhora
Pela manhã ouvi uma referência a esta entrevista. Não contive a curiosidade. Não deixem de ler. É concisa, clara e muito inteligente.
SOS
(ontem tropecei neste SOS em pleno Chiado)
Uma velha técnica para ludibriar : baixar inicialmente ao máximo as expectativas para depois, mesmo se correr mal, parecer até que foi tudo muito bem. O governo tem usado recorrentemente esta estratégia, crente que resulta, esquecendo-se que nos retiraram há muito a capacidade de elevar qualquer coisa que esteja relacionada com os seus planos inconsistentes e desgovernados para este país.
quarta-feira, outubro 24, 2012
sexta-feira, outubro 19, 2012
Guionista
Ontem cruzei-me, sem querer, com o lançamento do último livro de Ricardo Araújo Pereira - uma espécie de best of das conhecidas crónicas diárias na rádio.
Contava ele, numa breve introdução, que sempre teve muita dificuldade em definir o que fazia na vida, qual a sua profissão. Há uns anos atrás, no início da carreira, recordou que, enquanto levava um amigo a casa, numa noite de chuva, tivera um despiste com o seu automóvel que, não sendo grave, envolveu a presença de um GNR para registo da ocorrência. Inquirido sobre a sua profissão, Ricardo respondeu "guionista". De imediato o GNR disse-lhe para mudar de rumo porque estava visto que, a continuar com tamanha falta de destreza, não teria grande sucesso.
Riso
Sempre fui acusada de rir - desapropriadamente, alto, ingénua ou genuinamente. Em julgamento opto naturalmente pela confissão integral dos factos. As condenações sempre foram mais que muitas mas as penas nunca me pesam porque talvez seja mesmo aí que reside o siso e grande parte da minha liberdade.
quarta-feira, outubro 17, 2012
O que apetece...
Cantar nos primeiros dias de trabalho pós férias e na ressaca da apresentação do orçamento 2013. Ainda bem que chove.
terça-feira, outubro 09, 2012
Cliché de férias II
Concerto ao vivo entre uma chegada e uma partida. A melhor música brasileira cruzada com a melhor música portuguesa.
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