sexta-feira, agosto 31, 2012

Nostalgia

Dou por mim a ter saudades do tempo em que não gostava de Direito, quando havia cá dentro um impulso imenso que me impelia a cruzar aquela grande avenida e mergulhar, com todas as minhas forças, no estudo da literatura. Com a idade é suposto adquirirmos alguma sapiência e, no reverso, gostos bizarros, só confessáveis em blogs relativamente anónimos como este. 

quinta-feira, agosto 30, 2012

ter ou não ter, eis a questão


"O cérebro humano é como um chapéu de chuva: funciona melhor quando aberto."
Walter Gropius


terça-feira, agosto 21, 2012

Do


Ter embarcado naquelas férias foi um erro. Sabia-o agora enquanto jogava xadrez contra si própria à sombra do verão barulhento e veraneante. Aguarda em silêncio, nesta esquizofrénica brincadeira karpov vs kasparov, que o seu dia se inicie. Pelas 18h sai na sua bicicleta pela vereda até à praia. O sol está ali mais à mão mas quase todos estão em debandada ao ritmo de horários sem sentido artificialmente impostos. Um encosto na areia, um livro, um, dois, vinte banhos e a memória de um outro fim de tarde numa praia muito mais a norte onde, em jeito de despedida, ele lhe deixou um conselho. O impulso para o escrever cresce à medida que a maré recua lentamente. “Do all things with love” soou a cliché que o seu cinismo de então não deixou passar incólume. Com a maturidade foi-se o cinismo e algum senso do ridículo, ficou a frase imortalizada na areia molhada. Uma onda atrevida apagou quase tudo e ao fundo acenderam-se uns archotes, sinal de que o sol foi à sua vida e de que ela, para que tudo volte a fazer sentido, talvez devesse fazer o mesmo, numa praia muito mais a norte.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Surpresa


No fim-de-semana fui ver “Brave” e quando não se poderia esperar mais – um filme de animação que alia uma espécie de lenda escocesa a uma beleza a que é impossível resistir – a Pixar deu-me uma curta de pouco mais de 5 minutos – la Luna – que conta a história da família que faz a manutenção da Lua e nos invade com toda a ternura que existe.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Silly Season


Este Agosto deu-me para a contemplação a um nível tal que me esqueço de fazer muitas outras coisas como, por exemplo, escrever aqui. Para não enjoar deixo algumas observações, coincidentes com o espirito da época, resultantes deste meu estado:
  • O método sul africano para terminar com as contestações de teor laboral nas ruas, não sendo inovador, revela-se eficaz a curto e médio prazo. Infelizmente no continente europeu não pode ser aplicado porque, na verdade, não há amostra suficiente de população activa empregada;
  • A sonda Curiosity está em Marte. Os gatos marcianos correm  sério risco de extinção;
  • Há uns bandos de pássaros que parecem piriquitos coloridos em alguns jardins de Lisboa. Toda a gente tenta adivinhar a razão desta inusitada aparição. Por mim é simples, são, obviamente, andorinhas travecas. 

sexta-feira, julho 27, 2012

Planos partilhados


No verão os fins de semana são uma espécie de férias de 5 em 5 dias.
Partilho assim os meus planos já para as próximas férias:
tudo intercalado pela imensa felicidade de poder recomeçar as leituras em atraso e pela esperança de conseguir mergulhar no mar matinal ainda vazio de cardumes de pessoas.

quinta-feira, julho 26, 2012

Matiné clandestina

Ontem, numa matiné clandestina, descobri uma história de amor entre dois pré adolescentes - uma espécie de instagram romantico semi absurdo, isento de artificios - que ofusca Bill Murray, Edward Norton e Bruce Willis.

terça-feira, julho 24, 2012

Talvez tu saibas


(...)
talvez tu saibas que o principal
do amor
é uma montanha de efeitos secundários.

Rui Costa

sexta-feira, julho 20, 2012

Coerência no mundo real


Hoje pela manhã descobri que o meu único colega assumidamente gay fabrica, nos tempos livres, sabonetes artesanais.

quinta-feira, julho 19, 2012

O poder que a beleza não tem


Quantas vezes ouvi o meu pai dizer:
não escolhas muito a roupa com que sais.
A bala que contorna a esquina
não se intimida com a beleza.

Vasco Gato in Resumo - a poesia em 2011; ed. Documenta, 2012

terça-feira, julho 17, 2012

Outra lição (porque o Saber não ocupa lugar)

'Cérebros' mantêm-se em Portugal
Dois breves comentários ao som desta inspiradora banda sonora:
1) Atentem no raciocínio brilhante e complexo da Secretária de Estado. Realmente, como se tem vindo a provar, não brincamos quando tarefa é recrutar pessoas para o Governo;
2) Não é por acaso que o prémio Nobel da Medicina atribuido a Portugal resultou, sinteticamente, do aperfeiçoamento da técnica da lobotomia. Nisso sempre fomos bons.

Uma lição


Uma lição a retirar de uma demorada e surrealista discussão profissional logo pela manhã.

segunda-feira, julho 16, 2012

Estas pessoas são o chão




Pão


Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.




Rui Costa in A nuvem prateada das pessoas graves

sexta-feira, julho 13, 2012

Acredito e evito


Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida.

Groucho Marx

segunda-feira, julho 09, 2012

You're so fucking special


A candura que encerra o desespero ou a descoberta de mais um belíssimo tom de cinzento.

sábado, julho 07, 2012

quarta-feira, julho 04, 2012

Orgulhosamente só


Não resisto a comentar. É demasiadamente tentador. É um exemplo de empreendedorismo e de como estar empregado com um determinado grau de empenho não permite estudar. Para o fazer teria de ter abandonado ora importantes cargos públicos ora dinâmicos cargos privados, responsáveis por alavancarem a economia nacional a olhos vistos. O país precisou dele durante as últimas décadas e ele, claro, homem de valores alicerçados no bem colectivo, não virou as costas à sua pátria. No ano em que entra em vigor uma lei de oportunidades (2006), inscreve-se, por fim e com grande sacrifício pessoal, numa das melhores universidades do país, numa licenciatura intelectualmente exigente que, no ano seguinte, termina com uma nota modesta, não humilhando, desta forma, os seus colegas. Depois, qual sobredotado, toma o mundo nos braços e fá-lo, já  certificadamente, avançar. E assim se calam, em definitivo, as vozes sobre a mediocridade intelectual da maioria da nossa classe política. 

segunda-feira, julho 02, 2012

Marmiteiros do mundo, uni-vos!

A logistica da marmita já foi estudada e replicada no mundo dos negócios. Jovens empreendores, mantenham-se atentos, no nosso país já há um significativo nicho de mercado.

sexta-feira, junho 29, 2012

Agora cresce uma árvore


Maria Keil

Cai a tua palavra na solidão como um ramo de oliveira
na paz. Eu não sabia
que a tua voz chegaria com as estrelas.
És o meu grito de combate
contra a morte.
Agora uma árvore cresce onde o esquecimento
fecha os olhos.
Tu.

Eduardo Cote Lamus in Um país que sonha - 100 anos de poesia colombiana, Assirio&Alvim

quarta-feira, junho 27, 2012

Sebastianismo (à) rasca


Fico sentada aqui, em casa, sentada por aí a ler e a ouvir ecos deste novo sebastianismo com nome suburbano, essa surpresa que deifica, um homem ultraperiférico pela naturalidade, pela classe social, pela linhagem. Um homem ultraperiférico que pela vontade, pelo trabalho se transforma, em quase duas décadas, no Homem Central. O que tem tudo e pode tudo, o predestinado que afastará pragas e maus-olhados marcando, sozinho, golos atrás de golos, chutando as nossas frustrações bem para o fundo da baliza, dúvidas ao poste, baixa auto estima fora de jogo. Se falhar, falha sozinho, a admissibilidade do erro humano não cabe nos super poderes atribuídos, se falhar será lembrado pela ostentação, pelo gel pastoso, pela fragilidade das relações, pela família XXL, pelo fiasco, pela traição. Ninguém tão cedo lhe segurará o manto, lhe arreará o cavalo, ninguém, tão cedo, o deixará entrar, mesmo que ele quisesse, neste denso banco de nevoeiro que é, por estes dias, o nosso pobre e alucinado país.

sexta-feira, junho 22, 2012

Resolucionário

Passeava no Chiado quando fui atraída por um enorme cartaz, que assumia exclusividade numa montra da Mac, anunciado um mesmo gadget na sua mais recente versão. Nele uma foto artística do produto e uma só palavra, Resolucionário. E ali estava eu, reflectida num vidro a pensar que é disso mesmo que precisamos: mais do que uma revolução que tente resolver, resoluções que de facto revolucionem para que retomemos de um outro ponto qualquer um percurso evolutivo por ora abandonado.
Nota: lembrei-me também que resolucionário poderia remeter, tal como oceanário, para um mar de resoluções mas antes que me afogasse em ideias idiotas agarrei-me à frescura de um outro pensamento, mesmo ao virar da esquina, no Santini.

quarta-feira, junho 20, 2012

Concretizar


O meu karma lento só permitiu que visse o último episódio do "House" ontem. Não vou dissertar sobre as oito temporadas da série - que aliás não acompanhei com euforia - ou sobre a irresistível atracção pelo abismo que me desperta a personagem central. Só uma palavra sobre o último minuto em que House e a sua alma gémea, o incrível amigo com a morte datada, iniciam de mota a concretização de um sonho com o tempo que lhes resta. Ideia simples, batida mas, insistentemente, esquecida. Sonhar acordado, concretizar “ses”, abandonar “mas”, exercer a liberdade em grande estilo ainda que só no intervalo da manhã para o café.

terça-feira, junho 19, 2012

Definitivamente, não é só uma fase


Between the optimist and the pessimist, the difference is droll. The optimist sees the doughnut, the pessimist the hole!
Oscar Wilde

quinta-feira, junho 14, 2012

que o meu pensamento caminhe


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem são velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E.E.Cummings, livrodepoemas, Assírio&Alvim

terça-feira, junho 12, 2012

Na véspera...

... de mais uma efusiva comemoração de um santo popular, nada como explicar a religião às criancinhas através de música (pimba) do mundo.

segunda-feira, junho 11, 2012

Encarrilhada

Uns destes finais de dia, cansada e a precisar de por ordem cá dentro, fui andar no eléctrico 28. É um hábito antigo - it runs in the family - e serve para este fim e para reencontros felizes, mas isso é uma outra história. Poucos turistas, pessoas que se conhecem desde sempre, vizinhas que trocam raminhos de salsa, solitários da minha geração que  reciclam uma Lisboa até então abandonada, um ou dois putos empoleirados na traseira desafiando até o tranquilo caos de curvas e contra-curvas acidentadas. Janelas abertas, chiar desafinado, lua cheia reflectida no Tejo.  Da Graça aos Prazeres, dos Prazeres à Graça, assim, como tudo deveria ser na nossa vida.

terça-feira, junho 05, 2012

Depois...


... de um dia esgotante de trabalho nada melhor que descansar num


Poema de amor


Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo.


Jorge de Sousa Braga in O poeta Nu, 2007

segunda-feira, junho 04, 2012

Descartes 0 - Relvas 1

Cruzei-me com esta frase lá para as bandas do Cais do Sodré num destes dias. Gosto de fotografar arte efémera e por isso não resisti. Não resisti também a constatar o evidente: vivemos na época da mais absoluta negação do método cartesiano porque ora se pensamos não existimos ora se existimos é conveniente que não pensemos.

quarta-feira, maio 30, 2012

Contemplativo por contemplativo

O meu velho, experiente e paciente professor, responsável pelo aprimoramento do meu inglês, aconselha-me leituras e séries específicas consoante o que tratamos. Recentemente foi Downton Abbey para eu redescobrir “um certo inglês”. Na verdade já tinha visto quase toda a primeira série legendada no ano passado nas férias. Bonita mas não particularmente interessante. As tricas da criadagem e da nobreza que serve, inseridas num contexto pós-vitoriano, nunca foram hábeis o suficiente para me prenderem a atenção e o coração. Nem mesmo os elegantes modelitos, um ou outro ímpeto romântico ou uma manifestação ligeiramente arrebatadora de convicção – sinal de que as personagens estão mesmo vivas - me entusiasmaram. Há quem considere, tudo isto, uma heresia com direito a excomunhão pois vivem há muito dentro desta história e daquele tempo do qual demonstram, aliás, um inexplicável e absurdo saudosismo. Para mim, contemplativo por contemplativo, sempre é melhor ir pescar porque lá nos encontramos com o a água, com peixinhos gulosos (nos dias bons) e por vezes com umas animadas conversas nem que sejam com os próprios botões.

domingo, maio 27, 2012

Como deve de ser



Uma letra, do princípio dos anos 80, em que Chico Buarque  tão bem descreve como deve de ser. Uma voz recentemente guardada para caminhar comigo. Uma conjugação perfeita.

quinta-feira, maio 24, 2012

Dois segredos para não serem bem guardados



Uma sábia definição de felicidade acompanhada, para melhor a alcançar, do melhor blog de culinária nacional - Cinco quartos de laranja - que comprovadamente tem vindo a ser responsável não só pelo aumento do meu colesterol como pelo sucessivo abandono da biblioteca culinária lá de casa.

quarta-feira, maio 23, 2012

De sempre

Os amigos são para sempre? Interrogava-se ontem o Público num artigo razoável (não fora a opinião estereotipada da psicóloga portuguesa). É uma pergunta que andou às voltas por aqui durante muito tempo. Porque se impôs a dúvida, porque é necessário pensar sobre tudo o que nos estrutura. Após embates, quedas, surpresas, encantamentos, verdades certificadas, mentiras camufladas, acertos e erros, dias e dias felizes, acho que descobri a resposta: não serão para sempre os amigos, serão talvez de sempre. As vidas retomam-se em ciclos, a memória  selecciona a nossa história e aprendemos e desaprendemos a amar ao sabor das ilusões que criamos para nós e para os outros. Afastamo-nos ora pontual, ora irremediavelmente, aproximamo-nos porque nos encontramos num mesmo caminho, comprovamos que, depois de tantos anos, ainda vemos as mesmas formas, as mesmas cores. A narrativa das amizades vai sendo desfiada ora como uma trágica opereta ora como uma série cómica digna de sucessivos Emmys. O final depende totalmente da habilidade para adivinhar os nossos limites e os dos amigos. O final assim depende da nossa capacidade para reciclar, dor para um lado, felicidade para o outro, dádivas em recipiente à prova de tempo, instinto devidamente esvaziado de delírios egocêntricos, autoestima e carência afectiva em compartimentos separados, estanques. O final nas histórias com os amigos de sempre, escrito com cuidado e com esta sabedoria que por vezes escasseia, adivinha-se feliz.

segunda-feira, maio 21, 2012

Para começar


Nem sempre odeio segundas feiras. Nem sempre, como diz recorrentemente Dr. House, a Humanidade é sobrevalorizada. E agora repito isto em surdina, vezes infinito, até acreditar e nascer  cá dentro um enorme sorriso.

sexta-feira, maio 18, 2012

Não há razão para tanta preocupação

Desde Outubro tenho-me imposto novos hábitos: reduzir os telejornais ao mínimo, saber o estritamente necessário para manter, até quando for preciso, uma conversa civilizada circunstancial sobre a realidade do país e do mundo. O mesmo raciocínio vale para o extracto de conta. Aposto na leitura pontual dos jornais e aperto a seleccão dos cronistas. O meu índice de felicidade disparou, agora quase roça a total alienação enquanto me perco em séries, filmes, livros, espécies de peixes e as sardinheiras floridas da minha varanda. Oiço as conversas preocupadas e pessimistas e penso que um dia destes o segurança me vai barrar a entrada alegando que alguém assinou por mim um acordo que me cuspiu irremediavelmente da função pública, esquecendo-se de pôr qualquer compensação no bolso. Nesse mesmo dia, depois de estar a aproveitar a vida numa esplanada junto ao mar, irei ao multibanco levantar uns escudos da poupança para pagar um qualquer delicioso gelado artesanal e fá-lo-ei repetidamente até os gelados custarem milhares e milhares de escudos e o boneco quadrado irritante deixar cair os cantos da boca e me informar da falta de permissão do saldo para a gulodice. Sem dinheiro, sem emprego e sem gelado vou dedicar-me à troca directa com os velhinhos do meu bairro - os que sobreviverem à falta de escudos para a medicamentação - e trabalhar a imaginação para a produção caseira de energias alternativas algures entre o wc e as correntes de ar das janelas. Acalma-me a ideia de que nos buracos da ruas de Lisboa crescerão pequenos e adoráveis malmequeres e que, de todos os carros estacionados, por falta combustível e manutenção, surgirão estufas improvisadas com ervas aromáticas, tomates e outros produtos hortícolas essenciais à subsistência dos seus donos. Esquilos, alces, ouriços-cacheiros e a verdadeira fauna autóctone da região tomará as ruas pacificamente. Deixarei de querer ir a algum lado porque tudo implica muita troca e muito esforço e na altura já não será preciso combater com exercício a obesidade, os diabetes, a tensão alta e todas as maleitas possíveis decorrentes da ingestão desgovernada de hidratos de carbono. A praia será um Tejo translúcido e o campo um bucólico e longínquo Lumiar. Imagino-me, enquanto as dioptrias permitirem, a ler finalmente todos os livros que sempre sonhei e que, por ora, repousam entediados nas estantes deste mundo. Oiço assim as conversas e penso que não há razão para tanta preocupação.

quinta-feira, maio 17, 2012

Reivindicações


Hoje greve no metro, preguiça para caminhada matinal, autocarro à pinha. Cacofonia absoluta por uma sociedade justa (e remunerada). Ladrões, desemprego não é oportunidade, eles gastam nós pagamos, o que vai ser dos mais novos, e nós nem para medicamentos, com licença, temos é de abrir os olhos, falem mais baixo, a senhora que entrou por trás venha aqui pela frente, nunca mais compro passe, não há paciência, valha-nos Deus, dê um jeitinho, vão lá votar neles  vão. Da Alameda ao Saldanha, sete paragens, filosofia popular em stereo. Porque o povo, afinal o que quer o povo? Lá dizem os outros, o povo quer é um carro novo.

quarta-feira, maio 16, 2012

A vida é como a queremos ver

                          (Varsóvia, 1946)

Costumo ler a mini crónica diária do Miguel Esteves Cardoso no Público. Ser fã do MEC é um vírus muito comum na minha geração ávida da Kapa e d'O Independente. Ser fã do MEC não implicava necessariamente conhecer “os clássicos” – embora ele lhes faça referências mais ou menos subtis. Bastava somente gostar de ler aguçando em, simultâneo, o amor, o humor e a irreverência. Dizia, costumo lê-lo  também agora. Há quem afirme que está acabado, que escreve sobre futilidades, culinária, jardinagem, episódios domésticos, o tempo ou a relação com a mulher. Eu vejo um homem inteligente, enorme, ainda a cheirar a gin, que percebeu onde está a felicidade, que sabe que – como termina hoje a sua crónica – alcançar e amar estão irremediavelmente interligados.

domingo, maio 13, 2012

Ver


Ao fechar os olhos
abro-os dentro dos teus.

Octavio Paz

sexta-feira, maio 11, 2012

Música para os nossos ouvidos


O meu instrumento preferido dando vida a um filme português fantástico, Alice.

Coisas que verdadeiramente interessam...


... à produtividade do país: quando uma funcionária pública dedica grande parte da sua hora de almoço a procurar um fato de banho novo, é certo, provam os dados estatísticos, que o seu rendimento laboral fica substancialmente reduzido no período da tarde. Há que legislar sobre isto e rápido.

terça-feira, maio 08, 2012

Estás


As armas

Muitos armam-se para a guerra
É necessário.
Outros armam-se para o mundo
É preciso.
Alguns armam-se para a morte
É natural.
Tu armas-te para o amor
e estás tão indefeso
para a guerra,
para o mundo,
para a morte.
Luz Helena Cardeno
Um país que sonha - 100 anos de poesia colombiana. Assirio&Alvim

segunda-feira, maio 07, 2012

quarta-feira, maio 02, 2012

a luta (não) continua


oito horas para dormir, oito horas para trabalhar, oito horas para ir às compras promocionais e agredir quem se atreva a cruzar o seu caminho. oito vezes três, vinte e quatro horas de vida na sua mais absoluta plenitude.

terça-feira, maio 01, 2012

É tabu


Fui ver o premiado, badalado, elogiado último filme do Miguel Gomes. Não quero falar sobre isso.

sábado, abril 28, 2012

são os loucos de lisboa

Porque é sábado à noite, chove e troveja  e um copo de bom vinho tinto lembra-me o Inverno. Há muitas ideias que povoam sempre, em alturas como estas, a minha cabeça: andava há que tempos para partilhar isto e, agora mesmo, um jornal semanário relembrou-me da urgência dessa intenção.

quinta-feira, abril 26, 2012

descobertas a 25 de Abril

Ontem, duas coisas espantosas:

O filme "Florbela" que nos mostra um curto periodo da vida de Florbela Espanca em que foi particularmente infeliz e por isso pouco escreveu. Excelente Dalila, Ivo e Albano. Comovente pela história, claro, mas também por saber que os realizadores portugueses da minha geração dão esperança e qualidade à cultura em Portugal;

Documentário "Os donos de Portugal": estava aberto o 25 de Abril há quase duas horas quando o canal 2 passou este documentário que explica, através da serena voz de Fernando Alves, por quem é (e como é), na verdade, o nosso país governado, praticamente sem interrupções, desde há 150 anos . Não é panfletário, é histórico. Talvez entendamos melhor a razão pela qual a crise actual decorre essencialmente da nossa elite, fraca a governar, óptima a cuidar de si.

terça-feira, abril 24, 2012

Até que a morte os separe


José Mascarenhas acordara com o raiar do sol ao som do batuque de uma pequena obra que decorria na sua casa. Ao seu lado, ainda sonhando,Olinda, sua mulher, vinte e cinco anos mais nova, gabada por todo o Recife pela graciosidade e beleza.
Orgulhoso das suas escolhas e dos seus negócios, cumpria a rotina matinal, criados atarefados, indumentária apropriada, impecável, pequeno-almoço completo, sereno e em família.
O dia seria um novo desafio. Cuidar dos seus negócios, administrar o fluxo de escravos para que a produção não decresça, passear o seu sucesso pelos sítios emblemáticos da cidade onde se reúne, em alguns fins de tarde, a mais fina elite.
Hoje era um dia especial. Um jantar meticulosamente organizado, família e negócios, numa mesa farta e civilizada, um evento a não esquecer.
Olinda apresentou-se mais bonita que nunca. O seu vestido azul-cobalto estava em todo o lado naquele jantar. A noite, menos quente que o habitual, conduzia as conversas recheadas de planos futuros. Servido o último prato, José pede a atenção de todos os convidados e inicia o peculiar relato da traição da sua mulher com um jovem oficial do exército. Olinda, chora, muda e seu vestido azul-cobalto dilui-se na tristeza, agora à vista de todos, que era a sua vida desde o dia que fora obrigada a casar com aquele homem. No final do frio relato, José sugere que todos passem à sala contígua onde tinha sido, por sua ordem, aberto um enorme rasgo numa das grossas paredes. Olinda sabia que a sua hora chegara, fechou os olhos, cerrou a alma e entrou para aquele buraco onde, de seguida, um escravo a emparedaria, repondo a estética impoluta daquela sala de música. No caminho para o alpendre, onde seria, em seguida, servido o melhor licor caseiro aos convidados, José começou a sonhar com Rosa, a filha mais nova, casadoira, de um dos seus melhores amigos.

Nota: “As emparedadas da Rua Nova “ é uma verdade histórica incontornável. Em algumas demolições daquela rua abastada de Recife, Brasil  foram encontradas várias ossadas de mulheres adúlteras, incorporadas, assim literalmente, há dois, três séculos nas propriedades dos seus maridos.

sábado, abril 21, 2012

Sai um poema bem passado...

...para acompanhar uma ida à Tasca do Sol

Quotidiano

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
Nuno Júdice, Meditação sobre Ruínas

sexta-feira, abril 20, 2012

Um mar de saudades


Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto ao mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, abril 19, 2012

terça-feira, abril 17, 2012

Saturno





A força de Marte invade-nos, a encantos de Vénus conquistam-nos, o poder de Júpiter inebria-nos. Depois há o meu planeta preferido, Saturno e seus anéis, dois pianos e todo o tempo do universo para o descobrirmos.

domingo, abril 15, 2012

(ainda) O amor









Nas minhas leituras deparei-me com uma passagem interessante acerca do amor e da paixão e da (paradoxal?) violência que eles contêm (Neil Gaiman):


"Estiveste alguma vez apaixonado? É horrivel não é? Fica-se tão vulnerável. Ficas com o peito e o coração abertos a outra pessoa que pode entrar dentro de ti e revolver-te por dentro. Constróis todas essas defesas, constróis toda uma armadura que te cobre de alto a baixo para que ninguém te possa ferir, e depois uma pessoa estúpida atravessa-se na tua estúpida vida... Dás-lhe um bocado de ti. Não to pediram. Fizeram um dia uma estupidez qualquer, como beijar-te ou sorrir-te, e a tua vida deixou daí em diante de ser tua. O amor faz reféns. Entra dentro de ti. Come-te e deixa-te a chorar no escuro, e é assim que uma simples frase do tipo "talvez devêssemos só amigos" se transforma num estilhaço de vidro que vai direito ao coração. Dói. Não é só imaginação. Não é só mental. É uma dor na alma, uma dor real que invade e te rasga e te parte. Odeio o amor."



É um discurso duro mas comum. Há muito azedume nesta verdade que me parece estranha. Aqui entram a peneira e a contabilidade. A peneira porque, devagar, aprendemos a distinguir amor de hedonismo, de medo da solidão, de desejo pontual, de projecção idilica, de cenário propício a representações sociais. A contabilidade porque, no compto do deve e do haver, sobra sempre qualquer coisa boa - ainda que só uma coisa boa - para nos fazer relembrar que há outras pessoas por aí, bondosas, encantadoras que têm a suprema pretensão de saber o que é o amor e isso inabilita-as, em definitivo, para o odiarem.

quinta-feira, abril 12, 2012

Pós Páscoa



Tenho conversado muito. Dito e ouvido muitas palavras. Descanso agora um pouco, boca e ouvidos dormentes, sorriso aberto. Isto de contar e ouvir histórias pode ser tão cansativo como limpar minuciosamente as flores de plástico que a minha avó insistia em espalhar pela sua casa. Pode ser desgastante como ouvir o Pablo e a Carminho num sonho que até aí estava a ir muito bem. Pode ser revigorante como um mergulho ao largo de Sesimbra e descobrir que naquelas águas existem maravilhas, não só suburbanos domingueiros.

Agora escrevo de novo por aqui tentando que os meus dedos malabaristas não resistam a este circo excêntrico que é, por estes dias, o meu teclado.

sábado, março 24, 2012

Sempre a propósito


A propósito de uma conversa com alguém um pouco adoentado de desilusão e do meu remédio para a cura, ler mais poesia, deixo-vos aqui uma entrevista já antiga com um poeta italiano me comove, Tonino Guerra. A sua morte recente relembrou o mundo do que escreveu, um poeta guionista responsável, por exemplo, por dois filmes que adoro: Amarcord e La Nave va. Para que possamos não esquecer que todos somos, despretenciosamente, poetas quando nos conseguimos, por momentos, libertar.

quarta-feira, março 14, 2012

Beleza Pura



Acordar e lembrar-me que também sou assim uma esteta irremediável.

terça-feira, março 13, 2012

Atravessá-lo e (quase) esquecê-lo


Deserto


"Dantes havia homens que se retiravam para o deserto. Para melhor se conhecerem, para comunicarem com Deus, mas nenhum -penso - para conhecer o deserto. Alimentavam-se de mel e gafanhotos, quando não jejuavam.

Agora foi o deserto que se instalou no meio de nós. E os seus desígnios não são menos obscuros."




Jorge de Sousa Braga



sexta-feira, março 09, 2012

Day after

No dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher não se vê ninguém com flores nas mãos.

segunda-feira, março 05, 2012

A arca

A arca onde Fernando Pessoa guardava O tesouro está agora inserida numa comovente exposição na Gulbenkian sobre a sua poesia. Sentir, tocar na poesia dos múltiplos heterónimos é uma experiência imperdível.




Regras de vida


1. Faz o menor número de confidências possível. É melhor não fazeres nenhuma mas se fizeres algumas fá-las falsas ou imprecisas;
2. Sonha o menos possível excepto quando o propósito directo do sonho for um poema ou uma obra literária. Estuda e trabalha;
3. Tenta ser o mais sóbrio possível, antecipando a sobriedade do corpo por uma atitude sóbria da mente;
4. Sê amável apenas por simples amabilidade, não abrindo a tua mente ou discutindo livremente os problemas que estão ligados à vida íntima do espirito;
5. Cultiva a concentração, tempera a vontade, faz de ti uma força pensando, o mais intimamente possível, que és realmente uma força;
6. Considera quão poucos amigos verdadeiros tens, porque poucas pessoas são capazes de ser amigos de alguém;
7. Tenta cativar por aquilo que o teu silêncio contém;
8. Aprende a agir prontamente nas pequenas coisas, nas coisas triviais da vida da rua, da vida doméstica, da vida do trabalho, a não tolerares atrasos vindos de ti próprio;
9. Organiza a tua vida como uma obra literária, pondo nela tanta unidade quanta possível;
10. Mata o assassino.



Fernando Pessoa

sexta-feira, março 02, 2012

Um passatempo






Decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são ou outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Até pode parecer que não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?


João Luis Barreto Guimarães in Luz última, 2006