
Uma animada ida ao CBB e uma espantosa exposição do Vik Muniz: arte contemporânea para todos!


Há dias que desperto para Lisboa e ela presenteia-me com ternura, com alegria, com estupefacção (e até mesmo com algum horror). Ontem começou logo pela manhã. Uma lição de ecologia. Montada no híbrido mais mais do mercado, obedecendo a um demorado sinal vermelho, falava alegremente em alta voz enquanto bebia um iogurte líquido e fumava (três coisas, ao mesmo tempo, sim). Arrancou suavemente, não sem antes atirar a beata seguida da embalagem de iogurte pela janela. De regresso a casa, noto uma mulher jovem um pouco adiante no passeio, empurrando um carrinho de bebé e enquanto falava de forma entusiasta com uma outra que a acompanhava. Reparo que lhe faltava pano nas costas da camisola, no seu lugar estavam, lado a lado, em leque, tatuados três bebés com um ar amoroso. No topo de cada um, também tatuada, uma fita ao vento com os respectivos nomes: Cristiana, Fabiana e Venusiana.
Num almoço animado brincavam com a definição de tipo de cada um e de como isso tinha mudado (ou não, em casos de teimosia radical) desde que se lembravam do que é estar apaixonado. Chegou a minha vez de brilhar sob os holofotes. E tu, qual é afinal o teu tipo? Respondi - porque depois de procurar bonito, espantoso, inteligente, criativo, charmoso cheguei a um adjectivo-chave - bondoso. Gargalhada geral. Definitivamente não percebo algumas das (minhas) piadas. 

têm MESMO de ir aqui
Presa em casa num fim de semana trágico, oiço a Amy cantar will you still love me tomorrow e temo pela incerteza, um dos meus maiores medos, um dos meus maiores estimulos.
Tenho ido aos saldos numas quantas horas de almoço em tentativas sucessivas de fazer uns milagres sazonais. Procuro a intemporalidade e talvez uma gabardine a, pelo menos, metade do preço. Encontro flores, folhos, tacões, lantejoulas, números improváveis e cores indescritíveis que florescem em qualquer armário. Encontro amigas tagarelas, homens semeados às portas das lojas e, apáticos, abandonados em cadeiras e sofás, encontro crianças há muito adormecidas sobre rodas. Encontro o que não procuro, ganho fôlego e paciência, e regresso para uma nova tentativa, quiçá, ainda hoje.
Valter Hugo Mãe confessava ontem à Judite de Sousa, numa entrevista a propósito do sucesso na Festa Literária de Paraty , que ansiava ser pai porque guardava um tipo de amor específico, forte, incondicional que só poderia ser activado se tal acontecesse. Um amor inaproveitado que preenche, ali dentro, um enorme vazio.
Descobri Forrest Gump. Tropeçei nele ontem, numa Fox qualquer, mesmo no início. Em 1994 achei que tinha coisas mais importantes que fazer que desperdiçar duas horas a ver o Tom Hanks. Enganei-me. Se há alguém que ainda não viu, não se arme em parvo e não espere outros vinte anos.
Há uns anos descobri que era crescida quando num aniversário infantil, no princípio de uma história que ia contar à pequenada, me perguntaram de quem eu era mãe. Não exerci qualquer admoestação sobre o pequenote mas tenho a certeza que a história saiu menos inspirada. Recentemente convivo mais com uns primos juniores, um mini grupo dinâmico e divertido entre os 2 e os 4 anos. Depressa percebi que me tomam como igual, diluem, como eu, as grandes barreiras cronológicas e não estranham esta Gulliver que os faz rir. Temo que quando crescerem alguém lhes perguntará, nas mesmas circunstâncias, de quem são mães e pais. Adivinha-se indignação, prova de que o ADN não engana.
Encontramo-nos nos funerais. Reconhecemo-nos. Desconhecemo-nos, espantamos, morremos de amor ou de inveja. Rimos perdidos na escuridão daquele humor. Choramos por todos os motivos que já até tínhamos esquecido. Nos funerais fingimos, estar tristes, estar indiferentes, fingimos rezar, penamos por ali estar. Fingimos que a dor tem cor e que apaga todo o cortejo de más memórias. Nos funerais a alma encomendada sussurra fé e medo aos nossos, irremediavelmente egocêntricos, ouvidos. Nos funerais entristecemos, comemoramos, morremos e renascemos. Encontramo-nos também ali, nos funerais.
O fim de ciclo deixa nas minhas mãos recordações que ora se acentuam ora se desvanecem numa ampulheta entupida com os nossos grãos. Confusa, ansiosa, triste, deito-me na relva fresca e tento acompanhar as nuvens que passam apressadas. (Re)memorizo a minha agenda dos próximos dias, prazos, aniversários, reuniões, idas e voltas, respostas. Tudo cancelado. Oiço o 112 ao fundo, aproximando-se apressado da nossa vida, da tua morte. O telefone toca, agora não posso atender, estou naquele barco à vela a caminho da tua foz. Este fim de ciclo é ruidoso e perseverante, contraria-me. Abro o portão, corro escada acima, conduzo, autómata, guiada pelo teu olhar que insiste em não me reconhecer. Entretanto, cá dentro, adormeci, profundamente cansada, sob o sol morno de fim de tarde.
Imagine que é eleito democraticamente deputado para o Parlamento Europeu. Voa para Bruxelas e vai comer nos melhores restaurantes, passar os fins de tarde nas melhores lojas e voar, nos tempos livres, para os melhores destinos. Claro que, no meio de tudo isto, tem tempo para cumprir o seu dever, propor umas coisas, contestar outras, indignar-se frequentemente. Agora imagine um deputado que talvez até faça tudo isto com um bocadinho menos de frequência, mas que põe, todos os meses, 1500€ de lado para atribuir bolsas a projectos de investigação. Imagine se todos os deputados fizessem algo semelhante, se todos se indignassem um bocadinho menos e praticassem um bocadinho mais... imagine.
Ontem, descansando um pouco nesta época em que sinto que não tenho mesmo mãos a medir, fiz um zapping mais demorado por quase todos os canais. Parei numa entrevista com a Ingrid Betancourt que contava, em versão compacta e retocada, a sua experiência de prisioneira na selva, sob o gume das FARC. Ela chegou a um desespero tal que se perguntou afinal que pessoa queria ser. Definiu-a, sem grandes ambições, e transformou-se nessa mesma pessoa que sempre estivera ali dentro, sobreviveu-se. Esqueçamos assim os modelos, as pressões sociais, os equívocos. Devemos ser quem queremos, deixar que essa ambição se torne rotina, que essa rotina, por fim, seja cada um de nós.
Ontem fiquei sentada no sofá, palavras em directo atrás de palavras em directo, cores que se diluem, pessoas eufóricas e adormecidas, ecos que soam melhor que os discursos.
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A triste história de quem opta entre dividir um prémio e dividir uma vida. Suponho que a opção final é baseada na promessa de juros mais elevados a curto prazo. Ninguém ponderou o investimento de risco elevado na mágoa.
Escutem - não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras.
Finalmente percebi o sucesso "socrático" no nosso país. Tal como os italianos, que caricaturam Berlusconi mas no fundo morrem de inveja dele, deificando-o porque é rico e tem uma vida cansativa de "bunga bunga". Tal como os italianos, dizia, nós, os portugueses, olhamos para a vida de um tipo que vem de uma Câmara da Beira Alta onde avalizou construções improváveis, um tipo que se licencia numa universidade série Z a um domingo, que domina na perfeição de "Camarinha" o inglês técnico, que gasta metade do ordenado num fato Armani, que tem um apartamento num prémio Valmor ao preço da chuva, que manipula os Media na perfeição, que quando fica feliz diz "porreiro, pá", que abandona elementos da sua equipa quando já não lhe são úteis, olhamos para este tipo, recordando a escada rolante de esperteza para o sucesso, e sentimos uma vontade incontrolável de colocar uma cruz no sítio errado no boletim de voto.
A entrevista da "Única" do Expresso desta semana com Alain de Botton, o homem que vê os aeroportos com os meus olhos, que se revitaliza sem psicanálise, partindo dos dias que todos atravessamos para dar consistência e profundidade ao pensamento.
O que acontece quando se juntam uma das nossas melhores actrizes -Maria João Luis - , uma das nossas melhores cantoras - Manuela Azevedo -, um dos nossos melhores músicos - José Peixoto - e um dos nossos melhores poetas - João Monge? Ontem, na estreia, satisfiz esta minha curiosidade: um dos nossos melhores espectáculos.
Na mala, para cá e para lá, "Menos por Menos" e "Tradutor de Chuvas", os mais recentes livros de poesia, respectivamente, do Pedro Mexia e do Mia Couto. Deixo-vos o meu poema preferido deste último.
Ruy Belo
Quis partilhar a crónica do Professor Boaventura Sousa Santos que sairá amanhã na revista Visão. Temos mesmo de (reaprender a) pensar o país.
Impedia-te a vida, uma mulher, três filhos, um oceano, uma carreira de sucesso. Impedias-te, a tua educação vagamente católica, o olhar de reprovação da tua mãe, o medo de falhar, as saudades da vista para o mar do teu apartamento luminoso. O jogo não era bom mas no bluff és mestre. Viraste todos os impedimentos, saltaste no vazio, no silêncio da queda ouvias, pela primeira vez, o bater do coração. Acordaste sereno, sorrindo, invadido pelo cheiro provocante do pequeno almoço que te preparava. Adormeceste de novo, profundamente. Despertaste ao som de uma disputa entre os teus filhos. A tua mulher, maçada, saíra para caminhar com as amigas do condomínio. Na tua cabeça ainda e sempre o sonho ancorado em impedimentos. O teu peito permanecia silencioso. Era um domingo igual a todos, era um domingo igual a ti.