terça-feira, setembro 27, 2011

Inspiração



Uma animada ida ao CBB e uma espantosa exposição do Vik Muniz: arte contemporânea para todos!

sexta-feira, setembro 16, 2011

Rentrée



Já vivem cá em casa, numa gavetinha mágica, os bilhetes para:



É como diz o outro - no Casino de Lisboa

As lágrimas amargas de Petra Von Kant - Teatro Nacional D. Maria II

Quem tem medo de Virginia Woolf? - Teatro Nacional D. Maria II



E depois não digam que não avisei.

Porque a minha vida dava um post-it...

... suspeito que a vossa também!

quinta-feira, setembro 15, 2011

De viagem

Depois de tantos meses trancada em casa estou outra vez livre, ou seja, de viagem.

"I haven’t been everywhere, but it’s on my list."

Susan Sontag

sexta-feira, setembro 09, 2011

animação fashion




Depois de jantar com um amigo numa esplanada da Av. da Liberdade, fui enredada no meio da Vogue Fashion's Night Out, um evento que se traduz na abertura fora de horas das lojas mais ou menos in de Lisboa projectando, para o exterior, a intrinsecamente inaudível dance music acompanhando tudo com as clássicas mulheres semi-nuas bamboleantes, uma pitada de red carpet e bebidas à borla e de má qualidade. Depois os (magotes de) transeuntes: os surpreendidos, os curiosos, os fashion addicted, os turistas, os alcoolicos que ingerem compulsivamente cocktails e aqueles que acham que é boa altura para expor o vestido usado no casamento do familiar emigrante no passado Agosto. Crise vê-se nos sacos luxuosos gigantes que se passeavam com brindes e compras: porta-chaves, t-shirts, peúgas e, o delírio, um cinto muito fininho com um logótipo da marca muito grande.
Resumindo: Lisboa está ainda em muito boa idade para entrar nestes delírios, mas, estou certa, o tempo não perdoa e hoje a ressaca é brutal.

domingo, setembro 04, 2011

é simples



"Porque a gente dobra a dor debaixo do braço como o jornal da tarde."


Margarida Carpinteiro,

ninguém morre de véspera, ed. rolim, 1985

sexta-feira, setembro 02, 2011

citação não sei de quem, lida não sei onde

Não importa o que fizeram contigo mas o que tu fizeste com o que fizeram contigo.

quarta-feira, agosto 31, 2011

A paciência que sou



(...)

Minha luz dos olhos que eu vi nascer

Num dia tao breve a clarear

As águas do rio são de correr

Cada vez mais perto sem parar

Sou como o morcego vejo sem ver

Sou como o sossego sei esperar.



Zeca Afonso, Canção da Paciência

terça-feira, agosto 30, 2011

Inesquecivel



No dia em que resolvi partir ouvi-a em todos os lugares por onde passei. Na terra molhada da infância, na longa estrada que percorremos algumas férias, no riso radioso quando o (re)conheceste nos meus braços, na discussão que nos trouxe a mais cómica das rouquidões. Um uníssono que me lembrava a única coisa que tive a certeza durante toda a vida: a minha memória de ti é imortal.

Lisboa à vista

Há dias que desperto para Lisboa e ela presenteia-me com ternura, com alegria, com estupefacção (e até mesmo com algum horror). Ontem começou logo pela manhã. Uma lição de ecologia. Montada no híbrido mais mais do mercado, obedecendo a um demorado sinal vermelho, falava alegremente em alta voz enquanto bebia um iogurte líquido e fumava (três coisas, ao mesmo tempo, sim). Arrancou suavemente, não sem antes atirar a beata seguida da embalagem de iogurte pela janela. De regresso a casa, noto uma mulher jovem um pouco adiante no passeio, empurrando um carrinho de bebé e enquanto falava de forma entusiasta com uma outra que a acompanhava. Reparo que lhe faltava pano nas costas da camisola, no seu lugar estavam, lado a lado, em leque, tatuados três bebés com um ar amoroso. No topo de cada um, também tatuada, uma fita ao vento com os respectivos nomes: Cristiana, Fabiana e Venusiana.

terça-feira, agosto 16, 2011

dormir

E depois de tudo, cansada, esgotada, há uma cama na minha vida que me espera pacientemente em casa. Bons sonhos!

quarta-feira, agosto 10, 2011

Não percebi

Num almoço animado brincavam com a definição de tipo de cada um e de como isso tinha mudado (ou não, em casos de teimosia radical) desde que se lembravam do que é estar apaixonado. Chegou a minha vez de brilhar sob os holofotes. E tu, qual é afinal o teu tipo? Respondi - porque depois de procurar bonito, espantoso, inteligente, criativo, charmoso cheguei a um adjectivo-chave - bondoso. Gargalhada geral. Definitivamente não percebo algumas das (minhas) piadas.

domingo, agosto 07, 2011

às voltas...


... na minha cabeça nos últimos dias.

sábado, agosto 06, 2011

A consistência da utopia




"Acresce que uma ideia inovadora é sempre utópica antes de se transformar em realidade. Finalmente, porque muitos dos nossos sonhos foram reduzidos ao que existe e o que existe é muitas vezes um pesadelo, ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no início do século XXI."






Boaventura Sousa Santos in "Portugal: Ensaio contra a autoflagelação"Almedina, 2011

quinta-feira, agosto 04, 2011

Diagnostic: too much Oprah



Forgiveness is giving up the hope that the past could've been any different.

sábado, julho 30, 2011

Cachorro



" O mais nobre de todos os cachorros é o cachorro quente: ele alimenta a mão que o morde".


Laurence Johnston Peter (hoje, na Única - Expresso).

terça-feira, julho 26, 2011

é este o ano




Para quem gosta, simultaneamente, de


  • arte contemporânea

  • vinho verde de qualidade

  • longos banhos de rio

  • adormecer debaixo de um salgueiro

  • descobrir novas constelações

têm MESMO de ir aqui

segunda-feira, julho 25, 2011

Incerteza

Presa em casa num fim de semana trágico, oiço a Amy cantar will you still love me tomorrow e temo pela incerteza, um dos meus maiores medos, um dos meus maiores estimulos.

sexta-feira, julho 22, 2011

em saldo

Tenho ido aos saldos numas quantas horas de almoço em tentativas sucessivas de fazer uns milagres sazonais. Procuro a intemporalidade e talvez uma gabardine a, pelo menos, metade do preço. Encontro flores, folhos, tacões, lantejoulas, números improváveis e cores indescritíveis que florescem em qualquer armário. Encontro amigas tagarelas, homens semeados às portas das lojas e, apáticos, abandonados em cadeiras e sofás, encontro crianças há muito adormecidas sobre rodas. Encontro o que não procuro, ganho fôlego e paciência, e regresso para uma nova tentativa, quiçá, ainda hoje.

um amor

Valter Hugo Mãe confessava ontem à Judite de Sousa, numa entrevista a propósito do sucesso na Festa Literária de Paraty , que ansiava ser pai porque guardava um tipo de amor específico, forte, incondicional que só poderia ser activado se tal acontecesse. Um amor inaproveitado que preenche, ali dentro, um enorme vazio.

quinta-feira, julho 21, 2011

Who gives a damn? Everybody!




"O rating é uma opinião sobre a capacidade e vontade de uma entidade vir a cumprir de forma atempada e na íntegra determinadas responsabilidades". Rating fazemos nós todos os dias quando julgamos, quando opinamos, quando supomos sobre dados que cremos indesmentivelmente objectivos. As agências de rating dos amigos, dos colegas de trabalho, dos esposos desconfiados, dos vizinhos atentos à vida da rua. Se todos os portugueses opinassem sobre Portugal, seríamos há muito lixo só que não reciclável e profundamente tóxico. Incinerados em Souselas daríamos, pelo menos, um contributo significativo para o buraco do ozono.

quarta-feira, julho 20, 2011

Gump forever

Descobri Forrest Gump. Tropeçei nele ontem, numa Fox qualquer, mesmo no início. Em 1994 achei que tinha coisas mais importantes que fazer que desperdiçar duas horas a ver o Tom Hanks. Enganei-me. Se há alguém que ainda não viu, não se arme em parvo e não espere outros vinte anos.



"Lieutenant Daniel Taylor: Have you found Jesus yet, Gump?

Forrest Gump: I didn't know I was supposed to be looking for him, sir."


"Forrest Gump: My momma always said, "Life was like a box of chocolates. You never know what you're gonna get."

quinta-feira, julho 14, 2011

ADN

Há uns anos descobri que era crescida quando num aniversário infantil, no princípio de uma história que ia contar à pequenada, me perguntaram de quem eu era mãe. Não exerci qualquer admoestação sobre o pequenote mas tenho a certeza que a história saiu menos inspirada. Recentemente convivo mais com uns primos juniores, um mini grupo dinâmico e divertido entre os 2 e os 4 anos. Depressa percebi que me tomam como igual, diluem, como eu, as grandes barreiras cronológicas e não estranham esta Gulliver que os faz rir. Temo que quando crescerem alguém lhes perguntará, nas mesmas circunstâncias, de quem são mães e pais. Adivinha-se indignação, prova de que o ADN não engana.

sexta-feira, julho 08, 2011

Encontramo-nos lá

Encontramo-nos nos funerais. Reconhecemo-nos. Desconhecemo-nos, espantamos, morremos de amor ou de inveja. Rimos perdidos na escuridão daquele humor. Choramos por todos os motivos que já até tínhamos esquecido. Nos funerais fingimos, estar tristes, estar indiferentes, fingimos rezar, penamos por ali estar. Fingimos que a dor tem cor e que apaga todo o cortejo de más memórias. Nos funerais a alma encomendada sussurra fé e medo aos nossos, irremediavelmente egocêntricos, ouvidos. Nos funerais entristecemos, comemoramos, morremos e renascemos. Encontramo-nos também ali, nos funerais.

terça-feira, junho 28, 2011

fim de ciclo

O fim de ciclo deixa nas minhas mãos recordações que ora se acentuam ora se desvanecem numa ampulheta entupida com os nossos grãos. Confusa, ansiosa, triste, deito-me na relva fresca e tento acompanhar as nuvens que passam apressadas. (Re)memorizo a minha agenda dos próximos dias, prazos, aniversários, reuniões, idas e voltas, respostas. Tudo cancelado. Oiço o 112 ao fundo, aproximando-se apressado da nossa vida, da tua morte. O telefone toca, agora não posso atender, estou naquele barco à vela a caminho da tua foz. Este fim de ciclo é ruidoso e perseverante, contraria-me. Abro o portão, corro escada acima, conduzo, autómata, guiada pelo teu olhar que insiste em não me reconhecer. Entretanto, cá dentro, adormeci, profundamente cansada, sob o sol morno de fim de tarde.

terça-feira, junho 21, 2011

Coerência e reconhecimneto

Era uma vez um casal israelita que se conheceu via facebook. O amor frutificou, casaram e tiveram uma filha. Que nome querem colocar à criança? É evidente meus caros: Like.


(história verídica contada hoje no Jornal I).

sábado, junho 18, 2011

quotidiano e sonhos simples (ainda) de criança

quando for grande

quando for grande
quero uma mão
que tenha a forma
do coração.

quando for grande
quero uma ponte
que chegue à linha
do horizonte.

quando for grande
quero um olhar
que chegue ao fundo
de céu e mar.


josé fanha

sexta-feira, junho 10, 2011

Imagine

Imagine que é eleito democraticamente deputado para o Parlamento Europeu. Voa para Bruxelas e vai comer nos melhores restaurantes, passar os fins de tarde nas melhores lojas e voar, nos tempos livres, para os melhores destinos. Claro que, no meio de tudo isto, tem tempo para cumprir o seu dever, propor umas coisas, contestar outras, indignar-se frequentemente. Agora imagine um deputado que talvez até faça tudo isto com um bocadinho menos de frequência, mas que põe, todos os meses, 1500€ de lado para atribuir bolsas a projectos de investigação. Imagine se todos os deputados fizessem algo semelhante, se todos se indignassem um bocadinho menos e praticassem um bocadinho mais... imagine.

quarta-feira, junho 08, 2011

Zapping de vida

Ontem, descansando um pouco nesta época em que sinto que não tenho mesmo mãos a medir, fiz um zapping mais demorado por quase todos os canais. Parei numa entrevista com a Ingrid Betancourt que contava, em versão compacta e retocada, a sua experiência de prisioneira na selva, sob o gume das FARC. Ela chegou a um desespero tal que se perguntou afinal que pessoa queria ser. Definiu-a, sem grandes ambições, e transformou-se nessa mesma pessoa que sempre estivera ali dentro, sobreviveu-se. Esqueçamos assim os modelos, as pressões sociais, os equívocos. Devemos ser quem queremos, deixar que essa ambição se torne rotina, que essa rotina, por fim, seja cada um de nós.

segunda-feira, junho 06, 2011

Ressaca eleitoral

Ontem fiquei sentada no sofá, palavras em directo atrás de palavras em directo, cores que se diluem, pessoas eufóricas e adormecidas, ecos que soam melhor que os discursos.
Portugal tem dificuldade em apaixonar-se. Saltamos de relação em relação numa estratégia insana de fuga para a frente. O argumento para mudar é irrepreensível: já não aguentamos mais. Não amamos o futuro mas odiamos o passado. Fecham-se ciclos por fastio, ligeira desilusão, por irresponsabilidade viciante. Desiste-se do Norte de África porque já não está a dar, atravessamos todos os oceanos primeiros cheios de esperança, de regresso mergulhados em tédio. Os franceses vinham por aí, Portugal já não estava a dar, buscámos o Brasil e depois voltámos, enjoados de tropicalidade. Aguentámos guerras e ditaduras, deixando que o tempo decida por nós. Casamos por conveniência e escrevemos poesia sobre essa infinita tristeza que nos dá o conformismo. Há muito que não ouvimos bater o nosso coração. Talvez o tenhamos deixado pendurado na ponta das armas junto com os cravos vermelhos, talvez abandonado num porão de uma nau afundada pela ganância.

Portugal tem dificuldade em apaixonar-se, cai institivamente nos braços ténues da sua própria esperança, cheio de azedume. Talvez Portugal, cansado, faça tudo para não ter de suportar a solidão.

terça-feira, maio 24, 2011

Uma declaração de amor...

...a




Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de
ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na
piscina municipal de Braga
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.



Jorge de Sousa Braga

segunda-feira, maio 23, 2011

Triste

A triste história de quem opta entre dividir um prémio e dividir uma vida. Suponho que a opção final é baseada na promessa de juros mais elevados a curto prazo. Ninguém ponderou o investimento de risco elevado na mágoa.

terça-feira, maio 17, 2011

O sorriso que guardamos


Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém(eu provavelmente)
nunca tivesse existido.

Manuel António Pina, Um Sítio Onde Pousar A Cabeça(1991)
Prémio Camões 2011

Em frente

"Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem."

Rosa do Luxemburgo

quarta-feira, maio 04, 2011

Cool

É o estado de espirito do país quando, após declarações públicas do 1º Ministro demissionário, se percebeu que isto da Troika e da ajuda externa até é, pelos vistos, uma coisa boa.

segunda-feira, maio 02, 2011

Bin, Bam, Bum!

Escutem - não existe nenhuma guerra que acabe com todas as guerras.


Haruki Murakami

Confirmado, não consigo dizer melhor que aqui

Recomeçar



Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...



Miguel Torga

domingo, maio 01, 2011

Coisas que não devemos deixar de dizer

Com a minha mãe será sempre assim.
No Ípsilon (Público) esta sexta feira numa entrevista ao Pedro Mexia:

"A minha experiência do amor é a de que é castigo e recompensa ao mesmo tempo".

quarta-feira, abril 27, 2011

Perigo: berlusconi globalizado

Finalmente percebi o sucesso "socrático" no nosso país. Tal como os italianos, que caricaturam Berlusconi mas no fundo morrem de inveja dele, deificando-o porque é rico e tem uma vida cansativa de "bunga bunga". Tal como os italianos, dizia, nós, os portugueses, olhamos para a vida de um tipo que vem de uma Câmara da Beira Alta onde avalizou construções improváveis, um tipo que se licencia numa universidade série Z a um domingo, que domina na perfeição de "Camarinha" o inglês técnico, que gasta metade do ordenado num fato Armani, que tem um apartamento num prémio Valmor ao preço da chuva, que manipula os Media na perfeição, que quando fica feliz diz "porreiro, pá", que abandona elementos da sua equipa quando já não lhe são úteis, olhamos para este tipo, recordando a escada rolante de esperteza para o sucesso, e sentimos uma vontade incontrolável de colocar uma cruz no sítio errado no boletim de voto.

sábado, abril 23, 2011

Reflexão pascal



O homem que reclama junto da CP por querer pagar um bilhete que não lhe foi cobrado é notícia. O país assente em, dizem, valores católicos convive com ligeireza com o oportunismo e a esperteza de quem chega rápido onde quer, ainda que trilhando sobre vidas alheias. Vide a biografia de muitos dos nossos actuais políticos.

O homem que reclama, que defende que não quer contribuir para o défice da CP, que se indigna pelo não cumprimento das regras justas, é notícia. É um otário, sintetizam alguns. O problema é que sem estes otários não somos um país, uma sociedade altruísta definida pela honestidade, partilha, pela cidadania activa.

As maiorias transformam-se assim, lentamente, em minorias. As elites deixam-se comprar ou fogem fingindo emigrarem, as que resistem são adormecidas ao som das vãs lutas políticas. O povo apascenta as suas pequenas dores ao sol. Os otários e o país estão em vias de extinção. Por isso somos notícia.

sábado, abril 16, 2011

Para ler à sombra

A entrevista da "Única" do Expresso desta semana com Alain de Botton, o homem que vê os aeroportos com os meus olhos, que se revitaliza sem psicanálise, partindo dos dias que todos atravessamos para dar consistência e profundidade ao pensamento.

sexta-feira, abril 15, 2011

Um poema em palco

O que acontece quando se juntam uma das nossas melhores actrizes -Maria João Luis - , uma das nossas melhores cantoras - Manuela Azevedo -, um dos nossos melhores músicos - José Peixoto - e um dos nossos melhores poetas - João Monge? Ontem, na estreia, satisfiz esta minha curiosidade: um dos nossos melhores espectáculos.

A Lua de Maria Sem, uma peça que é um poeta dito, visto, cantado. Para embalar, só até domingo no Teatro S. Luis em Lisboa

quarta-feira, abril 13, 2011

Novidades na mala

Na mala, para cá e para lá, "Menos por Menos" e "Tradutor de Chuvas", os mais recentes livros de poesia, respectivamente, do Pedro Mexia e do Mia Couto. Deixo-vos o meu poema preferido deste último.

Medos

Medo do amor quando tudo é fome.

E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.

Medo de sermos
só eu e tu a humanidade.
E morrermos de tanta eternidade




Mia Couto

terça-feira, abril 12, 2011

Ando na fase da citação...



... o que talvez fique a milhas de qualquer uma das fases freudianas, mas é o que temos.


Retirei este texto de um blog desempoeirado que frequento, umas vezes aderindo, outras resmungando, mas sempre reconhecendo que, à sua maneira, é muito bom.


Fica aqui mais uma visão enunciativa do nosso...



Portugal


"Portugal e o Euro 2004. Portugal e as Scuts. Portugal e o Magalhães. Portugal e os ordenados dos gestores. Portugal vendida como uma puta de praias paradisíacas e campos de golf. Portugal e as “novas oportunidades”. Portugal e os ídolos, as Lyonces Viiktoryas, a idolatria dos cristianos e do novo-riquismo analfabeto e com interminável tempo de antena. Portugal e os seus pequenos líderes corruptos que se rastejam nos parlamentos, autarquias, campos de futebol, platôs de televisão sem limites, sem consequências, sem castigo. Portugal e o espólio da nossa identidade, com bandeiras patrocinadas por bancos, o hino como reclame publicitário, a História como passatempo de governantes ignorantes. Portugal e os ares de superioridade, esbanjando fortunas emprestadas, desperdiçando fundos que se nos confiaram para crescer, ser melhores, estar na linha da frente. Portugal e os tratados e as cimeiras e as passadeiras vermelhas para ditadores, déspotas regionais, vilõezecos com barris de petróleo. Portugal e o envelhecimento de um interior que vai da fronteira com Espanha até às portagens da ponte 25 de Abril. Portugal e os recibos verdes e o salário mínimo e a precariedade e um carro para cada membro da família e as férias de três semanas no Algarve e os maiores centros comerciais da Europa e cartões gold e bilhetes esgotados para qualquer concerto no Pavilhão Atlântico. Portugal e os sonhos de grandeza. Portugal e o resgate".

quinta-feira, abril 07, 2011

é preciso poesia, porra!

(um pôr do sol só meu,S.Miguel, Açores, 09.2006)

Pôr do Sol na Boa-Nova


mar alma na tarde morta

que cortas dedos na luz

abro-me todo: sou porta

que só contigo transpus.

Ruy Belo

quarta-feira, abril 06, 2011

Inconformismo e Criatividade

Quis partilhar a crónica do Professor Boaventura Sousa Santos que sairá amanhã na revista Visão. Temos mesmo de (reaprender a) pensar o país.

"É hoje consensual que o capitalismo necessita de adversários credíveis que actuem como correctivos da sua tendência para a irracionalidade e para a auto-destruição, a qual lhe advém da pulsão para funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor-se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza, por mais anti-sociais e injustas que sejam as consequências. Durante o século XX esse correctivo foi a ameaça do comunismo e foi a partir dela que, na Europa, se construiu a social-democracia (o modelo social europeu e o direito laboral). Extinta essa ameaça, não foi até hoje possível construir outro adversário credível a nível global. Nos últimos trinta anos, o FMI, o Banco Mundial, as agências de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo. Têm surgido adversários credíveis a nível nacional (muitos países da América Latina) e, sempre que isso ocorre, o capitalismo recua, retoma alguma racionalidade e reorienta a sua pulsão irracional para outros espaços. Na Europa, a social-democracia começou a ruir no dia em que caiu o Muro de Berlim. Como não foi até agora possível reinventá-la, o FMI intervém hoje na Europa como em casa própria.

Poderá surgir em Portugal algum adversário credível capaz de impedir que o país seja levado à bancarrota pela irracionalidade das agências de rating apostadas em produzir a realidade que serve os interesses dos especuladores financeiros que as controlam com o objectivo de pilhar a nossa riqueza e devastar as bases da coesão social? É possível imaginar duas vias por onde pode surgir um tal adversário.

A primeira é a via institucional: líderes democraticamente eleitos reúnem o consenso das classes populares (contra os media conservadores e os economistas encartados) para praticar um acto de desobediência civil contra os credores e o FMI, aguentam a turbulência criada e relançam a economia do país com maior inclusão social. Foi isto que fez Nestor Kirchner, Presidente da Argentina, em 2003. Recusou-se a aceitar as condições de austeridade impostas pelo FMI, dispôs-se a pagar aos credores apenas um terço da dívida nominal, obteve um financiamento de três biliões de dólares da Venezuela e lançou o país num processo de crescimento anual de 8% até 2008. Foi considerado um pária pelo FMI e seus agentes. Quando morreu, em 2010, o mesmo FMI, com inaudita hipocrisia, elogiou-o pela coragem com que assumira os interesses do país e relançara a economia. Em Portugal, um país integrado na UE e com líderes treinados na ortodoxia neoliberal, não é crível que o adversário credível possa surgir por via institucional. O correctivo terá de ser europeu e Portugal perdeu a esperança de esperar por ele no momento em que o PSD, de maneira irresponsável, pôs os interesses partidários acima dos interesses do país.

A segunda via é extra-institucional e consiste na rebelião dos cidadãos inconformados com o sequestro da democracia por parte dos mercados financeiros e com a queda na miséria de quem já é pobre e na pobreza de quem era remediado. A rebelião ocorre na rua mas visa pressionar as instituições a devolver a democracia aos cidadãos. É isto que está a ocorrer na Islândia. Inconformados com a transformação da dívida de bancos privados em dívida soberana (o que aconteceu entre nós com o escandaloso resgate do BPN), os islandeses mobilizaram-se nas ruas, exigiram uma nova Constituição para defender o país contra aventureiros financeiros e convocaram um referendo em que 93% se manifestaram contra o pagamento da dívida. O parlamento procurou retomar a iniciativa política, adoçando as condições de pagamento mas os cidadãos resolveram voltar a organizar novo referendo, o qual terá lugar a 9 de Abril. Para forçar os islandeses a pagar o que não devem as agências de rating estão a usar contra eles as mesmas técnicas de terror que usam contra os portugueses.

No nosso caso é um terror preventivo dado que os portugueses ainda não se revoltaram. Alguma vez o farão?"

sábado, abril 02, 2011

Onde não chega a crise


"Pergunto-me se o amor está em crise. Se os beijos vão caindo a pique na bolsa.Se há cada vez mais mãos dadas no desemprego e se o preço dos olhares amantes também será afectado.

Parece que o número de solteiros já está a desiquilibrar a Balança Comercial e que a Dívida Pública gerada pelos divórcios é intransponível.

Contudo li em qualquer lado de referência que, segundo especialistas, a grande preocupação é a questão do romantismo.

Parece que o gap entre românticos e os não românticos vai triplicar nos próximos anos e que o romantismo médio per capita está cada vez mais detiorado. Sem falar nos empréstimos de romantismo a crédito aos filmes lamechas.

De acordo com a mesma fonte, o PIB das cartas de amor é inferior à média da U.E. e o BCE está a estudar a hipótese de empréstimo mas como não tem papel perfumado é complicado.

As pessoas acabam por buscar soluções mais económicas como conhecer pessoas e namorar pelo facebook o que, consequentemente, tem impacto bastante negativo na indústria do calçado, das floristas e dos chocolates.(...) Eu acho que o que mudou foi a taxa de câmbio do romantismo e as pessoas ainda não sabem fazer as contas. Porque romântico é comprar voos da Ryan Air para fazer surpresas à pessoa amada. É romântico dedicar videos no you tube. é romântico mandar beijinhos para a câmara web enquanto se fala pelo skype(...) É romântico ceder lugar num transporte público.

De modo que se o amor estiver em crise, eu sou apologista de um afluxo interno e externo de ternura e carinho, de divisas indivisiveis para a sua rápida recuperação. Porque, como vimos, o romantismo está em alta parecendo que não."

A. Schutz

sexta-feira, abril 01, 2011

Obrigada


"O caminho para casa de um amigo nunca é longo"

(...obrigada por teres vindo)

Provérbio dinamarquês

quinta-feira, março 31, 2011

Domingo

Impedia-te a vida, uma mulher, três filhos, um oceano, uma carreira de sucesso. Impedias-te, a tua educação vagamente católica, o olhar de reprovação da tua mãe, o medo de falhar, as saudades da vista para o mar do teu apartamento luminoso. O jogo não era bom mas no bluff és mestre. Viraste todos os impedimentos, saltaste no vazio, no silêncio da queda ouvias, pela primeira vez, o bater do coração. Acordaste sereno, sorrindo, invadido pelo cheiro provocante do pequeno almoço que te preparava. Adormeceste de novo, profundamente. Despertaste ao som de uma disputa entre os teus filhos. A tua mulher, maçada, saíra para caminhar com as amigas do condomínio. Na tua cabeça ainda e sempre o sonho ancorado em impedimentos. O teu peito permanecia silencioso. Era um domingo igual a todos, era um domingo igual a ti.