
Vão-se os dedos ficam os anéis.
As minhas resoluções de ano novo foram várias, mais que muitas, imensas, tantas que até agora talvez só tenha conseguido cumprir umas três (e já só faltam quatro meses). Uma delas foi ceder à pressão social e passar férias no verão e no Algarve, felizmente que não as gastei todas porque aí sim seria um drama. Rumei a sul em Junho, voltei e, não contente, repeti, dose menor, em Agosto. O Algarve é lindo sobretudo se estivermos no areal voltados para o mar e na Via do Infante olhando para as serenas serras a norte (Monchique, Espinhaço de Cão e Caldeirão). Aquela faixa mediana de veraneio onde tudo (não) se passa deixo-a aos nórdicos sedentos de álcool e movida e às famílias nortenhas numerosas com algum grau de surdez (dado os decibéis produzidos enquanto dialogam) sedentas, por sua vez, de frango da Guia, de condomínios com tanques de cloro, azulejos e elevador e de feiras de artesanato com produtos típicos da TV Shop. Há os oásis e eu estive em três diferentes, onde só se ouvem os grilos, o mar, o vento suave de sul na pele enquanto lemos devagar, onde navegamos com pescadores para a praia, onde cheira a figos e se apanham das árvores amêndoas envolvidas em pequenos cobertores. Há assim estes oásis onde praticamente me barriquei. Para o ano, estou certa, vou também ser feliz ... só que em outro lugar.
Uma pequena fábula cuja moral da história é a mesma desde sempre ( e por isso não deve ser ensinada).
Este fim de semana aconteceram coisas boas, aliás como quase todos os fins de semana em que descansamos, lemos, passeamos e não ouvimos ou vemos notícias. As melhores coisas foram:Faz hoje 40 anos que a humanidade deu um grande passo. Faz hoje também 34 anos, 6 meses e dezoito dias que a elegi como habitat natural.
Partilho aqui um texto do MEC dito pelo Miguel Guilherme num original Festival ao Largo (o largo é o do Teatro S. Carlos em Lisboa) numa iniciativa das Produções Fictícias. Razões para dizer palavrões (com precisão) e ficar parte do verão em Lisboa, cada vez mais animada!Ontem na Fnac do Chiado em Lisboa, ao final da tarde. Um calor de morte (os descontos não dão para arranjar um ar condicionado decente?!), audiência em quantidade e altura (o que é que esta gente come para crescer assim?!), eu era a dos pulinhos, lá atrás no meu 1,65, sapatos rasos. Ora via, ora não via, ora via ora não via, qual anãozinho atrás do balcão. Mas ouvi, ouvi muito e isso, neste caso, é (quase, quase) tudo.
Sem perguntar, sem saber nada da minha vida, uma colega quase da mesma idade, casada pela segunda vez, achou que tinha uma missão (se a cumprisse dignamente salvar-me-ia e, em simultâneo, seria redimida de eventuais pecados, suponho): ensinar-me como "caçar um homem" (estou a citar). Abriu ali à minha frente um livro de receitas, daqueles cheios de ingredientes impronunciáveis e de erros crassos nas dosagens. Atitude, roupa, festas, sexo, culinária gourmet, maquilhagem, família, Deus, internet, cabeleireiro, massagens, danças exóticas. Ouvi atentamente sem perder pitada. No final liguei para o 112, alertei a Organização Mundial de Saúde para o risco de mais uma pandemia e retirei-me imune, morta de riso e certa de que basta ele dizer uma só palavra e eu serei salva. 
Hoje sai “No teu deserto” o quase romance do Miguel Sousa Tavares. Veio parar às minhas mãos antes de ser editado, li-o num ápice devorador. Este quase romance é mais um quase poema, um quase desabafo, um quase amor que se revelou menos quase que muitos outros, mais duradouros, mais publicitados. Escrito como de um relato de viagens se tratasse conta a história de uma específica viagem ao deserto argelino por acaso com Claúdia, que já morreu menos nele e na sua confusa gaveta de recordações. Interessante quando se vê pelos olhos de Cláudia – a visão daquilo que o Miguel acha que é uma mulher, concretamente aquela -, desinteressante quando, a certa altura, se contradiz sobre a memória do corpo dela. O deserto dele merece uma expedição, um lugar apertadinho na estante e umas frases anotadas no moleskine.