sexta-feira, junho 29, 2012

Agora cresce uma árvore


Maria Keil

Cai a tua palavra na solidão como um ramo de oliveira
na paz. Eu não sabia
que a tua voz chegaria com as estrelas.
És o meu grito de combate
contra a morte.
Agora uma árvore cresce onde o esquecimento
fecha os olhos.
Tu.

Eduardo Cote Lamus in Um país que sonha - 100 anos de poesia colombiana, Assirio&Alvim

quarta-feira, junho 27, 2012

Sebastianismo (à) rasca


Fico sentada aqui, em casa, sentada por aí a ler e a ouvir ecos deste novo sebastianismo com nome suburbano, essa surpresa que deifica, um homem ultraperiférico pela naturalidade, pela classe social, pela linhagem. Um homem ultraperiférico que pela vontade, pelo trabalho se transforma, em quase duas décadas, no Homem Central. O que tem tudo e pode tudo, o predestinado que afastará pragas e maus-olhados marcando, sozinho, golos atrás de golos, chutando as nossas frustrações bem para o fundo da baliza, dúvidas ao poste, baixa auto estima fora de jogo. Se falhar, falha sozinho, a admissibilidade do erro humano não cabe nos super poderes atribuídos, se falhar será lembrado pela ostentação, pelo gel pastoso, pela fragilidade das relações, pela família XXL, pelo fiasco, pela traição. Ninguém tão cedo lhe segurará o manto, lhe arreará o cavalo, ninguém, tão cedo, o deixará entrar, mesmo que ele quisesse, neste denso banco de nevoeiro que é, por estes dias, o nosso pobre e alucinado país.

sexta-feira, junho 22, 2012

Resolucionário

Passeava no Chiado quando fui atraída por um enorme cartaz, que assumia exclusividade numa montra da Mac, anunciado um mesmo gadget na sua mais recente versão. Nele uma foto artística do produto e uma só palavra, Resolucionário. E ali estava eu, reflectida num vidro a pensar que é disso mesmo que precisamos: mais do que uma revolução que tente resolver, resoluções que de facto revolucionem para que retomemos de um outro ponto qualquer um percurso evolutivo por ora abandonado.
Nota: lembrei-me também que resolucionário poderia remeter, tal como oceanário, para um mar de resoluções mas antes que me afogasse em ideias idiotas agarrei-me à frescura de um outro pensamento, mesmo ao virar da esquina, no Santini.

quarta-feira, junho 20, 2012

Concretizar


O meu karma lento só permitiu que visse o último episódio do "House" ontem. Não vou dissertar sobre as oito temporadas da série - que aliás não acompanhei com euforia - ou sobre a irresistível atracção pelo abismo que me desperta a personagem central. Só uma palavra sobre o último minuto em que House e a sua alma gémea, o incrível amigo com a morte datada, iniciam de mota a concretização de um sonho com o tempo que lhes resta. Ideia simples, batida mas, insistentemente, esquecida. Sonhar acordado, concretizar “ses”, abandonar “mas”, exercer a liberdade em grande estilo ainda que só no intervalo da manhã para o café.

terça-feira, junho 19, 2012

Definitivamente, não é só uma fase


Between the optimist and the pessimist, the difference is droll. The optimist sees the doughnut, the pessimist the hole!
Oscar Wilde

quinta-feira, junho 14, 2012

que o meu pensamento caminhe


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem são velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E.E.Cummings, livrodepoemas, Assírio&Alvim

terça-feira, junho 12, 2012

Na véspera...

... de mais uma efusiva comemoração de um santo popular, nada como explicar a religião às criancinhas através de música (pimba) do mundo.

segunda-feira, junho 11, 2012

Encarrilhada

Uns destes finais de dia, cansada e a precisar de por ordem cá dentro, fui andar no eléctrico 28. É um hábito antigo - it runs in the family - e serve para este fim e para reencontros felizes, mas isso é uma outra história. Poucos turistas, pessoas que se conhecem desde sempre, vizinhas que trocam raminhos de salsa, solitários da minha geração que  reciclam uma Lisboa até então abandonada, um ou dois putos empoleirados na traseira desafiando até o tranquilo caos de curvas e contra-curvas acidentadas. Janelas abertas, chiar desafinado, lua cheia reflectida no Tejo.  Da Graça aos Prazeres, dos Prazeres à Graça, assim, como tudo deveria ser na nossa vida.

terça-feira, junho 05, 2012

Depois...


... de um dia esgotante de trabalho nada melhor que descansar num


Poema de amor


Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo.


Jorge de Sousa Braga in O poeta Nu, 2007

segunda-feira, junho 04, 2012

Descartes 0 - Relvas 1

Cruzei-me com esta frase lá para as bandas do Cais do Sodré num destes dias. Gosto de fotografar arte efémera e por isso não resisti. Não resisti também a constatar o evidente: vivemos na época da mais absoluta negação do método cartesiano porque ora se pensamos não existimos ora se existimos é conveniente que não pensemos.

quarta-feira, maio 30, 2012

Contemplativo por contemplativo

O meu velho, experiente e paciente professor, responsável pelo aprimoramento do meu inglês, aconselha-me leituras e séries específicas consoante o que tratamos. Recentemente foi Downton Abbey para eu redescobrir “um certo inglês”. Na verdade já tinha visto quase toda a primeira série legendada no ano passado nas férias. Bonita mas não particularmente interessante. As tricas da criadagem e da nobreza que serve, inseridas num contexto pós-vitoriano, nunca foram hábeis o suficiente para me prenderem a atenção e o coração. Nem mesmo os elegantes modelitos, um ou outro ímpeto romântico ou uma manifestação ligeiramente arrebatadora de convicção – sinal de que as personagens estão mesmo vivas - me entusiasmaram. Há quem considere, tudo isto, uma heresia com direito a excomunhão pois vivem há muito dentro desta história e daquele tempo do qual demonstram, aliás, um inexplicável e absurdo saudosismo. Para mim, contemplativo por contemplativo, sempre é melhor ir pescar porque lá nos encontramos com o a água, com peixinhos gulosos (nos dias bons) e por vezes com umas animadas conversas nem que sejam com os próprios botões.

domingo, maio 27, 2012

Como deve de ser



Uma letra, do princípio dos anos 80, em que Chico Buarque  tão bem descreve como deve de ser. Uma voz recentemente guardada para caminhar comigo. Uma conjugação perfeita.

quinta-feira, maio 24, 2012

Dois segredos para não serem bem guardados



Uma sábia definição de felicidade acompanhada, para melhor a alcançar, do melhor blog de culinária nacional - Cinco quartos de laranja - que comprovadamente tem vindo a ser responsável não só pelo aumento do meu colesterol como pelo sucessivo abandono da biblioteca culinária lá de casa.

quarta-feira, maio 23, 2012

De sempre

Os amigos são para sempre? Interrogava-se ontem o Público num artigo razoável (não fora a opinião estereotipada da psicóloga portuguesa). É uma pergunta que andou às voltas por aqui durante muito tempo. Porque se impôs a dúvida, porque é necessário pensar sobre tudo o que nos estrutura. Após embates, quedas, surpresas, encantamentos, verdades certificadas, mentiras camufladas, acertos e erros, dias e dias felizes, acho que descobri a resposta: não serão para sempre os amigos, serão talvez de sempre. As vidas retomam-se em ciclos, a memória  selecciona a nossa história e aprendemos e desaprendemos a amar ao sabor das ilusões que criamos para nós e para os outros. Afastamo-nos ora pontual, ora irremediavelmente, aproximamo-nos porque nos encontramos num mesmo caminho, comprovamos que, depois de tantos anos, ainda vemos as mesmas formas, as mesmas cores. A narrativa das amizades vai sendo desfiada ora como uma trágica opereta ora como uma série cómica digna de sucessivos Emmys. O final depende totalmente da habilidade para adivinhar os nossos limites e os dos amigos. O final assim depende da nossa capacidade para reciclar, dor para um lado, felicidade para o outro, dádivas em recipiente à prova de tempo, instinto devidamente esvaziado de delírios egocêntricos, autoestima e carência afectiva em compartimentos separados, estanques. O final nas histórias com os amigos de sempre, escrito com cuidado e com esta sabedoria que por vezes escasseia, adivinha-se feliz.

segunda-feira, maio 21, 2012

Para começar


Nem sempre odeio segundas feiras. Nem sempre, como diz recorrentemente Dr. House, a Humanidade é sobrevalorizada. E agora repito isto em surdina, vezes infinito, até acreditar e nascer  cá dentro um enorme sorriso.

sexta-feira, maio 18, 2012

Não há razão para tanta preocupação

Desde Outubro tenho-me imposto novos hábitos: reduzir os telejornais ao mínimo, saber o estritamente necessário para manter, até quando for preciso, uma conversa civilizada circunstancial sobre a realidade do país e do mundo. O mesmo raciocínio vale para o extracto de conta. Aposto na leitura pontual dos jornais e aperto a seleccão dos cronistas. O meu índice de felicidade disparou, agora quase roça a total alienação enquanto me perco em séries, filmes, livros, espécies de peixes e as sardinheiras floridas da minha varanda. Oiço as conversas preocupadas e pessimistas e penso que um dia destes o segurança me vai barrar a entrada alegando que alguém assinou por mim um acordo que me cuspiu irremediavelmente da função pública, esquecendo-se de pôr qualquer compensação no bolso. Nesse mesmo dia, depois de estar a aproveitar a vida numa esplanada junto ao mar, irei ao multibanco levantar uns escudos da poupança para pagar um qualquer delicioso gelado artesanal e fá-lo-ei repetidamente até os gelados custarem milhares e milhares de escudos e o boneco quadrado irritante deixar cair os cantos da boca e me informar da falta de permissão do saldo para a gulodice. Sem dinheiro, sem emprego e sem gelado vou dedicar-me à troca directa com os velhinhos do meu bairro - os que sobreviverem à falta de escudos para a medicamentação - e trabalhar a imaginação para a produção caseira de energias alternativas algures entre o wc e as correntes de ar das janelas. Acalma-me a ideia de que nos buracos da ruas de Lisboa crescerão pequenos e adoráveis malmequeres e que, de todos os carros estacionados, por falta combustível e manutenção, surgirão estufas improvisadas com ervas aromáticas, tomates e outros produtos hortícolas essenciais à subsistência dos seus donos. Esquilos, alces, ouriços-cacheiros e a verdadeira fauna autóctone da região tomará as ruas pacificamente. Deixarei de querer ir a algum lado porque tudo implica muita troca e muito esforço e na altura já não será preciso combater com exercício a obesidade, os diabetes, a tensão alta e todas as maleitas possíveis decorrentes da ingestão desgovernada de hidratos de carbono. A praia será um Tejo translúcido e o campo um bucólico e longínquo Lumiar. Imagino-me, enquanto as dioptrias permitirem, a ler finalmente todos os livros que sempre sonhei e que, por ora, repousam entediados nas estantes deste mundo. Oiço assim as conversas e penso que não há razão para tanta preocupação.

quinta-feira, maio 17, 2012

Reivindicações


Hoje greve no metro, preguiça para caminhada matinal, autocarro à pinha. Cacofonia absoluta por uma sociedade justa (e remunerada). Ladrões, desemprego não é oportunidade, eles gastam nós pagamos, o que vai ser dos mais novos, e nós nem para medicamentos, com licença, temos é de abrir os olhos, falem mais baixo, a senhora que entrou por trás venha aqui pela frente, nunca mais compro passe, não há paciência, valha-nos Deus, dê um jeitinho, vão lá votar neles  vão. Da Alameda ao Saldanha, sete paragens, filosofia popular em stereo. Porque o povo, afinal o que quer o povo? Lá dizem os outros, o povo quer é um carro novo.

quarta-feira, maio 16, 2012

A vida é como a queremos ver

                          (Varsóvia, 1946)

Costumo ler a mini crónica diária do Miguel Esteves Cardoso no Público. Ser fã do MEC é um vírus muito comum na minha geração ávida da Kapa e d'O Independente. Ser fã do MEC não implicava necessariamente conhecer “os clássicos” – embora ele lhes faça referências mais ou menos subtis. Bastava somente gostar de ler aguçando em, simultâneo, o amor, o humor e a irreverência. Dizia, costumo lê-lo  também agora. Há quem afirme que está acabado, que escreve sobre futilidades, culinária, jardinagem, episódios domésticos, o tempo ou a relação com a mulher. Eu vejo um homem inteligente, enorme, ainda a cheirar a gin, que percebeu onde está a felicidade, que sabe que – como termina hoje a sua crónica – alcançar e amar estão irremediavelmente interligados.

domingo, maio 13, 2012

Ver


Ao fechar os olhos
abro-os dentro dos teus.

Octavio Paz

sexta-feira, maio 11, 2012

Música para os nossos ouvidos


O meu instrumento preferido dando vida a um filme português fantástico, Alice.