terça-feira, julho 27, 2010

Motivação

Onde encontrar motivação para escrever um imenso artigo durante todo o mês de Agosto quando o cheiro intenso da maresia afecta os sentidos e escorre areia com conchinhas do cérebro?

segunda-feira, julho 26, 2010

Toponímia

Não gosto muito de falar sobre toponímia. Disso sei demais. Dar nomes a ruas, avenidas, praças, becos sem saída. Não me obrigues a dizer-te como se chamam pracetas, impasses e jardins, inventei-os para não esquecer, decorei-os para não me perder. Toponímia pode ser sim uma conversa maçadora, porquê dos nomes, este numa viela, aquele outro numa praça bem em cima de um miradouro. Há motivos inversamente proporcionais à lógica e as palavras às vezes faltam, falham quando te quero explicar porquê, sobram-me memórias, sorrisos ao dobrar da esquina e umas quantas lágrimas que rolaram calçada abaixo. Não falemos sobre toponímia, limitemo-nos a seguir o trilho do carro eléctrico colina acima, colina abaixo ao ritmo imposto pelas mãos entrelaçadas que já esqueceram os mapas inúteis abandonados nos nossos bolsos.

sexta-feira, julho 23, 2010

O Livro...

... que me acompanha desde os 17 e ao qual volto sempre para relembrar o que é importante.

"Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca correctamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui".

Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

quarta-feira, julho 21, 2010

África dele

O nosso presidente da silva está por terras angolanas e escusou-se comentar política portuguesa no momento em que tanto se fala em alargamento dos seus poderes. Após este desvio, fundado na profunda concentração no país anfitrião, fico aguardando serenamente declarações históricas, que por certo não se escusará a fazer, sobre a política angolana.

segunda-feira, julho 12, 2010

Ainda

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem.

quinta-feira, julho 08, 2010

Precioso...

...é este filme que fala na vida dura do Harlem monstrando-nos uma mulher imensa, preta, pobre, analfabeta, doente que, apesar de tudo, faz com que os pequenos sonhos de sempre invadam gradualmente a sua dura realidade. A ver ou rever, certamente a guardar.

quarta-feira, junho 30, 2010

Recomeçar

Afinal engasgamo-nos nos com o pastelinho de bacalhau, não propriamente devido aos seus ingredientes mas devido ao cozinheiro, esse grande treinador de risco ao meio de tudo e sapato com a biqueira mais quadrada do Mundo.
Depois há ingredientes que dão um toque de perfeição como o transmontano Eduardo que, a chorar daquela maneira, ainda nos partiu mais o coração.
Acabou o futebol. Talvez já seja tempo de recomeçar a vida.

terça-feira, junho 29, 2010

E ainda (e porque não?) o Mundial de futebol...

Deixemo-los usufruir, com canhas e bocadillos, o seu último jogo deste Mundial em paz. Embora todos sabemos que é bem possível que se engasgem, bale?

Pontuação

Tremo no último grau da escala de Richter enquanto se põe este ponto final. Virão réplicas e reticências mas o futuro, que invade já este presente, tem outra pontuação.

sexta-feira, junho 25, 2010

A sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão

Ontem estreou "Brel nos Açores" no S. Luiz em Lisboa e lá estava eu a matar saudades das ilhas e a recordar o cantor que volta e meia me persegue com as palavras. Escrito pelo Nuno Costa Santos - o amigo Melancómico - e interpretado por Dinarte Branco, conta a história de Brel e em particular a sua passagem pelos Açores em Setembro de 1974 - onde se camuflou para não ser reconhecido (Brel, não era preciso... a malta andava na mais preocupada com outras coisas) - aquando da volta ao mundo no seu veleiro.
Um espectáculo verdadeiramente melancómico com apresentações limitadas ( ainda em cena SÓ hoje e amanhã). É favor embarcar!

terça-feira, junho 22, 2010

I'm lovin' it

Quem não se deliciou ontem com o belo repasto de golos que a nossa Selecção nos deu não só não gosta de futebol como também não liga muito a Portugal. Contudo deu-me um bocadinho de azia quando o Simão , após marcação de mais um golo, dançou qualquer coisa que, parecendo tola, fazia parte da campanha desse grande patrocinador que é o McDonalds. Como dizia hoje o Fernando Alves, nos seus sábios "Sinais" na TSF, o que precisamos de ti, ó Simão, não é fast food é fast foot.

segunda-feira, junho 21, 2010

Todo este céu, agora sem som


Abraça-me bem
e cobre o meu corpo
enfim
nesse agasalho
são os teus braços
sim
cuida de mim
basta-me um gesto porém
abraça-me bem

bem no teu colo
chega-me mais a ti um pouco mais suavemente assim
tudo por fim são mágoas que eu consolo
bem no teu colo

todo este céu de pássaros e tons muito assombrado
traz o teu sertão bom
todo este som
desce a nós
com um véu todo este céu

lançado à terra
sobre restingas e ilhéus
mil sombras de asas lembram a ausência
de um deus
num último adeus
pois só teu afago me espera
lançado à terra

e qualquer coisa acontece
no mais alto dos céus
qualquer coisa no fundo
do meu coração
mas não sei das trevas
nem da luz
pois sem ti não há
nem céu
nem chão

e se a noite já ronda
minha cruz
luz nas trevas
minha paixão


Fausto Bordalo Dias, numa rara aparição, CCB no último sábado. Mais um momento que que paro o relógio, acertado com a felicidade que este poema sempre me traz.

A hora H

“Sabia que todos os relógios de José Saramago estão marcados nas quatro da tarde, excepto o da cozinha? (...) É que no dia 14 de Junho de 86 Pilar conhece José numa entrevista de rádio que estava marcada para as quatro da tarde. Então José decidiu marcar todos os relógios nas 4 horas..."
Jornal I-on line, a propósito da morte da José Saramago.

Acertar o tempo pelo amor, acertarmo-nos não pelo que dizemos, pelo que escrevemos mas pelo que sentimos, pelo que vivemos. Parar o tempo nos momentos mais felizes de nós, viver na paz dessa felicidade e partilhar serenamente com quem está a nosso lado, com quem nos sorri nas dificuldades e nos respeita sempre. Haverá maior ambição?

terça-feira, junho 15, 2010

Férias com Eles

O novo livro de Inês Pedrosa entra definitivamente no universo masculino. Elas também estão por lá porque provocam, apoiam, fornicam, surpreendem, tramam, morrem. Eles confessam-se ao leitor sempre na primeira pessoa, nascem e morrem numa frase, reconhecem-se e desconhecem-se, tudo enquanto decorre um jantar de velhos (e verdadeiros) amigos numa tasca de Lisboa.
Da Inês gosto sempre mais das clarividentes crónicas, dos homens admiro o conceito de pura amizade onde as palavras mais duras, os julgamentos e as pequenas invejas ficam sempre no seu devido (e restrito) lugar.
Não é propriamente um manual de instruções para os conhecermos, talvez seja uma espécie de post-it para não nos esquecermos do que já sabemos.

Os Íntimos, Inês Pedrosa, Ed. Dom Quixote, 272 págs., 14,36 €

domingo, junho 06, 2010

à descoberta


Nas semanas em que falamos as línguas dos outros, provamos a comida dos outros, trocamos ideias com os outros, viajamos nos transportes dos outros, em que nos relembramos que "pouca-terra pouca terra" é linguagem universal, nas semanas em que os outros não sabem quem somos, em que nos vêem diferentes com os olhos deles, nessas semanas em que descobrimos que as suas vacas dormem mesmo deitadas no prado, em que compramos sapatos na sapataria "Cinderella", em que atravessamos cidades, vilas e aldeias, atravessamos canais e canais, ruas e ruas inundadas de gente feliz e triste, de chocolates, de almas perdidas e encontradas, de sexo, de mãos estendidas, de coisas que se vendem, todas as coisas que se podem imaginar ser vendidas... às bolas, são essas semanas precisamente essas que, com dor e alegria, alternadamente, descobrimos mais um bocadinho de quem somos.

terça-feira, maio 25, 2010

A confusão da precisão

E de novo, numa viagem de metropolitano, uma leitura atravessada, lá estava o “casamento homossexual entre pessoas do mesmo sexo”. Talvez o pleonasmo não exista de facto. Talvez a atenta observação da vida por estes experientes jornalistas os tenha encaminhado antes para a precisão da linguagem. Quem não conhece, afinal, casamentos homossexuais entre pessoas de sexos diferentes e casamentos heterossexuais entre pessoas do mesmo sexo?

quarta-feira, maio 19, 2010

Do fundo


Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar

(excerto de Espalhem a Notícia - Sérgio Godinho)

segunda-feira, maio 17, 2010

Amanhã

Amanhã não me vai apetecer escrever nada. Porque hoje tu não respondes, porque ontem não correspondi, porque antes, o antes deste depois, nós não soubemos. Amanhã não me vai apetecer escrever nada. A folha, outra, que retirei agora da minha gaveta de todas as folhas, vai continuar intacta à espera que um dia consiga cumprir o meu destino e escrever desalmadamente, com alma, tudo o que me vai na vida, que não é tanto como não parece mas que apetece ser escrito. Amanhã não me vai apetecer escrever nada porque só tu me sabes segurar assim na mão. Amanhã, se me apetecesse arriscar, forçar os dias sem ti, a letra, estou certa, sairia muito tremida.

Pode repetir?

"Duques de Bragança oferecem a Bento XVI edição limitada da Nossa Senhora do Rosário"

in Revista "LUX" desta semana